26.12.08

ARACNIDEOS

Sempre ouvi dizer que não se devia matar uma aranha. Parece que dá azar. E afinal de contas, pode ser que esta seja uma daquelas grandes e terríveis verdades.

18.12.08

O GRANDE ARQUITECTO


- Scarlatti também trabalhava muito, produzia muito, compunha muito. Mas olhe para o Mozart: tinha sempre aquela melodia que fazia toda a diferença. Você percebe-me, não percebe?
- Se percebo...

10.12.08

UMA HISTÓRIA DA HISTÓRIA


- Conta-me a história Tio!
- Já te disse bastas vezes que a minha História da história jamais iria além de um parco resumo do infinito. Um infinito cuja plenitude tentaria, tão bem quanto mal, transmitir-te.
- Então porque tentam os homens escrever a história?
- Para conhecer o passado. Ou para não esquecer aquilo que alguém quis que fosse relembrado.
- E o que me podes contar sobre esse passado?
- Nunca conseguiria ir além de uma história do infinito, um compêndio de factos inefáveis, uma biografia da eternidade - ou daquilo que parece eterno aos olhos do efémero. A minha história jamais iria para lá da imagem que os homens têm de si mesmos e das suas eternas esperanças. Seria o reflexo de um reflexo. Um espelho de espelhos. Uma amostra das ilusões dos homens, as quais são maiores e mais belas dos que o conjunto das suas obras mais sublimes...

1.12.08

A RAIZ DE TODOS OS MALES

«Pouco importa chamar a um homem Sua Alteza e a outro Sua Santidade. O que é duro é ver um homem a servir outro homem. Uma família numerosa cultivou um bom terreno. Duas famílias vizinhas têm campos ingratos e rebeldes: impõe-se-lhes servir ou eliminar a família opulenta. Uma das duas famílias indigentes vai oferecer os seus braços à rica para ter pão. A outra vai atacá-la e é derrotada. A família servente é fonte de criados e operários. A família subjugada é fonte de escravos.
É impossível, neste mundo miserável, que a sociedade humana não seja dividida em duas classes, uma de opressores, outra de oprimidos. Essas duas classes subdividem-se em mil outras, essas outras num sem número de cambiantes diferentes.
Nem todos os oprimidos são absolutamente desgraçados. A maior parte nasce nesse estado, e o trabalho contínuo impede-os de sentir toda a miséria da sua própria situação. Quando a sentem, porém, são guerras, como a do partido popular contra o partido do senado em Roma, as dos camponeses na Alemanha, Inglaterra e França.
Mais cedo ou mais tarde todas essas guerras terminam com a submissão do povo, porque os poderosos têm dinheiro e o dinheiro tudo pode no Estado. Digo no Estado, porque o mesmo não se dá de nação para nação. A nação que melhor se servir do ferro sempre subjugará aquela que, embora mais rica, tiver menos coragem
Voltaire, in Dicionário Filosófico

29.11.08

«RICARDINHO» SORGE

Terem enviado o mais jovem - e ingénuo - dos vossos agentes foi, de facto, verdadeiramente deplorável. Apanhado em flagrante, ao frio, sob o manto da chuva que caía sobre Lisboa. Fugiu pelas escadas abaixo, coitado, tentando passar despercebido numa teatral cena de má representação.
E foi tão lindo vê-lo ali, confrontado com a minha presença, acareado pelas minhas palavras de cínico reconforto, em que ambos sabíamos que o caçador tinha sido caçado.
A espionagem é um talento meus amigos. Uma arte que começa precisamente nessa teatralidade que o vosso jovem - e ingénuo - operacional foi incapaz de superar. Será que algum de vós (já) se esqueceu de que, também eu, estive presente no dia em que esse novo «Sorge» prestou provas?
Aquilo que continuo a não perdoar-vos é a forma de agir. Persistem em desrespeitar os princípios basilares que preenchem as páginas dos manuais. Daí a minha pergunta: porque raio teimam todos em querer comprovar sorrateiramente, aquilo que qualquer um de vós poderia testemunhar sem ser humilhantemente desmascarado?
Já aqui avisei: should I even feel a shadow behind me, there's no measure to how fast, and how hard, I will bring my strike to your doorstep. Garanto-vos que da próxima vez serei muito menos cordial com quem se lembrarem de enviar…

20.11.08

TRISTEZA(S)

«Um ânimo alegre disfarça mal o riso, um coração triste encobre mal o seu desgosto: como há-de chorar quem está contente? E como há-de rir quem está triste? Se alguma vez se chora donde só se deve rir, ou se ri por aquilo por que se deve chorar, a alma então penetrada de dor, ou de prazer, desmente aquele exterior fingido, e falso. Só a vaidade sabe transformar o gosto em dor, e esta em prazer, a alegria em tristeza, e esta em contentamento. Por isso as feridas não se sentem, antes lisonjeiam, quando foram alcançadas no ardor de uma peleja, esclarecida pelas circunstâncias da vitória. As cicatrizes por mais que causem deformidade enorme, não entristecem, antes alegram, porque servem de prova, e instrumento visível, por onde a cada instante, e sem palavras, o valor se justifica. São como uma prova muda, que todos entendem, e que todos vêem com admiração, e com respeito
Matias Aires, in Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens

12.11.08

TEMPUS FUGIT


Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais difícil olvidar aquelas promitentes palavras, proferidas pela embaixatriz há doze anos atrás. Sobretudo para um racionalista cartesiano como eu, que nega e remete para o campo do absurdo toda e qualquer dimensão esotérica do mundo. E no entanto...

4.11.08

DOS OUTROS


Tal como a religião, tudo aquilo que consideras inútil - um livro, um quadro, uma cantata de Bach, um templo construído numa colina ou à beira mar - é antes de mais um laço entre os homens. Não há livros se não houver leitores. Não há catedrais se não houver fieis. O público é o inimigo e a condição do artista. Para um escritor, para um músico, para um pintor, é tão fatal procurar um público como não ter nenhum. Os grandes feitos deste mundo são concluídos longe dos outros, apesar dos outros, por vezes contra os outros. E também são realizados para eles.
Tudo, neste mundo, acaba por ser julgado pelos outros. Por aqueles que nos rodeiam, por aqueles que vêm depois de nós. Todos necessitam de outras coisas para além dessas coisas necessárias, que são tão inúteis, e pelas quais basta morrermos para nos apercebermos da sua insignificância. Existem sons, existem formas, cores e livros para encantar os homens. E para torná-los um pouco mais homens - ou talvez um pouco menos. Quero dizer, para elevá-los acima daquilo que são…

29.10.08

A VERDADE DA MENTIRA


Ainda acreditas na verdade? Ah, soubesses tu o persistente teor da mentira humana, e farias das tuas palavras um outro vocábulo. A mentira é tudo, enquanto que a verdade essa, não é nada. Quanto muito é aquilo que queremos que seja. Eu, tu, ele, ela, todos nós construímos as nossas mentiras sobre as cinzas da verdade.
O cientista mais erudito conseguirá provar-te que uma soma de números é verdadeira, mas será ele capaz de provar ao alienígena de Andrómeda que um mais um são dois? São Tomé, o incrédulo, precisa de ver para crer? Mostra-lhe uma mentira, e ele acreditará. O teu melhor amigo diz-te que esteve contigo esta semana, ou tu a ele que estiveram juntos há dias? Que um de vós experimente negar a verdade: esmorecer-se-á para sempre por entre as brumas da mentira.
A verdade não existe, minha amiga. Peca por não ser objectiva e resulta da própria negação daquilo que é: a mentira. Dizeres que o céu está azul a quem acordou num mundo cinzento, contém tanto de verdadeiro como dizeres a uma criança que o sofrimento e a dor não existem na terra. Até o mais inocente testemunho contém réstias de parcialidade.
Houve quem dissesse que uma mentira repetida mil vezes se tornaria numa verdade. Quanto a mim, prefiro mentir-te. Prefiro dizer-te que circulam por esse mundo fora muitas mentiras e que, muito pior, grande parte delas são gigantescas verdades...

20.10.08

DA ESCRITA

«A escrita é o desconhecido. Antes de escrever não sabemos nada acerca do que vamos escrever. Com toda a lucidez.
É o desconhecido de nós mesmos, da nossa cabeça, do nosso corpo. Não é sequer uma reflexão, escrever é uma espécie de faculdade que temos ao lado da nossa pessoa, paralelamente a ela, de uma outra pessoa que aparece e que avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que, por vezes, pelos seus próprios factos, está em perigo de perder a vida.
Se soubéssemos alguma coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não valeria a pena.
Escrever é tentar saber aquilo que escreveríamos se escrevêssemos - só o sabemos depois - antes, é a interrogação mais perigosa que nos podemos fazer. Mas é também a mais corrente...»
Marguerite Duras, in Escrever

11.10.08

VIRTUDE E CORRUPÇÃO


«Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. E sei-o muito bem. Sou como eles, pelo menos momenta- neamente, ou poderia tê-lo sido. Entre os outros e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta, este contra-mestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas talvez seja um bom filho, este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querermos encontrar em cada ser humano as virtudes que ele não tem, e desinteressarmo-nos precisamente de cultivar todas aquelas que ele possui.» (Marguerite Yourcenar, in Memórias de Adriano).
Eis a minha próxima "batalha". Que o diga a Maria José Morgado...

3.10.08

QUANDO A FÚRIA CEGA A RAZÃO (1)

Somente o ódio, o ódio mais profundo e dilacerante, me impedem de te dizer hoje aquilo que penso sobre ti. Mas em breve terei acalmado esta minha fúria e, aí sim, estamparei aqui as mais duras palavras que os teus olhos, receio, jamais chegarão a ler...

29.9.08

pAraBÉnS!


O que seria Lisboa, a música, a arte e a festa sem o Lux? Penso que a resposta é simples: não seria. Por tudo aquilo que representas, por tudo aquilo que nos deste, e por tudo aquilo que ainda nos tens para dar, fica aqui um grande abraço de Parabéns. Parabéns e até logo, claro.

22.9.08

FOI HÁ DOIS DIAS...

E como não poderia deixar de ser esqueci-me, ou tudo tentei fazer para esquecer.
Tive pena que outros não tivessem esquecido...

16.9.08

THE SHADOW OF THREAT


Should I even feel a shadow behind me, there's no measure to how fast, and how hard, I will bring my strike to your doorstep.

9.9.08

INEXPLICÁVEIS CONTRADIÇÕES

Não percebo como é que se pode ser CONTRA o aborto, e ao mesmo tempo uma FERVOROSA defensora do lobbie das armas.
Repara Sarah, não te estou a criticar pelos valores que defendes ou deixas de defender, apesar daquilo que eu possa pensar sobre eles. A insensatez do teu discurso e o nível dos teus disparates são suficientes para destruir a tua credibilidade.
Tantas contradições, tanto cinísmo no teu pensamento, tanta decadência na pessoa que sempre foste e aparentemente, sempre serás.
E ainda sonhas em chegar a esse lugar de topo...

2.9.08

DE TOLERANTIAE

A Maçonaria tem por princípios a tolerância, o respeito dos outros e de si mesmo e a liberdade absoluta de consciência.
A Maçonaria combate a tirania e a ignorância.
Daí as tomadas de posição, as lutas, os combates desesperados... e desesperantes.

29.8.08

OS IDEALISTAS

"La Liberté guidant le Peuple"
Eugène Delacroix (1798-1863)


«Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade.
A sombra terrestre que se alonga por detrás dos deuses de mármore basta para nos afastar deles. Ah, com que amplexo o homem se estreitou a si próprio! Pátria, justiça, grandeza, piedade, verdade, qual das suas estátuas não traz em si os sinais das mãos humanas para que não desperte a mesma ironia triste que os velhos rostos outrora amados?
Compreender não significa necessariamente aceitar todas as loucuras. E, no entanto, quantos sacrifícios, quantos heroísmos injustificados dormem em nós...»
André Malraux

20.8.08

RECORDAÇÕES (II)

"Man in Sorrow"
Van Gogh (1853-1890)


«Ai Fidélio, não sabes com quem te estás a meter», soltou Maria da Graça, num tom desabrido e irado. «Não sabes mesmo com quem te estás a meter…»
Infelizmente sabia.
Julgais que esqueci? É difícil olvidar, passados sete anos, a dimensão daquele prenúncio no rumo dos dias que estavam para vir. Paguei (e com que preço!), sabeis bem disso, cada um dos meus passos em falso. De há sete anos para cá afastado de todos, outros tantos afastado de tudo. Sete Natais, sete Páscoas, sete Verões. Casamentos, aniversários, jantares, sorrisos, canduras e outros doces momentos de união para os quais nenhum de vós me convidou.
Até então incontornável, tornei-me repentinamente indesejável.
Todos aprenderam a afastar-se de mim. O vosso dinheiro tem muito poder – nunca descureis este pormenor –, sobretudo quando não estamos a falar de milhão, mas de milhões. Regozijaram-se os invejosos que me viram cair. Congratularam-se os intriguistas que me empurraram para o penhasco da minha profunda solidão. Especularam todos aqueles que nada entenderam, antes de comprarem ingenuamente o primeiro enredo que lhes foi servido. Tornei-me incómodo até junto das crianças, receosas de um terrível castigo vindo dos seus Pais, tão dominadas que estavam pela ingenuidade de uma idade, onde a clareza dos factos se lhes escapa, diluída na névoa do mundo cinzento que as rodeia.
E ainda estais espantados, desgraçados consanguíneos, que eu me tenha afastado? De envergonhado pelos meus actos, passei a ter vergonha de ser dos vossos. Um braço estendido, um gesto amistoso… serão estas afecções que desconhecem? Solidariedade, apoio, compaixão e amizade, também eles substantivos remotos nesse vosso vocabulário impiedoso?
Abandonei-vos todos. Abandonaram-me todos também. A família primeiro, protectora nos instantes fáceis, avassaladora nos momentos difíceis. Os amigos depois, dos verdadeiros aos interesseiros: perdoem-me os primeiros pela inenarrável frieza do meu gesto, continuem a ignorar-me os segundos. Apaguei-vos como se nunca tivessem existido, quando foram precisamente os únicos que sobraram na luz do meu quotidiano.
Despedi-me de todos vós. Sois águas passadas no rio da minha vida.
Seguiram-se outros tempos.
Vieram os dias dos boatos intriguistas, essa incontornável arte que os seres humanos dominam sobejamente. Quantas coisas não descobri sobre mim, através de figuras interpostas. Tanta imaginação, tanta fertilidade na construção dos vossos contos de escárnio e maldizer. Tantos achados sobre a minha pessoa, defeitos que desconhecia, e outras qualidades que nunca tive, se é que alguma vez terei.
«Não sabes com quem te estás a meter…»
Afinal, eu sabia perfeitamente com quem me estava a meter: com os meus. E ainda bem que assim foi. Caso contrário, jamais me teria tornado na pessoa que hoje sou.

11.8.08

AS HORAS...

"As Lágrimas"
Man Ray (1890-1976)


«To look life in the face, always to look life in the face, and to know it for what it is. At last, to know it. To love it for what it is, and then, to put it away. Always the years between us, always the tears. Always the love. Always the hours...»
Michael Cunningham, in The Hours

3.8.08

O INFINITO DAS COISAS


Não acredito no infinito das coisas. Tudo tem um fim. Nada é eterno. O dia, a noite, o horizonte do céu, a própria vida, são capítulos finitos no livro da eternidade, apesar do esforço dos homens para perpetuar a história dos dias vividos.
Quantas estátuas de pedra herdámos do passado, vã homenagem a personagens desaparecidos, levados pela brisa dos séculos! Quantos livros nos recordam feitos esquecidos no tempo! Quantos nomes gravados nas lápides do jardim dos nossos antepassados... E ainda me falam no infinito das coisas?
O infinito das coisas não existe. Apenas sobrevivem as coisas do infinito. Um conjunto de memórias escolhidas pelos homens de ontem, na derradeira tentativa de transmitir aos homens de hoje, aquilo que todos teremos esquecido amanhã.
Até ao dia. O dia em que nada mais será.

31.7.08

SILLY PEOPLE


Esta genial invenção que designamos por Silly Season, mais não é do que uma boa desculpa, para continuarmos a fazer nas férias, aquilo que fazemos durante todo o ano: nada!
É como que uma justificação para o facto do país parar, como que um aval para que não aconteça nada. Pior, é a explicação pela qual se deixa acumular trabalho para depois das férias, como se o mundo pudesse deixar de respirar. Dir-me-ão que todos temos direito a férias. Dir-me-ão que a expressão foi importada de países mais desenvolvidos. E nós, provincianos que somos, achamos piada. Vem de fora, logo é bom. Vem de fora, logo introduzimos na nossa cultura, de modo a que daqui a dez anos se tenha transformado num direito adquirido. É tradição diremos.
Tenho pena que não importemos outras coisas. O gosto de trabalhar mais (e bem!), por exemplo.
Pelos vistos o país pode parar. E pára. Mas infelizmente, o mundo não pára. E é por isso que vai continuando aos poucos sem nós. Digam aos chineses - ou aos japoneses - para pararem um mês. Já estou a imaginar a sua resposta: silly people...

24.7.08

ESCRAVOS DA RELIGIÃO

«É tão grande a fraqueza do género humano, tamanha a sua perversidade, que, sem dúvida, lhe vale mais estar subjugado por todas as superstições possíveis - desde que não tenham carácter assassino - do que viver sem religião. O homem sempre teve necessidade de um freio e, por ridículo que fosse sacrificar aos faunos, aos silvanos ou às náiades, era mais razoável e mais útil adorar essas imagens fantásticas da Divindade do que entregar-se ao ateísmo. Um ateu que fosse razoador, violento e poderoso, seria um flagelo tão funesto como um supersticioso sanguinário.»
Voltaire, in Tratado sobre a Tolerância

17.7.08

PERPLEXIDADES

Há coisa de um ano, escrevinhei aqui um pequeno texto sobre falsidades e hipócrisia. Soubesse eu quantas almas ia perturbar, teria ficado calado. Serão tantos assim, aqueles que se sentiram concernados ?

10.7.08

RECORDAÇÕES (I)


Carrego na memória o dia em que a embaixatriz leu as borras de café.
Passaram doze anos.
Viu tudo. Absolutamente tudo...

3.7.08

A IMPORTÂNCIA DAS COISAS PEQUENAS

Devemos ter pena dos homens por serem infelizes. E devemos invejá-los por terem génio. A história está repleta de pintores, de músicos, de mestres da guerra e de profetas que são leccionados às crianças. E não sem razão. Não há nada melhor do que ajustar o mundo, percebê-lo, transformá-lo, vencê-lo e torná-lo mais belo. Creio que, mais do que as batalhas, os tratados, as leis, o suavizar dos costumes, e até mesmo as invenções que tanto mudaram as nossas vidas (o fogo, a roda, a agricultura, as cidades), as pequenas coisas inúteis do dia a dia constituem aquilo que nos ajuda a tornar a vida mais suportável.
Não é necessário, para sobreviver, escrever o Rei Édipo ou as Bodas de Figaro, pintar o Milagre da Profanação da Hóstia ou a Batalha de San Romano, com os seus escudos, as suas lanças, ou os pavimentos de mármore a preto e branco da catedral de Siena. Não é necessário. É outra coisa. Como um chamamento ou algo de natural. Como uma necessidade de dar à luz. Como uma vontade de dar a um sonho vago a consistência e a permanência da pedra ou do carvalho.
Aquilo que era inútil torna-se então mais necessário do que a própria necessidade pois, por um mistério que não consigo explicar por ser inexplicável, a beleza também ela é necessária aos homens. Uma espécie de gramática dos sonhos do homem constitui-se século após século. As obras não remetem apenas ao mundo real, do qual são a fiel representação: remetem também umas às outras…

28.6.08

A MISSÃO DA ARTE

"Vénus de Milo", atribuido a Alexandros de Antióquia (séc. Iº a.c)

«Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existiem tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial.»
Marcel Proust, in Le Temps Retrouvé

18.6.08

SAPERE AUDE!

"Immanuel Kant" (autor desconhecido)

Uma parte do génio humano consiste em adivinhar, por vezes inventar, os moldes dos tempos que estão para vir. Aos espíritos em atraso – os quais distinguem-se pela fidelidade – opõem-se todos aqueles que estão devançados em relação à sua época, alterando hábitos, tradições, conforto e continuidade. Passar do ontem ao amanhã e do presente ao futuro é tão difícil, para os homens, quanto chegar a este mundo. E uma vez chegados ao presente (nunca esqueçamos que nascer é entrar num presente que apenas nos abandonará no dia da nossa morte), este último submerge-nos num ápice.
Assim, cada homem apenas pode pensar como pensam os seus contemporâneos. Recordemos Aristóteles, Santo-Agostinho ou Bossuet, espíritos com uma força excepcional… jamais foram capazes de condenar a escravatura. E no entanto, alguns séculos mais tarde, esta surgiu como uma evidência, até aos olhos do mais bruto dos homens.
É pois necessário um esforço sobre-humano para conseguirmos pensar além do nosso meio e do nosso tempo. Pior, é totalmente impossível para um homem, pensar outra coisa, do que aquilo que pensam todos os outros homens…

11.6.08

GERAÇÃO FÚTIL

A vida vai muito além da mera futilidade, dos sapatos Manolo Blahnicks e dos sacos Louis Vuitton. É também tudo o resto.
É a neve, a tempestade, a violência, o crime. É o amanhecer, o charme dos fins de tarde à sombra dos ciprestes. É a felicidade em todos os seus estados. É o enterro das crianças que partiram de manhã para nunca regressar, as batalhas no deserto Afegão, e o árduo trabalho de milhões de indianos.
É a chegada, velas abertas, de qualquer veleiro a qualquer ilha de um qualquer oceano. Ou ainda a entrada, sob uma chuva forte, de um paquete no porto de Nova Iorque, onde desfilam bancos, seguradoras, conselhos de administração, e milhares de mendigos à tua frente...

3.6.08

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PODER

«Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir. Porque o sofrimento, é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas).
Queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder. Ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O facto de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos actos, mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservarmos o nosso sentimento de poder».
Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

31.5.08

ETERNOS SILÊNCIOS

Volvidos seis anos sobre tudo aquilo que os nossos sinistros silêncios silenciaram, deixai-me aqui dizer, para o bem e para o mal, o que penso de vós: todos iguais!
Convencidos, altivos, arrogantes e emproados. Imbuídos dessa certeza que em tempos nos elevou (e hoje ainda, vos eleva) até ao patamar da intocabilidade. Julgais ter o mundo a vossos pés, julgais, sendo poderosos, atemorizar.
Nunca esqueçais, porém, que o silêncio é a minha arma. Esse silêncio que silencia as vossas palavras. Esse silêncio, que ao silenciar-me, silencia-vos a todos também...

26.5.08

FROM DUST TO DUST...

«Esta nossa chamada vida, não é mais do que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo: De utero translatus ad tumulum: Mas ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo; como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele, tanto mais se chega para ele: e quem, quanto mais se aparta, mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó.»
Padre António Vieira, in "Sermões"

19.5.08

O PODER DO PRÍNCIPE

"Luís XIV", Hyacinthe Rigaud (1659-1743)

Quando o homem rico se encontra às portas da morte, torna-se delicioso observar aquela legião de herdeiros, na sua reverente peregrinação, até ao leito do Príncipe. Falo do homem muito rico, claro, não do homem rico. Um homem cujos zeros na conta bancária são tantos, que à falta de um, não daria ele – nem ninguém – por nada. Um homem que vive, não dos juros, mas dos juros desses juros. Uma espécie de homem a quem os bancos rogam para que não retire o dinheiro dos seus cofres; um homem cobiçado pelos tesoureiros dos partidos políticos, instituições e outros poderosos mendigos da nossa sociedade; um tipo de homem, cuja família se está a preparar, para banquetear um suculento e apetecível espólio, entrevendo para breve, o dia em que o homem não mais será.
E é tão lindo vê-los ali como abutres, melhor, como moscas, de volta do Príncipe moribundo. A este propósito, convenhamos que todo o cuidado não é pouco: sucede, por vezes, que o homem rico resista às intempéries da doença, alterando, como que iluminado por uma súbita visão celestial, aquela que foi em tempos a sua vontade testamental. Assim, o medo de uma herança parca, pior, o terrível receio de não conquistarem a totalidade do tesouro, torna a observação destas – deploráveis – criaturas, um desporto tão divertido.
Quanto a mim, sabes muito bem porque não estou, não estive, nem estarei lá para venerar-te. Contudo, prefiro deixar a explicação para outro dia. Demasiada indignação, demasiado rancor, demasiada ira, continuam a pesar sobre a perspicuidade dos meus sentimentos…
«As disputas deveriam ser regulamentadas e punidas como os outros crimes verbais. Que defeitos não suscitam e acumulam em nós, reguladas e governadas como são pela cólera! Começamos por ser inimigos das razões e acabamos por ser inimigos dos homens. Só aprendemos a discutir para contradizer, e, à força de se contradizer e ser-se contradito, vem a acontecer que o fruto das discussões é perder-se e aniquilar-se a verdade.» (Michel de Montaigne, in "Da Arte de Discutir")

10.5.08

O QUE PROCURO NA LITERATURA?

"A Biblioteca", Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)

«O que procuro na literatura? O que é que me arrasta para este combate interminável e sempre votado ao fracasso? Como é imbecil pensar-se que se escreve para se "ter nome" e as vantagens que nisso vêm. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas só porque sempre se falhou. Assim se sabe também que se vai falhar de novo. Não se escreve para ninguém, o problema decide-se apenas entre nós e nós. Mas há um lugar inatingível e cada nova tentativa é uma tentativa para o alcançar.
O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.
O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer.»
Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 3"

2.5.08

OS TOLOS

"The Wisdom of the Fool", Jan Matejko (1838-1893)

«Quando todos pensam da mesma maneira, ninguém pensa grande coisa», escreveu em tempos Voltaire. Daí talvez, embora noutro registo (e numa fortuita coincidência), o famoso «sapere aude, tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento», de Kant.
Revolta-me a insensatez da mente humana. Mal-entendidos sobre palavras ditas, interpretações erróneas de palavras escritas, pior, especulação em torno de palavras bonitas. O que seria do patrimonium mundi sem as Tentações de um Bosch, o desespero de uma Canção Nerudiana, umas notas soltas de Liszt, ou a beleza de umas palavras amigas?
Vivemos rodeados pelo belo: a natureza, as criações do homem, a vida, a infinitude das estrelas do céu, aquele sorriso inocente, a solidariedade para com aqueles que sofrem. Mas sempre, sempre teimamos em ver o feio, em ver as coisas como não são, e sobretudo, em vê-las como mais nos assustam.
Talvez por pensares, tu também, desta maneira, não penses, como todos eles, grande coisa. «Sapere aude», como dizia "o outro"...

30.4.08

LETTER FROM A FRIEND

«Eu continuava, entretida nesta minha missão de registar o momento, ao verde, ao papel. No papel.
Pensava nos teus braços, olhando-os. Olhava-os com o pensamento. A sua forma perfeita, a forma também perfeita como respondia ao movimento da tua mão, que lia o livro com o lápis.
Os teus dedos a segurar as páginas, as páginas cheias de palavras a segurarem a tua cabeça.
Tudo tão perfeito que quase me esqueço de escrever só para te ver.
Parecia que estava a escrever às escondidas. Digo "parecia" porque embora me refira ao agora, escrevo a pensar no momento de ler. De leres.
Quando estás a pensar franzes o sobrolho, ficas com um ar muito sério a fazer com que as palavras te percebam e não o contrário. É o que vejo daqui, dedo indicador na boca para ajudar a pensar, vejo-te a ti, dentro da própria paisagem.
Acho que ficas bem em qualquer lugar. Tens as paisagens mais bonitas dentro de ti.»
Obrigado...

24.4.08

ÁFRICA, CONTINENTE NEGRO...

Dark history, of a dark continent, full of dark innocent people.
Agora que por lá passaste, percebes enfim estas minhas palavras, que em tempos tanto criticaste?

16.4.08

DA AMIZADE (3ª PARTE)

«O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: "porque era ele, porque era eu".
Não me venham meter ao mesmo nível essas outras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do género, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela - o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. "Amai o vosso amigo", dizia Quílon, "como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar". Este preceito, tão abominável se aplicada à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: "Ó amigos meus, não há nenhum amigo!"».
Michel de Montaigne, in "Ensaios"

9.4.08

INEXPLICAVELMENTE INESCUSÁVEL

«Il y a des comportements inexcusables qui sont donc inexplicabes. Quand on veut expliquer l'inexplicable, c'est qu'on s'aprête à excuser l'inexcusable.»
Nicolas Sarkozy

2.4.08

PARABÉNS...

Pois é. Já lá vão três aninhos de «blogging», Fidélio.
Fidélio é o nome da única ópera do compositor alemão Ludwig van Beethoven. Nesta ópera, Beethoven aborda os temas da Liberdade e da Fraternidade, assim como os temas da Arbitrariedade (incarnada pelo governador de uma prisão espanhola) e do Amor, o qual levará Leonore, mascarada de homem, a arricar a vida para libertar Florestino...

28.3.08

CARTA DE UMA DESCONHECIDA

«Quero falar a sós contigo, dizer-te tudo pela primeira vez; hás-de ficar a saber toda a minha vida que sempre foi tua e acerca da qual jamais soubeste. Contudo apenas hás-de ficar a saber do meu segredo quando estiver morta, quando já não tiveres de responder-me, quando chegar verdadeiramente ao fim aquilo que agora me estremece pés e mãos, ora me afrontando ora me enregelando. Caso fique viva, então rasgarei esta carta e guardarei silêncio como sempre fiz. Caso a tenhas em teu poder, ficas então a saber ser uma morta quem te conta aqui a sua vida, que foi tua desde a sua primeira até à sua última hora em que esteve de plena consciência. Não tenhas receio das minhas palavras; uma morta não pretende mais nada, não pretende amor e não pretende pena, e também não consolo. Pretendo apenas isto de ti que acredites em tudo o que denuncia a minha dor quem em ti se refugia. Acredita plenamente em mim, peço-te apenas uma coisa: não se mente em plena hora da morte de um filho que é único
Stefan Zweig, in "Carta de uma desconhecida"

20.3.08

TRISTES GUERRAS

Passam hoje cinco anos sobre a invasão do Iraque, sobrinho.
Alguns pensam que o mundo é um sonho, outros sustentam que é uma dura realidade. Mas o mundo não é um sonho, ou então é esse sonho a que chamamos de realidade. O sofrimento, o desgosto, as lágrimas, a saudade e a esperança, constituem um sistema com uma coerência sem falhas. Tenta explicar a um homem que tem sede ou que tem fome, a uma mulher que perdeu todos aqueles que amava, a um jovem que está a ser lentamente devorado por uma doença sem cura, ou a uma criança cuja perna foi destroçada por uma mina... que a vida é um sonho. Enviar-te-á passear!
O mundo é uma realidade. E a realidade sobrinho, a realidade é cruel.

12.3.08

INGÉNUAS (IN)CONFIDÊNCIAS...

Gostei de te ouvir sussurrar, naquela que julgaste ser uma discreta (in)confidência entre amigas, esse «será que já leu», tão basbaque e tão ingénuo. Consternado, venho dizer-te que sim, que já o fez. E acrescento, para tua informação, que existem neste mundo pessoas cujas setas voam na escuridão. Nunca as queiras cruzar na tua existência, é tudo quanto desejo para a tua felicidade.
Sabes, já não sou uma criança. Demasiados anos de vida nos separam, mas sobretudo, demasiada prática naquilo em que os humanos há tantos séculos se especializaram: o excídio. Perdoa-me a minha arrogância, mas neste campo, tal como em muitos outros aliás - exceptuando talvez o da mesquinhez que tão bem te caracteriza -, pouco ou nada tenho para aprender contigo. Ainda te encontravas no teu miserável leito materno, já eu dominava a subtil «arte» da conflitualidade assimétrica, tendo sido formado nas melhores escolas da subversão. O mesmo não se poderá dizer de ti, receio, ínvida adolescente.
No fundo, não passas disso mesmo, de uma criança. Deixas-te dominar por sentimentos raivosos. A cada instante és devorada por novos anseios, que mais não são do que o comum dos pecados que assolam almas como a tua: a inveja, o ciúme e a hipocrisia. São estas as paixões que escravizam a tua conduta. É este o espectro que escurece o teu caminho, conduzindo-te até ao terreno perigoso no qual te encontras hoje, e do qual dificilmente sairás.
Lamento desapontar-te, mas antevejo para ti um futuro pouco radioso. A ferocidade das palavras com que as tuas colegas te descreveram, naquele decadente momento de confraternização, expressam tudo a teu respeito: lidas mal com o facto de teres nascido num berço de palha, e vives ainda pior junto daqueles que cresceram em berços de ouro.
Não é esta, contudo, a crítica que te aponto. Já me conheces bem, e deves saber que não julgo os outros pelas suas origens. Dou mais valor à conduta, à sapiência, e sobretudo, à Tolerância. Não há mal em criticar, apenas há em fazê-lo sob o manto da hipocrisia. Não há mal em saber menos, apenas há em não querer saber mais.
Recordas-te de Marcus Licinius o romano? Deixa-me então escrevinhar aqui um conselho: não cometas o mesmo erro Crasso de enverdar por um caminho estreito. Lembra-te que as minhas setas também voam. Simplesmente voam na escuridão, e de forma muito certeira…

4.3.08

ESPELHO MEU, ESPELHO TEU

"La Reproduction Interdite", René Magritte (1898-1967)

«Já na véspera eu sabia que ia ser o primeiro a chegar. Mas não se tratava de ser ou não o primeiro...»
Fiódor Dostoiévski, in Cadernos do Subterrâneo

29.2.08

CONTINUAM A SER ESTAS...

...as palavras do silêncio.
E duraram mais um mês.

30.1.08

TINTIN NO IRAQUE (PARTE II)

«O único governo que eu reconheço - e pouco importa o reduzido número de homens que dele fazem parte ou o tamanho diminuto do seu exército - é o Poder que instaura a Justiça neste país, e em nenhum caso aquele que faz reinar a injustiça. O que pensar de um governo, para o qual todos os homens verdadeiramente corajosos e justos do país, são inimigos que se atravessam entre os seus desígnios e aqueles que oprime? Um governo que afirma ser cristão mas que crucifica um milhão de cristos a cada dia!
Traição! Mas qual a sua origem? Sou incapaz de não pensar em vós na forma como vos vejo, vós outros, os governos. Quando tiverdes capturado e executado todos os homens rebeldes, nada mais tereis feito do que executar o vosso próprio destino, pois não tereis acertado no alvo. Julgais poder enfrentar um adversário contra o qual nem os vossos canhões, nem os vossos cadetes de West Point, nada podem fazer...»
Henry David Thoreau, in A Plea for Capitain John Brown

24.1.08

IN NOMINE CHRISTI

In nomini Christi, cometeram-se algumas das maiores exacções na história da humanidade. Expliquem-me agora, in nomini qui, é que um banco, misto de banqueiros vorazes e de supranumerários moralizadores, enganou tantos por tanto tempo? In nomine papam ou in nomine Dei?
Dei, Dei... quantos crimes se cometem em teu nome!

17.1.08

TINTIN NO IRAQUE (PARTE I)

«Falamos de um governo representativo, mas não será monstruoso um governo no qual as mais nobres faculdades do espírito e do coração não estejam representadas? Um tigre ou um búfalo, misto de animal e de ser humano cujo coração foi arrancado por um tiro, e cujo cérebro foi despedaçado por uma bala, percorrem a Terra. Quantos heróis não persistiram no combate, depois das suas pernas terem sido varridas pelo fogo do inimigo! Mas o que fez em nome da Paz um governo como este
Henry David Thoreau, in A Plea for Capitain John Brown

10.1.08

«GARDÉNIA PASSION»

«Estou diante da tua porta, impecavelmente vestido e com um ramo de gardénias na mão. Tenho a intenção de tocar, esperar uns segundos e ver aparecer a tua cabeça na moldura da entrada com uma expressão de cínica surpresa, pois ambos sabemos que estás à minha espera. Tenho a intenção de entrar, boa tarde, como estás, dar o primeiro passo, a alcatifa branca, o cadeirão, um café, cigarros turcos em cima da mesa, louvores pelo bom gosto na escolha dos cinzeiros, e as abomináveis reproduções de Picasso.
Há como que uma atitude marcial no acto de procurar com o dedo indicador o botão negro da campainha, entrar em contacto com a baquelite, carregar com uma certa sensualidade e verificar que não se ouve qualquer som. Um pouco mais veloz, o dedo repete a operação, carrega desta vez com mais força na campainha, permanece uns segundos a carregar, mas não se ouve nada. Dedução imediata: paranóia dos fios.
Então retrocedo vinte centímetros, componho o nó da gravata, verifico a simetria do ramo de gardénias que já começam a dar sinais de instabilidade no seu invólucro e dobro os dedos da mão direita num movimento que começa nas primeiras falanges, até que a mão adopta a atitude de um caracol voluntarioso. Tomo balanço, isto é, a mão retrocede até ficar paralisada como que por uma parede de ar que impede uma maior deslocação e se prepara para cair contra a superfície branca da porta. Quando a mão está a escassos milímetros, detém-se, e penso então em todas as possibilidades.
Poderia dar-se o caso de o ruído imprevisto, toc toc, te provocar um repentino pavor. A terrível sensação de pensares num hóspede inesperado, o pressentires a chegada de uma recordação enterrada há muito e a possibilidade de largares a jarra de cristal que por certo tens nas mãos à espera da chegada das gardénias prometidas.
Poderia também acontecer que a minha mão adquirisse uma força infinita e ao segundo toc perfurasse a porta com o consequente ruído de lascas de madeira a caírem no linóleo, ou simplesmente que, devido a imperfeições da empresa de construção dos teus vizinhos, que saíram para o passeio com os seus pulcros pijamas, e entre maldições me recordariam que está uma hora de decente descanso.
No meio destas reflexões a mão começa a tremer-me, entra em convulsões de incerteza, parece-me pressentir no pulso algo como um esgar de terror, que no fundo é medo e pena de mim mesmo, porque isto acontece-me de cada vez que tento bater à tua porta. Assim, as gardénias envelhecem em poucos segundos no seu invólucro transparente e, quando parto atravessando os umbrais do edifício, aquela boca que me cospe para a solidão húmida da rua, e inicio a minha caminhada com a cabeça metida, acontece-me escutar, nitidamente, lá em cima, o teu pranto de gardénias ausentes...»
Luís Sepúlveda, in Encontros de Amor num País em Guerra

3.1.08

DO TEMPO QUE PASSA...

O tempo passa tão depressa que dentro de trezentos e sessenta e cinco dias, estarei novamente por aqui a desejar-vos um Bom Ano. E o hoje parecerá ter sido ontem. Ou será antes o ontem que parecerá ter sido hoje?

30.12.07

PODERÍAMOS ACABAR COM O MUNDO...

"Man writing a letter", Gabriel Metsu (1629-1667), National Gallery of Ireland, Dublin.

Estive a pensar. Perante o nosso total desprezo pelo planeta Terra, poderíamos retirar quase tudo ao mundo: e mesmo assim... restaria o mundo. Poderíamos retirar os rios, as montanhas, as árvores, as flores do campo, os pássaros que voam e o mar azul. Poderíamos acabar com os carros que se tornaram a chave e o símbolo desta época em que vivemos. Poderíamos retirar os padres, os magistrados, os presidentes e os soldados. Poderíamos retirar os livros, a música, os quadros, as garrafas de vinho e as noites de Santo-António. O mundo seria então menos alegre, mas não deixaria de ser mundo.
Poderíamos até retirar os homens. Não sobraria mais nada, e no entanto sobraria sempre qualquer coisa: sobraria o mundo tal como foi antes dos homens, esse mundo que por eles aguardou tantos milhões de anos.
Mas há duas coisas que são impossíveis de retirar ao mundo: não lhe podemos retirar o tempo, e não lhe podemos retirar o Sol. Pois se lhe retirarmos o tempo, o Universo não mais será. E se lhe retirarmos o Sol, o dia não mais nascerá...

21.12.07

OS EMBRIAGADOS

"Os Bêbedos", José Malhoa (1855-1933)

Hoje, mais do que nunca, faço minhas as palavras de Bernard Pivot (in "Dicionário Sentimental do Vinho"). E acrescento que se é triste ver um homem bêbedo, mais decadente ainda é o espectáculo dado por uma mulher embriagada. Pois é aí que o belo se torna feio, é aí que a beleza, em toda a plenitude da palavra, se evapora para todo o sempre...
"Não me encontrarão entre os zeladores, nem mesmo entre os defensores da embriaguez. Demasiados crimes, demasiados acidentes, demasiadas brutalidades, demasiados horrores em actos e em palavras, demasiada loucura, demasiada falta de razão, demasiada estupidez, demasiada demissão de si mesmo, como se um outro, violento, sujo, vacilante e idiota se tivesse lançado num corpo vazio e se tivesse apoderado dele. «O pior estado do homem», escreveu Montaigne, «é quando ele perde o conhecimento e o governo de si mesmo.»
Ao que Diderot acrescenta: «a embriaguez tira toda a réstia da razão, extingue em absoluto esta partícula, esta centelha da divindade que nos distingue dos animais: destrói, por isso mesmo, a satisfação e a doçura que cada um deve dar e receber na sociedade humana.»"

11.12.07

DIÁLOGOS ESTIVAIS (CONVERSA INVERNAL)

"Lecture des Philosophes", Collection Jean-Jacques Monney, Genève.

- Fala-me sobre os filósofos, Tio!
- Os mais importantes, os mais sedutores, aqueles que lançaram o maior número de ideias para o ar puro da Hélade, foram os gregos. E depois vieram os alemães, que eram todos filósofos, músicos e guerreiros. E também os chineses.
- Quem são os chineses ?
- Os chineses são amarelos, e são muitos. Tiveram um filósofo chamado Confúcio, e outro chamado Lao-tseu que escreveu um livro que ficou para a História com o nome de Tao-tö king. Inventaram a pólvora, a bússola, a porcelana para imitar o jade, a seda e os fogos de artifício. E comem arroz. Um filósofo chinês que sonha com uma borboleta, interroga-se, ao acordar, se não é uma borboleta que sonha com um homem. Ninguém consegue provar que aquilo a que chamámos de realidade seja outra coisa do que um sonho coerente e sem falhas. Não é impossível que estejas a dormir e que a Maria de Médicis, o Rembrandt, este casal de namorados na mesa ao lado, o Fernando Pessoa, e até mesmo eu que te estou a falar, sejamos mais do que uma parte do teu sonho. Também não é impossível que tu, o Descartes, o meu veleiro branco ou o rei D. José, não passem de uma parte do meu.
- Pode ser que estejas a sonhar comigo, Tio. Mas aquilo que me perturba é que eu também estou a sonhar contigo. E por mais que eu esteja a sonhar, parece-me que estás a sonhar tu também.
- As tuas palavras são sábias, Sobrinho. Pensando bem, talvez merecesses ser grego, alemão, ou até mesmo chinês...

3.12.07

O VELHO DO PATAMAR

Venha deitar-se no patamar do primeiro andar. É mais quentinho e creio que existe por lá um sofá. Vá, venha daí meu senhor. Dê-me as suas canadianas, agarre-se a mim que eu ajudo-o a subir. E amanhã, quando acordar, suba até ao último andar. Mandarei servir-lhe um pequeno-almoço bem quente.
Mas o homem, o pobre, velho e inocente homem, nunca veio. Apareceu morto, isso sim, ali junto ao Rio. Congelado, em total estado de hipotermia, com olhos de quem presenciou uma terrível visão antes de partir.
É este o triste mundo no qual vivo. Por isso, a pouco menos de um mês do Natal, aqui vos digo: gastem meus amigos! Gastem tudo, e sobretudo, gastem bem...

30.11.07

EPÍSTOLA A UMA AMIGA

Distinta Amiga,
Fizeste mal, receio, em ter começado pela História. Deverias ter começado pelas árvores, pela luz do dia, pelas manhãs e pelo pôr do Sol, pela água que tantos divide mas que é a Mãe de todos os homens. Deverias ter começado pela felicidade: está ligada às coisas de todos os dias. A água, a chuva, o mar, a neve e o Sol, naturalmente, são invenções de génio. Concedo-te isso e muito mais. Para mentes abertas que não se deixem levar pela rotina e pela preguiça, chegam a ser uma inesgotável fonte de surpresas. O dia nasce: é uma surpresa. Existem flores: que surpresa! Árvores, rios, crianças e gatos: que surpresa! Seres humanos? Que surpresa!
Os seres humanos são feitos para viver Hamingja, e por vezes conseguem-no. Dormem e é delicioso. Acordam e é ainda melhor. Saem das suas casas e têm por cima das suas cabeças o céu, com estrelas que aparecem quando o Sol se vai deitar, e que desaparecem quando o Sol acorda. Acabamos por nos habituar, mas se pensarmos bem, é sempre uma surpresa. Por vezes o Sol brilha, e, não sei porquê - talvez por poderem sentar-se juntos em frente ao mar azul - o grande Sol tem algo que agrada a todos aqueles que estão apaixonados. Os ciprestes, os patos, as pedras no caminho, o silêncio, os risos fazem parte deste mundo. E há mistério em tudo: noite escondida nos pinheiros, imprevisto nos encontros, um mundo em cada grão de areia, melancolia nos finais de tarde quando o sol se põe sobre as ilhas, sobre o deserto, ou sobre as cidades cobertas por um terrível manto de poluição.
Os homens são como tu e eu, como ele e ela, como todos nós: têm o sentimento de ter sido atirados por acaso para a pátria do absurdo. Mas laços de família unem-nos a esse mesmo absurdo, transfiguram-no por dentro e tornam-no familiar. Os homens estão em sua casa neste mundo. Não percebem quase nada daquilo que os rodeia, mas estão ligados a ele. Caminham. Passeiam. Vão para o trabalho, vão ao Teatro, vão ter com a sua amada. São levados pelo tempo, e muitas vezes não sabem bem aquilo que fazem, mas a vida chega-lhes. Ocupa-lhes todo o seu tempo e obriga-os a intervir no mundo. Aliás, não têm outro remédio: a fome, a sede, o frio, o calor, o sono, o Amor. E como não chegava, acrescentaram mais coisas: inventaram os países, os valores, o jogo do xadrez, o caminho de ferro, os colóquios, a pintura, a honra e as religiões.
Ao que parece, foi a natureza quem tratou primeiro de tudo. Impôs as suas regras, que são duras, e que dominam o homem. Foi necessário caçar, pescar, colher frutos, talhar a pedra, construir casas. Foi necessário fugir para sobreviver. E o tempo passou... Com ele, os homens sentiram-se aos poucos mais livres de tomar conta dos seus destinos e de pensar noutras coisas. Cantaram, desenharam bisontes nas cavernas, pintaram as ânforas do vinho, colocaram máscaras de ouro sobre a cara dos mortos, construíram pirâmides, pontes sobre os rios, jardins suspensos, cidadelas para fazer a guerra. Vimos surgir contabilistas, arquitectos, capitães e pontífices, enfim, foi o acender do rastilho.
A isto chamámos de progresso, e foi essa a estrada que escolheste para cultivar a tua sabedoria: a estrada da História. Mas eu dou a esse caminho outro nome, e creio que é por esse caminho que deverias ter seguido: o caminho da felicidade, o caminho dos «homens livres», isto é, o caminho da Filosofia...

22.11.07

OBRIGADO !



Venho aqui dizer-te, Mestre, o quanto me impressionas, a mim e a todos os meus colegas, com o teu discurso culto através do qual «tu, homem cheio de segredos por todos eles insuspeitados, iniciaste a “conquista”» da nossa profunda admiração.
Mais do que dizer-te, venho aqui agradecer-te a sabedoria que partilhas connosco a cada instante que nos dedicas, não por obrigação, mas pela tua infinita devoção à supremacia da Razão...

12.11.07

HOMENAGEM A L.



Doces tardes de um Verão à beira mar plantado... Recordas-te?
- Com a idade descobrirás que o hoje muito depressa se transforma em ontem. O tempo não pára, está em constante andamento. Gosta de correr. Aliás toda a história do homem e das coisas não pára. E assim, como num abrir e fechar de olhos, passam muitos anos de uma vida sem darmos por isso.
- Não mudaste muito.
- E tu não mudaste nada. Igual a quem fui e nunca de outra forma, pois é impossível mudarmos quem fomos.
- Não sonhes. Ainda és jovem e os jovens gostam de sonhar. Sonham com um mundo melhor, com um futuro diferente, com carreiras de sucesso, com dinheiro, com poder e tantas coisas mais. A paz no mundo por exemplo. Ou o fim da fome em África. Não digo que um jovem não deva sonhar. Sonhar faz parte da vida, sonhar é acreditar. Houve mesmo quem dissesse que “o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos”. Palavras de uma grande Senhora do século XX. Mas não devemos sonhar em demasia, porque às vezes, quando olhamos para o mundo que nos rodeia, questionamo-nos sobre o legado que os outrora “jovens sonhadores” nos deixaram...

3.11.07

SE EU TIVESSE DE...

Pequeno e maravilhoso texto este, que eu por ali reencontrei esquecido numa estante da minha biblioteca. E não resisto em partilhá-lo com voçês...
"Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço aos Deuses terem-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final. Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas perdidas!
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De tudo o que se passou comigo só conservo a memória de dois ou três rápidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo. Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: hoje ouço como ontem os passos do meu Pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede.
O resto esvai-se como fumo. Até as figuras dos mortos, por mais esforços que faça, cada vez se afastam mais de mim. Algumas sensações, ternura, cor e pouco mais. Tinta. Pequenas coisas frívolas, o calor do ninho, e sempre dois traços de retina, o cabelo de oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel da vida e da morte, assisti a muitos factos históricos, e essas impressões vão-se desvanecidas. Ao contrário, este facto trivial ainda hoje recordo com a mesma vibração: a morte daquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou. O resto usa-se hora a hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo para os tornar a ver, mas não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar..."
Raul Brandão, in "Se Tivesse de Recomeçar a Vida" (1918)

31.10.07

AS PALAVRAS DO SILÊNCIO...

...foram estas.
E duraram dois meses.

1.9.07

AS PALAVRAS DO SILÊNCIO...

... são estas.
E vão durar dois meses.

31.8.07

DIÁLOGOS ESTIVAIS (MONÓLOGO FINAL)

"As Tentações de Santo Antão" by Hieronymous Bosch (1450-1516)

Estive a reflectir sobre as nossas conversas, Sobrinho. A verdade é que com o passar dos anos vou tendo cada vez mais medo do futuro, sobretudo quando olho para o passado. O planeta no qual vivemos, embora muitas vezes pareça estar a dormir, está em constante mutação. No início exterminavam-se homens aqui e ali, amava-se, odiava-se, construíam-se novas máquinas, mas não acontecia grande coisa. E de repente, o mundo oscilou. Oscilou com o primeiro riso, com a primeira palavra, com a primeira chama, com a primeira cidade na qual se ergueu uma pedra. Oscilou com o Egipto. Oscilou com os gregos. Oscilou com Alexandre. Oscilou, claro está, com a morte de um homem numa cruz e com isso tanto oscilou, que dividiu a história dos homens em dois. O antes e o depois. O negativo e o positivo.
A partir desse dia o mundo entrou numa constante oscilação. Com os estribos que modificaram a arte da guerra. Com as arbaletas que massacraram velhos feudos. Com os canhões de Pizarro que fulminaram Atahualpa. Com os lemes dos navegadores-traficantes de escravos. Com as máquinas a vapor. Com a própria electricidade que iluminou a sibilina luz da escuridão. Com a queda de Constantinopla. Com a descoberta das Américas a 12 de outubro de 1492, e o subsequente declínio da mãe de todos os mares, o mare nostrum, que ditou a morte de Veneza. Com a Revolução Francesa. Com Pearl Harbor. Com o Projecto Manhattan e a bomba atómica. Com o automóvel, o avião, a televisão, a pílula, o primeiro homem na Lua, a sida, a revolução de outubro e o fim do comunismo na pátria do socialismo. Com o dia 11 de Setembro de 2001 e depois com a guerra do Iraque...
E ao pensar em todos estes feitos, em todas estas proezas do destino e em todos estes marcos incontornáveis da história do homem, fico aterrado com as oscilações que ainda estarão por vir. Porque a história é feita de horror e de horrores. É por isso que me despeço de ti sobrinho, com um texto de Jean-Jacques Rousseau. Convido-te a reflectires sobre estas sábias palavras: "Um dos grandes vícios da história é que ela descreve muito mais o homem pelos seus aspectos negativos do que pelos seus lados bons. Apenas se interessa pelo sangue das revoluções ou pelas catástrofes da natureza. Mas pode um povo crescer e prosperar na calma de um governo pacífico, e sobre os homens, a história pouco ou nada dirá. Venham os problemas, venham as desavenças, venham os homens que, não podendo mais bastar a si próprios, participem nos negócios dos seus vizinhos ou os deixem participar nos seus, para que a história comece a interessar-se por eles. Creio pois que toda a história está errada. Apenas cita o homem quando este já está no seu declínio. Ora é aí mesmo que reside o seu principal problema: todas as nossas histórias começam precisamente onde deveriam acabar..."

31.7.07

DIÁLOGOS ESTIVAIS (2º DIÁLOGO)

- O mundo, sobrinho, é finito. E ao mesmo tempo infinito. É como que um labirinto, cercado por limites, mas ao mesmo tempo sem limites.
- As tuas palavras são ambíguas, Tio.
- Para mim também o são. E no entanto são de uma evidência tal que deveriam saltar aos olhos de todos e cada um de nós. Os sentimentos, as emoções, as paixões, todos esses movimentos da alma que mexem tanto com os homens são limitados. Tal como são limitados os números de que dispomos ou as letras do alfabeto. Aquilo que é ilimitado é o número de combinações possíveis com todos eles. Tudo podemos dizer com 26 letras, tudo podemos calcular com 9 números e um zero. Mas por maior que seja um valor, podemos sempre criar um valor ainda maior. E no que toca às letras, nenhum livro esgota o mundo.
- Mesmo um suposto livro imaginário que reunisse todo o conhecimento humano?
- Sim, mesmo um livro desses. À descrição de um acontecimento ou de um homem, não importa qual, poderíamos consagrar muitas horas e muitos volumes. Uma infinidade de horas e uma infinidade de volumes. Tantas horas como as horas da vida de cada ser humano, e tantos volumes quantos aqueles que cada ser humano fosse capaz de produzir sobre o assunto. E no entanto... esse assunto nunca estaria esgotado. Há sempre qualquer coisa que nos escapa, a começar por aquilo que desconhecemos. Cada homem está fechado sobre ele próprio, mas para se abrir num mundo que não tem fim: o mundo da sua mente.
- É o reino da subjectividade!
- Exactamente. E aos temperamentos, aos encontros, aos acasos da existência, temos de acrescentar tudo aquilo que está ligado à história e que dá as cores a um meio, a um país, a uma época. O estado do saber, evidentemente. A ciência, a técnica, as estradas, as comunicações. O comércio, a indústria, a situação económica. A religião. A cultura. As próprias modas de cada época. Não se pensa hoje da mesma forma que se pensava no tempo das máquinas a vapor. Não podiam pensar nesse tempo da mesma forma que se pensava no tempo das caravelas. Existe um clima das ideias, tal como existe um clima dos períodos geológicos e da geografia. Existem estratos, camadas, correntes, dominações e reinos. Existem lugares comuns, rotinas, hábitos, ideias fabricadas. Mas existe algo de terrivel que devemos acrescentar a esta lista: o preconceito. Boas férias sobrinho, volto em Setembro.

24.7.07

HIPÓCRISIAS

Dizia-me alguém há dias que não acredita em Deus. Mais do que dizer, afirmava a sua não-existência, perdido num monólogo sem fim, com "provas" e "teorias do maior pensador da actualidade" (cujo nome já esqueci) à mistura. "Tenho a certeza", dizia-me ele.
Ora aqui está uma daquelas certezas que fará rir muitas pessoas, a começar pelos crentes e a terminar naqueles que, reduzidos àquilo que verdadeiramente sabem, optaram pelo campo do agnosticismo, em detrimento de posições mais radicais criadas para solucionar os problemas metafísicos que o homem não consegue - se é que alguma vez conseguirá - resolver.
E como se não chegasse, depois de todo aquele discurso, disse-me esse alguém que se ia casar... pela Igreja. Mas não caias da cadeira leitor, foi para agradar à Avó!

17.7.07

CONCORDO !

Pequena mas tão fascinante frase, aquela que eu encontrei num marca-páginas esquecido de um ainda mais esquecido livro da minha biblioteca: "I agree with those who don't" (concordo com aqueles que discordam). Não lhe consigo encontrar o autor, mas pelo tom de rebeldia que a ela está associado, já tenho em mente o famoso "il est interdit d'interdire" (é proíbido proibir) que caracterizou os eventos - e a geração - de Maio de 1968. Seja lá de quem for a frase uma coisa é certa: de minha autoria não é certamente. E no entanto... tudo tem a ver comigo.
Frase surpreendente, frase potente, frase demente, e acima de tudo frase irreverente. Não que eu goste de ser do contra pelo simples facto de não ser a favor. Não que me pareça bem ser do contra pela questão das aparências. Mas por saber que ao discordar estou a entrar no debate de ideias e, de certa forma, estou-me a render ao prazer que me é proporcionado pelo estímulo intelectual do confronto de opiniões.
Ao concordar com aqueles que discordam, é-me assim impossível estar mais de acordo com um conceito que cruzei há tempos, mas com o qual, seguindo a lógica daquilo que tenho vindo a escrever, deveria discordar. Refiro-me ao conceito de «excitação de ideias»(*) que tão bem entendo, ao qual adiro, e sem o qual estou convicto de que a humanidade nunca teria progredido. Porque é do debate e da troca de opiniões que nascem novas ideias e, quer queiramos quer não, existe uma forte excitação para o nosso intelecto nesse debate. Não concordam comigo? Claro que não. Até porque como disse Voltaire, "quando todos pensam da mesma maneira, ninguém pensa grande coisa"...
(*) ESPADA, João Carlos, Pensamento Político Contemporâneo, Lisboa, Bertrand Editora, 2004.

10.7.07

DIÁLOGOS ESTIVAIS (1º DIÁLOGO)

- Tio, há uma coisa que não percebo na nossa conversa e que terás de me explicar. Ora falas-me de um passado onde tudo se move e que é devorado pelo futuro em fogo lento, ora falas-me na torre do eterno presente, onde tudo parece estar inerte. Será que o tempo é, para nós homens, um oceano imóvel no qual nos movemos? Ou será que, ao contrário, o tempo nunca se cansa de avançar?
- O tempo está em constante andamento, sobrinho. Gosta de correr. A história do homem e das coisas não pára. Imagina um ser humano que nada fizesse, que nunca mexesse os dedos das mãos, e que passasse todos os seus dias e todas as suas noites a dormir... Caminharia em direcção à morte, com a mesma velocidade feroz com que caminha para a morte um conquistador de impérios, ou um pensador de génio que alterou a imagem que temos do mundo e da vida. A batalha entre o passado e o futuro, esses dois monstros que assediam o presente, é uma batalha sem fim. Lutam de igual para igual e, todo o terreno deixado a cada instante para trás pelo futuro vencido, é automaticamente ocupado pelo passado vencedor. A frente de combate está em constante deslocação, com uma regularidade impecável que nada nem ninguém podem contrariar. É a fonte de todos os desesperos, não deixando lugar para nada.
- Continuo a não entender, Tio.
- Vê as coisas desta forma, sobrinho: existe o futuro e existe o passado. E entre os dois, não existe nada...

2.7.07

VERÃO ONDE ESTÁS ?

Quando olho para o céu numa vã tentativa de encontrar um raio de sol, apenas me apetece perguntar aos deuses: Verão onde estás ? E lá no cimo dos astros, responde-me uma voz que desconheço, talvez Apólo, Afrodite ou Zeus :
"O homem domina a natureza e é por ela dominado. Só ele lhe resiste e ao mesmo tempo ultrapassa as suas leis, amplia o seu poderio graças à sua vontade e actividade. Afirmar no entanto que o mundo foi criado para o homem é algo que está longe de ser evidente. Tudo o que o homem constrói é, como ele, efémero. O tempo derruba os edifícios, atulha os canais, apaga o saber e até o nome das nações.
Parece-me evidente que a natureza se preocupa bem pouco com o que o homem tem ou não no espírito. O verdadeiro homem é o homem selvagem, que se relaciona com a natureza tal como ela é. Assim que o homem aguça a sua inteligência, desenvolve as suas ideias e a forma de as exprimir, ou adquire novas necessidades, a natureza opõe-se aos seus desígnios em toda a linha. Só lhe resta violentá-la, continuamente. Ela, pelo seu lado, também não fica quieta. Se ele suspende por momentos o trabalho que se impusera, ela torna-se de novo dominadora, invade-o, devora-o, destrói ou desfigura a sua obra. Dir-se-ia que acolhe com impaciência as obras-primas da imaginação e da perícia do homem.
Que importam à ronda das estações, ao curso dos astros, dos rios e dos ventos, o Parténon, São Pedro de Roma e tantas outras maravilhas da arte ? Um tremor de terra ou a lava de um vulcão reduzem-nos a nada. Os pássaros farão os seus ninhos nas suas ruínas. Os animais selvagens irão buscar os ossos dos construtores aos seus túmulos entreabertos. Mas o próprio homem, quando se entrega ao instinto selvagem que está no fundo da sua natureza, não se alia ele aos outros elementos para destruir as suas mais belas obras ?" (Eugène Delacroix, in "Diário")
Não bastassem as guerras, a fome e a doença, eis-nos agora perante um suicídio colectivo ? Prefiro acreditar que não. Prefiro acreditar que ainda temos algum juízo e evitaremos tamanha devastação...

29.6.07

VIRAR DE PÁGINA

The end. Dedico este meu "livrinho" de 586 páginas àqueles que me apoiaram, que me acompanharam, e sobretudo, aos poucos que não me abandonaram. Quanto áqueles que eu abandonei, deixo-lhes aqui estas palavras: foi um virar de página...

20.6.07

SANTANICES NA BICA

Foi delicioso ver o Dr. Santana Lopes ontem ali ao nosso lado. Quer dizer... Foi delicioso assistir ao espectáculo do Dr. Santana Lopes, ontem, ali ao nosso lado, querendo ser visto por todos.
Claro está que a delícia não estava na pessoa do Dr. Santana Lopes. Não. Só de pensar nele já fiquei sem vontade de pratos gourmet. A delícia também não estava no facto de ele estar ali ao nosso lado, em total show off. Nada disso. Quanto muito, as delícias estavam em cima das mesas, naquele que foi mais um fantástico jantar de aniversário do meu restaurante predilecto. Agradeço aos donos e a toda a equipa o simpático convite, assim como a maravilhosa festa que nos ofereceram. Aproveito também para deixar um abraço amigo a quem foi vítima da mais ignóbil e vil das violências.
Perdoem-me os cozinheiros, mas na noite de ontem, o meu prato favorito não saiu da cozinha. Saiu sim do comportamento exemplar do Dr. Santana Lopes, ex-presidente da Câmara de Lisboa, perdido em grandes festejos enquanto os candidatos à Câmara da "querida" cidade que em tempos governou, participavam num debate televisivo e quem sabe... decisivo. Mas claro está, mais uma vez, o Dr. Santana Lopes esteve-se nas tintas. Afinal de contas festa é festa, e o que importa ao Dr. Santana Lopes o destino da nossa linda cidade ?
Nestes jantares há quem vá pela festa. Há quem vá pelos amigos. Há quem vá por mero prazer. Há quem vá para ver. Há quem vá para ser visto. Há quem vá para ver e ser visto. E depois há o Dr. Santana Lopes, que foi para ser visto, mas sobretudo para não ficar em casa a ver aquilo que devia ter visto...

14.6.07

GOSTARIA DE TER ESCRITO...

...estas palavras. São como aqueles sonhos que fazemos por vezes. Sonhos que não passam disso mesmo: uma ilusão que nunca virá a concretizar-se.
"Se eu tivesse de escolher o lugar do meu nascimento, escolheria uma sociedade cuja grandeza fosse limitada pela extensão das faculdades humanas, isto é, uma sociedade onde todos os cidadãos fossem bem governados. Uma sociedade onde cada ser humano tivesse o seu papel, uma sociedade onde ninguém fosse constrangido a atribuir a outros as funções de que estivesse encarregue, e sobretudo, uma sociedade onde cada um pudesse fazer aquilo que quisesse, sem nunca fazer aquilo que os outros não gostassem que lhes fosse feito.
Gostaria de viver num Estado em que todas as pessoas se conhecessem entre si. Um Estado onde as manobras obscuras do vício e a modéstia da virtude nunca passassem despercebidos perante o olhar e o julgamento do público. Um Estado em que esse doce hábito de todos se verem e todos se conhecerem, fizesse do Amor pela pátria o Amor entre todos os seres humanos.
Gostaria de nascer num país em que o soberano e o povo apenas pudessem ter um único e mesmo interesse. Um país no qual os movimentos de cada pessoa tendessem à felicidade de todas as outras. E como isso só poderia ser feito se o povo e o soberano fossem a mesma pessoa, eu quereria nascer sob um governo democrático, sabiamente moderado, e por todos igualmente respeitado.
Gostaria de viver e morrer livre, isto é, viver numa sociedade em que todos fossem sujeitos às mesmas Leis, fossem elas as Leis do homem ou as Leis da vida.
Gostaria que ninguém no Estado pudesse dizer-se acima da lei. Pois qualquer que possa ser a composição de um governo, se neste se encontrar um único homem acima da Lei, todos os outros ficarão necessariamente à discrição dele. Ora havendo um soberano acima da Lei e todos os seus súbditos sujeitos a essa mesma Lei, qualquer que seja a partilha da autoridade que possam fazer, é impossível que todos sejam livres e que o Estado seja bem governado.
Jamais desejaria habitar num Estado que me prometesse mais Liberdade do que o Estado dos meus sonhos, por melhores que fossem as intenções dos seus fundadores. Teria demasiado medo que o novo governo fosse constituído de uma forma outra que aquela exigida por todos. Teria demasiado medo que o novo governo não conviesse aos novos cidadãos, ou muito pior, que os cidadãos não conviessem ao novo governo.
Porque a Liberdade leitor, a liberdade é como esses alimentos sólidos e suculentos, ou esses vinhos generosos, próprios para nutrir e fortificar os temperamentos robustos a eles habituados, mas que inutilizam, arruinam, e embriagam os fracos e os delicados, que a eles não estão habituados..."
Jean-Jacques Rousseau, in "Sobre a Origem da Desigualdade"

8.6.07

PRECISAM DE MIM ?

Adoro determinado tipo de personagens que apenas se lembram de mim quando precisam de mim. Deixem-me ser irónico (deixem-me mas é ser cínico!) e reformular um nadinha este meu pensamento: adoro determinado tipo de personagens que pairam à minha volta apenas porque precisam de mim... e porque assim deixo.
Julgam-se hábeis manipuladores, subtis jogadores de um jogo que nunca jogaram, nunca souberam jogar e sobretudo nunca conseguirão jogar. E é tão divertido, é tão lindo vê-los ali, felizes nos seus joguinhos estúpidos, festejando aquilo que julgam conquistar com a sua sapiência da treta.
Mas a verdade, como sempre, é bem triste. Nada conquistam esses personagens que pairam e deixo pairar à minha volta. Quanto ao pouco que obtêm, direi que são as migalhas de um pão que estou disposto a dar. Aquele pão seco que damos aos pombos porque não precisamos dele. E se pareço cego, cego não sou. Se pareço influenciável, influenciado não estou. Se pareço fácil, fáceis sois vós. Se pareço simpático, simpática é a condescendência que tenho pelos vossos míseros egos.
Digamos que por vezes, aquele que parece parvo, gosta de se fazer passar por parvo, para poder descer junto dos parvos e melhor gozar com os seus pobres espíritos parvos...

1.6.07

DU PAREIL AU MÊME...

As eleições que se avizinham em Lisboa assustam-me. São três os motivos que alimentam este meu pessimismo:
- a data em primeiro lugar: estaremos em pleno Verão, período de férias para muitos eleitores, o que quer dizer que quem foi não vota e quem ficou ainda não foi ou não irá. Pequeno trocadilho cheio de subentendidos, mas para bom entendedor meia palavra basta;
- as sondagens em segundo lugar: será caso para dizer que saímos de um impasse para entrar noutro? Deus queira que as previsões que por aí tenho visto circular estejam erradas;
- os candidatos em terceiro lugar: venha o Diabo e escolha.
Perante este cenário, apenas me apetece dizer: du pareil au même !

30.5.07

CARTAS LUSITANAS (1ª CARTA)

Estimada Tamodachi,
Este planeta onde vivo é de facto muito curioso. Imagina tu que há coisa de um mês, enquanto os pais jantavam confortavelmente num restaurante, desapareceu do quarto onde dormia uma rapariga com três anos de idade. Eu sei que isso te pode parecer estranho, mas por aqui não parece. Não estou a falar do desaparecimento em si, minha amiga, mas sim do facto da criança ter ficado sozinha em casa... com dois irmãos ainda mais novos. Viessem as chamas do fogo, viesse um ladrão, um raptor ou uma fuga de gás, é certo e sabido que os doces rebentos teriam enfrentado estes problemas com um sangue-frio inigualável. Mas não me fico por aqui.
Por entre tudo aquilo a que tenho assistido, existe algo que muito me tem intrigado e que não resisto em te "revelar". Creio que o verbo "revelar" não poderia ser melhor escolha para descrever estes estranhos comportamentos que tenho observado. Ao que parece, os familiares, os amigos e a população local já organizaram duas missas para "consolar" a dor dos Pais. Ontem, estes foram mesmo recebidos em Roma - veja-se onde isto já vai - pelo Pápa Bento XVI. Foi pedido a Deus, a Cristo, à santíssima Virgem Maria e a todos os Santos para que a criança aparecesse, se possível em bom estado. Mas estas missas e encontros papais mais parecem um fármaco do que qualquer outra coisa. Não consigo deixar de pensar nas palavras de um famoso político chinês do século XX, que se referiu à religião como "o ópio do povo". E que ópio ! À falta de calmantes, tranquilizam-se os nervos de quem sofre com as palavras de Sua Santidade.
Tamodachi, quando olho para esta forma de sofrer, fico estupefacto com a contradição latente entre aquilo a que os homens chamam de fé, e o desespero a que por vezes chegam. Isto porque ir à missa é um acto de fé e de crença em Deus. Mas é ao mesmo tempo a demonstração do desespero (entenda-se falta de fé) ao qual chegaram aqueles que perderam os seus filhos, e que já nem nos calmantes encontram forma de conter a dor. Têm fé em Deus para curar a sua dor, mas a fé que têm em Deus não lhes resolverá os seus problemas.
É sabido que as drogas têm um duplo efeito. Por um lado provocam uma dependência que apenas pode ser acalmada com mais droga criando assim uma sensação de bem estar; por outro lado têm efeitos secundários perigosos para o organismo. Digamos que são um pouco como Deus e as missas em toda esta história: servem para acalmar a dor daqueles que sofrem, mas fazem mal porque um Deus que faz desaparecer criancinhas nas suas horas livres, não pode ser coisa boa com certeza!
Aqui me despeço querida amiga. Não sei como tudo isto acabará, mas não me parece que Deus esteja muito preocupado com o bem-estar das criancinhas deste mundo...

23.5.07

DA AMIZADE (PARTE 2)

"A camaradagem, o companheirismo, às vezes parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem. Mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade...
As pessoas imaginam que a amizade é um serviço. Ora o amigo não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal. Conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, valeria a pena viver, valeria a pena ser homem, sem esse ideal ?
O que dizer de um amigo que falhou por não ser um verdadeiro amigo? Será que podemos acusá-lo, culpando o seu carácter e a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afecto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro?
E aquele que entrega a outro toda a confiança de uma juventude, toda a abnegação da idade viril e finalmente oferece a coisa mais preciosa que um ser humano pode proporcionar a outro ser humano (a sua confiança absoluta, cega e apaixonada) para depois ver-se confrontado com o facto do outro ser infiel e vil? Será que tem o direito de ficar ofendido, de exigir vingança? E caso fique ofendido e grite por vingança... será realmente amigo aquele que foi traído e abandonado?"
Sándor Márai, in "As velas ardem até ao fim"

16.5.07

BONNE CHANCE !

Vais precisar de muita...

9.5.07

PARECEMOS ALFACES MAS...

...não somos. Tal como não somos parvos, nem objectos, nem brinquedos, nem máquinas, nem coisas, nem crianças, nem números, nem bonecos, nem robôs, nem fantoches, nem palhaços, nem ingénuos.
E muito menos somos cegos. E mesmo um cego consegue ver aquilo que aconteceu na Câmara Municipal de Lisboa. Porque não são precisos olhos para ver estas coisas, mas sim bom-senso, discernimento e inteligência. Tudo coisas que os mesquinhos políticos das ainda mais mesquinhas guerras internas do PSD não têm. Ou se têm parecem não ter.
Agora digam Adeus, meus senhores. Adeus à Câmara, adeus à cidade e olá ao poder que tanto quiseram ter no partido, ao ponto de lhe preterir o poder que tinham sobre a cidade... Quanto ao bem estar dos alfacinhas só resta aqui dizer: vegetem como alfaces ! Ou será que não ?

2.5.07

O DIA DOS PREGUIÇOSOS

E porque ontem o país e parte do mundo festejaram o 1º de Maio, partilho aqui algumas considerações sobre este assunto:
- porque será que se comemora o Dia do Trabalhor NÃO trabalhando ? Imagine-se, perdoem-me tamanha demagogia, o que seria um Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades onde se festejasse Goethe e a Alemanha, ou um Dia da Árvore onde se abatessem florestas, ou até um Dia da Mãe (que se avizinha para grande felicidade dos comerciantes) onde se festejasse o Pai ?
- porque será que a maioria das pessoas não faz a menor das ideias do que está na origem deste feriado, mas preocupa-se sempre em festejá-lo e ficaria muito indignada se lho retirassem ? Vou mais longe. Porque será que as pessoas não só não sabem, como não têm o menor interesse em saber, a começar pelos sindicatos que criticam tudo e todos mas raramente recordam os tristes acontecimentos que decorreram no século XIX (vide história dos E.U.A e da França) ?
- porque será que no Dia do Trabalhador a principal preocupação dos sindicatos e de alguns políticos, para além de não trabalhar claro está, é denunciar as injustiças sociais e a exploração do "proletariado", em vez de se preocupar com os crescentes números do desemprego ?
- porque será que o Dia do Trabalhador não é festejado nesta data em todos os países, optando uns por outra data, e outros por nenhuma ?
- porque será que o Japão (um dos 8 países mais ricos do mundo onde a taxa de desemprego ronda os 4,1%) não festeja o Dia do Trabalhador mas festeja causas nobres como o Dia do Respeito aos Idosos, o Dia da Saúde e dos Desportos ou o Dia da Cultura ?
- porque será, enfim, que no Dia do Trabalhador todos pensamos no nosso fim de semana prolongado "à beira mar plantado", preferindo esquecer todos os não-trabalhadores ?
Em países como o nosso, muito felizes deveriam estar os trabalhadores por terem trabalho, subsídios e demais garantias duramente conquistadas com tanto "sangue, suor e lágrimas". Felizes por terem trabalho escrevi eu. Pois julgo que no Dia do Trabalho e do Trabalhador, todos nós que trabalhamos mas preferimos fugir para a praia, deveríamos ajudar todos aqueles que não trabalham mas desesperam por encontrar algum.
Triste paradoxo este, o Dia do Trabalhador. Num mundo onde é cada vez maior o número de não-trabalhadores, porque não festejarmos o Dia do Desempregado, essa sim uma causa digna de preocupação ? Talvez por só pensarmos no nosso bem estar caro leitor. E muito raramente no bem estar dos outros...

28.4.07

DA AMIZADE (PARTE 1)

E por falar em amizade, gosto sempre de recordar este maravilhoso texto de Oscar Wilde:
Escolho os meus amigos não pela cor da pele ou outro critério qualquer, mas sim pela pupila. Tem que ter o brilho questionador e a tonalidade inquietante. A mim nao me interessam os bons de espirito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles nao quero resposta, quero o meu avesso. Quero que me tragam dúvidas e angústias, que aguentem o que há de pior em mim e quanto a isso, só mesmo se forem loucos. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Nao quero só o ombro ou o colo, quero também as suas maiores alegrias. Amigo que nao ri connosco nao sabe sofrer connosco. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia nao desapareça. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que nao esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois vendo-os loucos e santos, malucos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que «normalidade» é uma ilusão imbecil e estéril...

16.4.07

AFORISMOS

Nunca te aconteceu leitor, faltarem-te as palavras certas para calares o triste comentário que alguém te dirigiu ? Nunca viste a tua memória falhar no momento em que tentavas recordar o texto deste ou daquele autor ? Nunca tiveste na ponta da língua a citação que teria diferenciado a tua argumentação ?
Há dias viajava eu de avião, quando ao meu lado, um perfeito desconhecido quase se mostrou (imagine-se) indignado, por eu ainda não ter lido o "incontornável Código da Vinci". "Que falha", disse-me ele. E que pena eu não me ter conseguido lembrar de um pequeno "Aforismo" de Arthur Schopenhauer, pensei eu. É que perante o seu - mais que provável - desconhecimento deste autor, ter-lhe-ia respondido no mesmo tom em que ele me dirigiu a palavra: “que falha, mon ami... Mas que falha !
"A arte de não ler é muito importante. Consiste em não sentir interesse algum por aquilo que está a atrair a atenção do público numa determinada altura. Quando um panfleto político ou eclesiástico, um romance ou um poema estão a causar grande sensação, não devemos esquecer-nos de que quem escreve para tolos tem sempre grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler os maus. A nossa vida é curta !"
Para bom leitor meia palavra basta...

9.4.07

LIVROS MAQUIAVÉLICOS

"Niccolò Machiavelli" (Galleria degli Uffizi - Florença)

Dizia alguém que “Maquiavel é sobretudo citado por aqueles que nunca leram a sua obra”. Ora aqui está uma afirmação sensata, que traduzida em português corrente, resumir-se-ia a “não fales daquilo que não sabes”.
Por falar em Maquiavel, diverte-me percorrer as livrarias e observar a quantidade de livros que por lá existem relacionados com este autor. Não falo de livros de Maquiavel, nem mesmo de livros sobre Maquiavel, mas sim de livros que vão buscar a Maquiavel uma suposta sabedoria, para depois aplicá-la às mais diversas áreas. Um pouco como aquilo que aconteceu a Sun Tzu e a sua famosa “Arte da Guerra”. Tenho em mente livros como “Princesa Maquiavel para as Mulheres” (A. Rubin), “Conflito Civil e Liberdade: A política maquiavélica entre história e medicina” (M. Gaille-Nikodimov, P. Moreau), “O Conselheiro do Príncipe” (R. Damien), “Política Guerreira: do Imobilismo das Nações quando a Democracia se instala” (R. Kaplan), ou ainda o recente “Maquiavel em Democracia” (E. Balladur).
Creio que na história das extravagâncias do espírito humano, é um dos capítulos mais intrigantes aquele que atribui a reputação de fundador da teoria política moderna a Maquiavel. Dizem que este autor separou a política da moral, assim como isolou a esfera política pura tendo analisado a sua realidade, pela primeira vez de forma autónoma, com uma profundidade inesgotável. Basta aliás abrir o “Príncipe” desconhecendo o autor e o contexto em que foi escrito, para se ficar impressionado com o seu conteúdo e os ensinamentos de Maquiavel.
Mas esta obra repleta de conselhos triviais, simplistas e grosseiros, parece-me mais destinada a chefes da Máfia, do que aos responsáveis destes organismos complexos e subtis que são os Estados modernos. Senão vejamos: se um qualquer Chefe de Estado seguisse os conselhos de Maquiavel numa cimeira Europeia, teria de mandar envenenar ou apunhalar os restantes colegas, depois de ter subornado os seus assessores, e de ter prometido a cada um dos guarda-costas cinco mil Euros (valor este que nunca teria pago) para fecharem os olhos ao massacre e depois proclamarem-no pela força como o novo líder da Europa.
Deste modo, o carácter bufo do “maquiavelismo” sobressai a partir do momento em que tentamos aplicá-lo a uma situação política moderna. As receitas políticas de Niccolò di Bernardo Machiavelli – sem dúvida um brilhante autor do século XVI – têm razão de ser se tivermos em conta o estado medíocre e calamitoso em que se encontrava a Itália nessa época (guerras entre Florença, Pisa, Prato, Pistoia, Arezzo, etc.). Mais do que uma verdadeira teoria de governação, Maquiavel limitou-se a tirar ensinamentos do triste espectáculo das rivalidades entre as famílias regentes italianas do período renascentista (cuja política consistia em recorrer a assassinos profissionais, os condottieri, para eliminar os seus rivais).
Esta visão obscura da obra de Maquiavel nada tem de novo. Frederico II da Prússia opôs uma crítica devastadora a Maquiavel no seu livro “O Anti-Maquiavel”. Nele pode-se ler que “se por um lado a maldade de Maquiavel atinge um grau de horror sem igual, por outro as suas ideias metem dó”. O historiador Jacques Heers (in “Maquiavel”) fala-nos numa obra “mal construída, fastidiosa e cheia de lacunas históricas graves”. Parece-me que ambos têm razão e ao ler a obra de Maquiavel, apenas consigo entendê-la no contexto em que foi redigida: a Itália Renascentista que tanto se parecia com o Iraque de hoje.
É pois divertido contemplar esta proliferação de livros que vão buscar a Maquiavel as soluções (ou os conselhos) para problemas contemporâneos das mais diversas áreas. Será que os autores, sejam eles políticos, sociólogos, médicos ou outros leram – ou entenderam – a essência da obra de Maquiavel ? Direi que não. Maquiavélicos são já os ensinamentos de um autor para quem a forma de “conservar o Poder sem ser assassinado pelos nossos inimigos e sobretudo pelos nossos inimigos, consiste em assassiná-los antes que eles nos assassinem a nós”. Prefiro não imaginar o que poderão ser os conselhos - ou disparates - daqueles que nele se inspiraram...

1.4.07

AMORES ROMÂNTICOS

"George Sand" por Eugène Delacroix (1798-1863)

A Paixão entre Chopin e George Sand (pseudónimo de Amandine Lucile Dupin) foi tão bela, que se não tivesse existido, teríamos de a inventar. Tudo aconteceu em meados do século XIX, em pleno "Período Romântico", termo que define aliás bem a relação entre os dois amantes.
Em 1837, aos 27 anos, Frédéric conheceu a escritora, com quem viveu durante dez anos. Sem dúvida alguma foi ela a sua inspiradora durante os anos mais prolíficos do jovem músico. Chopin nunca compôs tão bem como quando viveu com Sand em Nohant, preocupando-se com seu piano durante todo o dia, enquanto ela escrevia a noite toda. Foi também Sand quem dele tratou durante os longos períodos em que ficou enfraquecido pela tuberculose, tossindo "baldes de sangue" (segundo as palavras da própria romancista).
Mas as histórias de Amor nem sempre acabam bem. Sobretudo as histórias de Amor do século XIX. É para muitos difícil imaginar que, com a sua reputação de fumadora de charutos e rebeldia sexual, Sand atraísse um homem como Frédéric, quanto mais conseguisse manter uma relação estável com ele. Convém lembrar que, para além de Chopin, a escritora foi amante do poeta Alfred de Musset, do compositor Franz Liszt, e mulher do barão Casimir Dudevant. Após a ruptura com Sand, Chopin ainda deu alguns concertos, mas morreu dois anos mais tarde (com 39 anos) na desolação e na pobreza. Para muitos dos seus amigos foi ela que o matou, mas a verdade é que foi ela quem prolongou a sua existência ao cuidar do jovem compositor. Chopin era uma criança grande para quem George foi acima de tudo uma Mãe. Perigosa dependência esta, se pensarmos no quão rebelde foi esta mulher durante toda a sua vida.
Hoje, dia das mentiras, direi que toda esta história de Amor parece mentira, mas foi verdade. Este romance foi de facto muito "romântico", com Amor, Paixão e lágrimas q.b à mistura (não estaríamos nós em pleno século XIX). O marquês de Custine, amigo de Chopin, referiu na sua correspondência pessoal que "a pobre criatura não vê que esta mulher o ama como um vampiro". Nada mais injusto apetece-me aqui dizer. Não terá sido antes o contrário ? Se pensarmos bem, devemos a Sand a sobrevivência do artista, assim como a força que este encontrou para compor obras cuja beleza é inigualável, como este nocturno que vos convido a ouvir. E ainda há quem diga que o Amor não tem força...

31.3.07

QUANDO M.I.T RIMA COM MORTALITY...

Deixei passar o dia 20 de Março (último dia do Inverno) sem falar neste assunto. Talvez não tenha desejado ensombrar a luz da Primavera, quem sabe... Mas não deixarei findar o mês de Março e muito menos passar o dia das mentiras sem falar nesta terrível verdade.
"Festejámos" nessa data os quatro anos da invasão do Iraque. Ora os números são tristes e de que maneira. Não os números do petróleo. Esses não. Nem os números da vitória. Mas sim o número daqueles que como tu e eu são (ou eram na altura) deste mundo. Eu sei que já sabes. Sabes que muitos dos que eram em 2003 hoje poderiam ainda ser. Sabes que todos os dias muitos mais deixam de ser. Mas será que sabes mesmo ao todo quantos já não são?
Uma análise do Centro de Estudos Internacionais do muito reputado Massachusetts Institute of Technology, também conhecido por M.I.T, apresenta-nos uma dolorosa realidade. Quantos foram ? Aproximadamente 601.207. Mais todos aqueles que (já) morreram enquanto leste as minhas palavras...
n.b : para aceder ao "Human Cost of the War in Irak Study" clicar em : HCWI (pdf) .

25.3.07

PEQUENOS SINAIS DA MODA


Não sei bem porquê, mas ao rever umas fotografias do mais recente evento de Moda que ocorreu nesta cidade onde vivo, recordei este sábio texto dos "Pensamentos" de Pascal:
"Não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser. Queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária, e para isso, esforçamo-nos por manter as aparências. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar o nosso ser imaginário, e descuramos o verdadeiro. E se temos ou a tranquilidade, ou a generosidade, ou a felicidade, apressamo-nos a apregoá-lo, a fim de atribuir estas virtudes ao nosso outro ser. Se fosse preciso até estararíamos prontos a despojar-nos delas para juntá-las ao outro. De bom grado seríamos cobardes para adquirirmos a reputação de valentes. Grande sinal este do nada que somos, não nos contentarmos de uma coisa sem a outra, e trocarmos muitas vezes uma pela outra ! Pois quem não morresse para conservar a sua honra seria infame..."

19.3.07

CARTA AO MEU PAI


Querido Pai,
Hoje é o teu dia. No meio de tantos afazeres importantes lá me lembrei de te escrever e sobretudo, lá me lembrei de ti maldito velho.
Aqui entre nós que ninguém nos ouve Pai, ainda bem que existe esta coisa do dia 19 de Março. Por três motivos e mais nenhum. (1) Ainda bem porque isso quer dizer que ontem, amanhã e nos restantes dias até ao próximo 19 de Março, não mais voltará a ser o teu dia. (2) Ainda bem porque para mim e os teus outros filhos não mais serás Pai até essa data. (3) Ainda bem porque poderemos pôr-te numa prateleira durante quase um ano... e que ninguém se atreva a criticar-nos pois terá direito a uma resposta do tipo: “hoje não é dia do Pai, posso-me estar completamente nas tintas para o velho”. Não concordas comigo, querido Pai ?
Deixa-me, hoje que é o teu dia, ser totalmente honesto contigo distinto Pai. A verdade é que quanto mais penso neste assunto do Dia do Pai, mais fico convencido de que não fosse esta data tão especial, eu pura e simplesmente não me lembraria de ti – raio de velho – durante os demais 364 dias do ano. Nem eu nem ninguém aliás. Porque é certo e sabido, está cientificamente provado pelas principais marcas de Pais, que ninguém sabe que tem um Pai a não ser no dia 19 de Março. Esta data é especial por tratar-se do único dia do ano em que todos acordamos de manhã, deslumbrados com a descoberta de que temos... um Pai. Mas é Sol de pouca dura. Às 23h59mn59scs todos teremos voltado a esquecer o que isso é. Não acreditas em mim ? Ora experimenta lá perguntar a alguém num qualquer 17 de Agosto ou 23 de Novembro: “olhe desculpe, sabe o que é um Pai” ? Verás as respostas.
Tudo isto para te dizer, meu querido Pai, que já estou a lavar as minhas mãos pela total indiferença que irei ter contigo até ao próximo ano. E não me leves a mal, mas como já te expliquei - seu esclerosado de um raio -, está escrito algures aí não sem bem onde mas está, que o teu dia é o dia 19 de Março. O que para mim quer dizer que apenas existes hoje...
Aproveito também esta carta para te dizer que escrevi ao genial inventor deste conceito do Dia do Pai, para lhe agradecer o stress, as preocupações e as dores de cabeça que me poupou por não ser teu dia todos os dias. “O Dia do Pai é como o nosso Pai”, escrevi-lhe eu. “Há só um” ! Olha se fosse teu dia todos os dias. Nem quero imaginar o trabalho que me darias.
Infelizmente está na hora de concluir esta carta porque já é quase meia noite. Perdoa-me mais uma vez, mas mandam as regras que apenas seja o teu dia uma vez por ano, pelo que em breve deixarei de saber quem és. Deixo-te pois aqui um abraço muito grande e amigo, bem como votos de uma existência feliz até ao próximo dia 19 de Março.
O teu filho,
Fidélio

p.s: ó Pai, queria só dizer-te mais uma coisa que me parece importante. Não existe dia do filho mas se alguém te falar nisso não lhe ligues. Com certeza estará a tentar aldrabar-te. Assim sendo, peço-te para nunca te esqueceres que sou teu filho 24 horas por dia, 365 dias por ano... com todas as responsabilidades (e deveres) que isso acarreta para ti. Ok ?

13.3.07

VEGETARIANO ?

Nunca fui grande adepto de comida vegetariana. Respeito quem o é, mas deixem-me cá comer os meus pitéus favoritos em paz. Sobretudo agora que provei esta especialidade da gastronomia inglesa:

8.3.07

AS UNIVERSIDADES DEPENDENTES

Este alarido todo em torno da Universidade Independente fez-me pensar o quanto as universidades portuguesas, sejam elas públicas ou privadas, são dependentes.
Comecemos pelas primeiras: dependentes do erário público; dependentes das propinas; dependentes de orçamentos limitados; dependentes da boa vontade de alguns mecenas; dependentes de um sistema de avaliação deficiente; dependentes de estranhas políticas de educação, levadas a cabo pelos ainda mais estranhos políticos que nos governam; dependentes da escassez de alunos em certos cursos; dependentes de muitas outras coisas que não saberei aqui indicar.
Prossigo com as segundas: dependentes dos políticos que as autorizaram, para conter a insuficiência de vagas no ensino público; dependentes dos seus estranhos dirigentes, mais preocupados em fazer fortuna do que em educar, mais preocupados em lavar dinheiro do que em ensinar, mais preocupados em guerrear do que em deixar estudar; dependentes dos caprichos, mordomias e trem de vida dos seus professores, muitos dos quais são professores por mero favor, tacho, amizade, interesse político, tudo é válido desde que não seja por mérito; dependentes de interesses obscuros que ninguém quer ver; dependentes dos escândalos a que já nos habituaram; dependentes de um sistema de avaliação deficiente; dependentes de quem não acedeu ao ensino público; dependentes de muitas outras coisas que não saberei aqui indicar.
Termino com aqueles de quem todos se estão nas tintas, mas que são a razão de ser destas nobres instituições: os estudantes. Boa pergunta. Alguém se preocupa com eles e com a qualidade do sistema de ensino?
E ainda há quem fale em Universidades Independentes...

2.3.07

TIC-TAC...

"Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas, dos nossos imensos esforços, e das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos. É tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos. Um número maior morre por acidente, mas a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação. Uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até mesmo elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, apesar de tudo, adoramos a cidade, a manhã, e desejamos acima de tudo mais..."
Michael Cunningham, in "As Horas"

28.2.07

PIADINHA SOBRE RATOS

Parece que um cientista norte americano, descobriu após anos de estudo, que as pessoas que não têm suficiente actividade sexual lêem os blogues com a mão pousada no rato.
Não vale a pena tirar a mão agora, já é tarde...

22.2.07

TIROS CERTEIROS

Fino demagogo e político astuto, o primeiro-ministro inglês anunciou ontem a retirada de 1.600 militares do Iraque. Eis mais uma prova do tradicional espírito pragmático anglo-saxónico, segundo o qual a resolução dos problemas passa acima de tudo pela acção, mais do que pela teoria ou pela discussão. A pouco mais de um mês de deixar o poder (em Maio deste ano), Tony Blair está ciente de que convém não deixar um quadro muito negro ao seu sucessor, tanto mais que este será o candidato trabalhista ás próximas eleições legislativas. Foi tudo muito bem pensado e estudado. Chama-se a isto um tiro certeiro.
Certeiro também, foi o tiro que o Príncipe Harry deu hoje ao anunciar que iria para o Iraque com a unidade de combate à qual pertence, num país onde o serviço militar não é obrigatório. Com este gesto, Harry – que de Potter o herói nada tem a não ser o nome – veio mostrar ao público que pertence à classe dos natural born leaders. A este propósito, é curioso observar a ambiguidade moral daqueles que nos dirigem, ou pelo menos de alguns deles. Senão vejamos. Vivemos na época dos Direitos do Homem, da defesa de conceitos como a paz, o combate à opressão, e da diplomacia como solução para os problemas internacionais (não era este o espírito da Conferência de São Francisco que deu lugar às Nações Unidas?). No entanto o mundo continua sangrento e violento, e a recente guerra do Iraque fez ruir os pilares do diálogo multilateral. Muitos dos nossos líderes, como se de chefes tribais se tratassem, tentam obter um certo grau de legitimidade criando um passado militar, se possível com experiência belicista no currículo. Bush pai combateu na segunda guerra mundial. Bush filho foi a um porta-aviões relembrar que tinha passado pelo Vietnam. Colin Powell liderou o exército americano na primeira guerra do Iraque. Carlos de Inglaterra ou Felipe de Espanha fizeram questão em evidenciar a sua passagem pelo exército, enquanto que Clinton foi atacado por ter “escapado” à guerra do Vietnam.
Infelizmente, embora não se trate de uma regra geral, parece que continua na moda o conceito do “chefe tribal” guerreiro. Como se, para se ser líder de um país e chefe das suas forças armadas, fosse obrigatório ter-se passado pelas armas, com guerras e condecorações à mistura. Tudo isto para um dia, aquele dia em que se estiver sentado na cadeira do poder, entrar-se na hipocrisia dos discursos de paz seguidos de guerras sangrentas como foi o caso no Iraque. Para mim estes “chefes tribais” não são natural born leaders por terem experiência militar. Quanto muito são natural born killers. E por falar em killers, é bom que Harry se acautele no seu acto de bravura. Estou certo de que muitos local killers tudo farão para ensanguentar a passagem do jovem príncipe pelo Iraque. A isto também se chamaria um tiro certeiro.

12.2.07

PEQUENA LIÇÃO DE "VIDA"

E agora pergunto:
- o que mudou para ti, apoiante do NÃO ? Nada. Absolutamente nada. A não ser talvez, o facto de aquelas que não pensam como tu serem agora livres de abortar. Mas falo delas e não de ti claro. Porque tu, sentada no teu pedestal divino, embora discordes delas continuas livre de NÃO abortar. E todas elas respeitarão a tua decisão, isso te garanto eu.
- e o que mudou para ti, apoiante do SIM ? Tudo. Absolutamente tudo...

4.2.07

O PARADOXO DOS EXTREMOS

À pergunta "quem foi o maior assassino de todos os tempos", é frequente ouvirmos como resposta Adolfo Hitler. Tal como é frequente associarmos o conceito de ditadura aos regimes fascistas de extrema-direita. Mas ambas as ideias... estão erradas. Joseph Vissarionovich Djougtchvili, mais conhecido por Estaline, foi o maior assassino da história. Quanto às ditaduras, podem elas ser de esquerda ou de direita, não deixam lá por isso de ser aquilo que são.
Quando há dias assistimos à junção dos eurodeputados da extrema-direita num novo grupo parlamentar (ITS - Identidade, Tradição e Soberania), levantaram-se em Estrasburgo muitas vozes de crítica e indignação. Mesmo assim, a generalidade dos restantes grupos parlamentares, pouco mais pôde fazer do que resignar-se às regras do "jogo democrático". Afinal de contas, se deputados de extrema-direita há, é porque representam uma categoria de eleitores que os sufragou como seus representantes.
Pessoalmente não atribuí importância alguma a esta questão e, não fosse o alarido todo em torno deste assunto, pouco mais teria sido para mim do que uma (des)preocupante notícia de rodapé, aos olhos de um observador atento da actualidade internacional.
Eis senão quando, passados alguns dias, dei comigo a pensar na hipocrisia das críticas dos eurodeputados comunistas e, num plano mais alargado, na hipocrisia das nossas próprias democracias. Senão vejamos. Se por um lado é verdade que os regimes de extrema-direita deixaram penosas recordações na memória de todos nós (basta pensarmos em Benito Mussolini ou Adolfo Hitler), por outro seria impensável esquecermos as atrocidades dos regimes de extrema-esquerda (será necessário recordar aqui os genocídios cometidos por Estaline, Mao Tsé-tung ou Pol Pot ?). Constato no entanto que existe por parte das nossas democracias ocidentais, uma discriminação moral (e não só) contra os partidos da extrema-direita, e uma quase total impunidade dos partidos de extrema-esquerda. Seremos nós cegos ou hipócritas ?
Longe mim defender aqui a extrema-direita, que coloco no mesmo patamar da extrema-esquerda. São dois extremos que abomino, duas ameaças ao sistema democrático. No entanto levanto aqui as seguintes questões (deixando para quem me ler as respectivas respostas):
1. é ou não é verdade que ninguém se insurge contra a existência de partidos comunistas, enquanto que a simples existência de um partido de extrema-direita é motivo para a maior indignação ?
2. é ou não é verdade que, basta olhar para os números, as ditaduras da extrema-esquerda foram terrivelmente mais assassinas dos que as ditaduras da extrema-direita ?
3. é ou não é verdade que as democracias lidam de forma muito diferente com os partidos fascistas do que com os partidos comunistas ? Excepção feita do caso americano, em quase todas as nossas democracias o comunismo é tão legítimo como qualquer outra ideologia ou partido. O mesmo não se poderá dizer da extrema-direita, por vezes proíbida na Constituição, mas sempre contestada pela voz da multidão.
Ora se olharmos para o passado, para essa história que teimamos em esquecer e voltar a esquecer, não me parece que o comunismo tenha feito muito melhor. É por isso que, cada vez que ouço um deputado comunista a falar, cada vez que vejo o eleitorado comunista a votar, ou cada vez que assisto à indignação de todos contra um novo partido de extrema-direita dou comigo a pensar: não nos estamos a esquecer de qualquer coisa ?
Todos os extremos são perigosos. Mas aos olhos de todos, parece haver extremos mais perigosos do que outros. Talvez devêssemos ter provado o doce sabor das purgas de Estaline em vez da amargura do Estado Novo de Salazar e do horror dos campos nazis. Quem sabe, repugnariamos nós então ambos os extremos de forma menos paradoxal...

29.1.07

AS TRÊS FACES DO TRIÂNGULO

- O que é a Maçonaria ?
- A Maçonaria ? A Maçonaria é uma associação universal de homens livres e de bons costumes, que cultivam entre si os princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. É uma organização secreta (e discreta), que se define como filosófica, filantrópica e educativa. Os seus rituais e ensinamentos praticam-se em locais próprios, longe do olhar dos profanos (é profano todo aquele que não é Maçon), transmitindo-se apenas entre os membros iniciados. Os Maçons reconhecem-se entre si por sinais, toques e palavras que mantêm restritos. Reunem-se em Lojas Maçónicas e cada Loja Maçónica elege de entre os membros o seu Venerável Mestre...

22.1.07

GOSTO DESTA IGREJA...

... que diz ser pela vida, mas cujos cruzados mataram milhares de muçulmanos não-crentes;
... que diz ser pela vida, mas cujos missionários pouco ou nada fizeram contra o massacre de milhões de indígenas por esse mundo fora;
... que diz ser pela vida, mas cujos inquisidores queimaram milhares de pessoas inocentes;
... que diz ser pela vida, mas cujo líder apoia regimes que desprezam essa mesma vida, desde que não o desprezem a ele;
... que diz ser pela vida, mas cuja história está repleta de exemplos de desrespeito pelo ser humano, assim como dos seus direitos e liberdades fundamentais.
Também gosto de pregar aos sete ventos o valor da Tolerância para constatar, agora mais do que nunca, que estou a ser profundamente intolerante com esta Igreja de quem (não) gosto.
Mas aquilo de que mais gosto é sem dúvida a demagogia dos meus argumentos. Dir-me-ão os senhores da Igreja que o passado é o passado, que a história é a história, e que estes exemplos não são para aqui chamados. E pode bem ser que tenham razão. Ora por falar em razão, muita razão terão todos aqueles a quem um dia esta Igreja apontar o dedo por terem permitido, que infâmia, poder-se "não ser" pela vida. O passado é o passado, dirão eles à Igreja. E a história é a história...

15.1.07

PARECE VERDADE MAS É MENTIRA

Tenho reflectido bastante sobre uma pequena meditação de Descartes. Já passaram quatro séculos desde que o filósofo escreveu estas palavras e no entanto... no entanto continuam a ser de uma incrível actualidade: "todos os homens dão mais atenção às palavras do que às coisas. Assim, concordam muitas vezes com termos que não entendem e que não se preocupam em entender. E porquê ? Ou porque acreditam tê-los entendido noutros tempos, ou então porque lhes pareceu que aqueles que lhos ensinaram conheciam-lhe o significado e que eles o aprenderam pelo mesmo meio..."
E deste modo perpetuam-se mitos, repetem-se mentiras, transmitem-se falsas-verdades. Pior ainda. Talvez seja este um dos motivos pelo qual o nosso mundo está repleto de preconceitos de todos os tipos e feitios. Abram os olhos meus amigos. Abram os olhos. Muitas verdades dadas como adquiridas convêm mais àqueles que as proferiram, do que convirão um dia a quem demonstrar a sua falsidade.

9.1.07

IN NOMINE IUSTITIAE

"O futebol é um mundo de branqueamento de dinheiros sujos, com promiscuidades políticas que não se sabe onde começam e onde acabam, e que são altamente nocivas para as instituições democráticas" (Maria José Morgado, in Público, 29-09-2002).
Se alguém há a quem desejo um bom ano 2007 é sem dúvida alguma esta corajosa magistrada, bastião do combate à corrupção, outrora Directora-adjunta da Polícia Judiciária, e que muitos decerto recordam do - já distante - "Caso Moderna". Não tenho dúvidas de que foi a melhor escolha de Fernando Pinto Monteiro para o cargo de coordenadora do processo "Apito Dourado".
Resta saber duas coisas:
- em primeiro lugar, qual irá ser a real margem de manobra da Procuradora? Será que o poder político vai torpedear o seu caminho? Será que os partidos vão conseguir prescindir (direi mesmo abdicar) desta importantíssima fonte de controlo das massas que é o futebol? Será que inúmeras figuras públicas estarão dispostas a deixar o seu nome ser arrastado pela queda de um ou outro "barão" da política e/ou do futebol?
- em segundo lugar, será que o arrastar deste processo levou ao desaparecimento de provas, ao desaparecimento de "dossiês", à prescrição de prazos e à perca de outros elementos importantes?
Resposta, jogo e demais golos este ano, numa sala perto de si...

2.1.07

2007 !

Hoje, mais do que nunca, penso que a Administração Bush deveria reflectir sobre as consequências da morte de Saddam Hussein. E hoje, tal como há um ano atrás, penso que Bush e todos nós deveríamos meditar sobre estas sábias palavras de Gandhi : "o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente".
A todos um bom 2007.

23.12.06

É NATAL TODOS OS DIAS...

Venho eu mais uma vez para aqui pregar sermões contra o Natal. E porque não? Porque haveria eu de ser hipócrita, escondendo-me por detrás do manto que tantos outros optaram por escolher? Deixa-me partilhar contigo leitor uma visão, apenas uma, daquilo que é o Natal. Sem ofensas, sem desrespeito pelas crenças de ninguém, sem intolerância e sem arrogância. Apenas um pequeno tempero de ironia, se assim me for permitido...
Diverte-me observar as pessoas estressadas com as compras de presentes inúteis, por mera obrigação e dever. Correm elas em pânico nas ruas da(s) cidade(s) como formigas atrás de comida. Carregadas de sacos invadem as lojas, entulham-se em supermercados, insultam-se em intermináveis filas de espera para pagarem presentes que têm de comprar por ser Natal. Perante toda esta histeria colectiva, há quem me diga que oferecer um presente é um gesto bonito, que proporciona o prazer de fazer sorrir aqueles de quem gostamos. Há quem me diga que o Natal dos presentes pouco importa, a não ser para as crianças porque elas é que gostam de receber presentes. Há quem me diga que o Natal dos presentes é o Natal dos três reis, que em tempos ofereceram ouro, incenso e mirra ao menino Jesus. Há também quem me diga que o Natal não é nada disto. Não são os presentes, nem os embrulhos, nem as compras, mas sim a família, o reencontro dos amigos e daqueles de quem gostamos.
Qualquer um dos dois primeiros argumentos é fabuloso. Por mera dedução sou levado a crer - com algum cinismo reconheço - o seguinte:
- se não existisse o Natal nunca poderíamos oferecer presentes ás pessoas que são importantes para nós. Ou pior, sou levado a crer que se não existisse o Natal nunca nos lembraríamos dessas pessoas, nunca nos passaria pela cabeça oferecer-lhes qualquer coisa no simples intuito de vê-las felizes. Será mesmo verdade? Para mim poderia é Natal todos os dias. Não para receber mas para dar, porque gosto de ver felizes aqueles que amo. Mas dizem-me que o Natal não é nada disto. O Natal é a família. O Natal é Cristo.
- se não existisse o Natal ignoraríamos por completo as crianças. Nunca nos passaria pela cabeça oferecer-lhes um brinquedo sequer, muito menos partilhar com elas a beleza dos seus sorrisos quando desembrulham os presentes. Também neste caso volto a dizer: para mim é Natal todos os dias. Não para receber mas para dar, porque gosto de ver felizes as crianças do mundo. Mas dizem-me que o Natal não é nada disto. O Natal é a família. O Natal é Cristo.
Mais robusto, mas não menos interessante, é o argumento da família. Infelizmente, sou mais uma vez levado a crer, sempre com algum cinismo, o seguinte: se não existisse o Natal, o conceito e o valor da família não existiria. Ninguém se lembraria dos Pais, dos Avós, dos Tios, Primos, Sobrinhos etc. Ninguém teria vontade de reunir em torno de uma mesa os entes queridos, ninguém pensaria nem pouco mais ou menos na família. Mais uma vez pergunto: será mesmo verdade? Será mesmo preciso o Natal para valorizar a família? E mais uma vez respondo: para mim é Natal todos os dias. Mas continuam-me a dizer que o Natal não é nada disto. O Natal é Cristo.
Por fim, perante o argumento do Natal cristão, pouco tenho para dizer. Respeito aqueles que seguem as suas crenças, aqueles que acreditam em Cristo e em Deus. Aqueles que vão - ou deveriam ir - à missa de Natal, porque são - ou dizem ser - cristãos.
Resta-me perguntar a todos os outros, "falsos cristãos" e "não cristãos": se não acreditam em Cristo (ou dizem acreditar mas lá bem no fundo não acreditam em nada, ou talvez acreditem porque foram educados num meio cristão) porque festejam então o Natal? Será para verem felizes as pessoas de quem se estão "nas tintas" nos restantes 364 dias do ano? Será para verem felizes as crianças de quem se estão igualmente "nas tintas" nos restantes 364 dias do ano? Será para estarem com a família que talvez desprezem nos restantes 364 dias do ano? Será porque acreditam em Cristo e em Deus quando na realidade não acreditam nele, ou apenas acreditam nele um dia por ano?
Reflecte pois sobre tudo isto leitor. Não procuro convencer-te com os meus argumentos e a minha forma de pensar. Não pretendo ofender-te. Nada pretendo, a não ser que reflictas um pouco sobre este dia que todos os anos festejas quase que por obrigação. Qual é o verdadeiro e genuíno sentido que tu leitor dás ao Natal? Seja lá qual for esse sentido toma nota que para mim é Natal todos os dias. E se não é deveria sê-lo. Porque gosto dos meus amigos, das crianças e da minha família...

15.12.06

THE OLD FASHION GUY

Todos os anos, por volta desta data, envio qualquer coisa como quinhentos cartões de boas festas. Refiro-me claro, a cartões manuscritos, destinados a familiares, amigos, conhecidos, contactos profissionais, etc. Segue também outra centena de cartões, em formato virtual, para pessoas cujo acesso é mais fácil via e-mail.
Parece-me um gesto simpático proceder ao envio de todos estes postais, para além de saber que ao fazê-lo estou a ajudar terceiros por ter adquirido o material necessário junto da UNICEF e da SADM. Enviar um cartão de boas festas personalizado, é uma forma de mostrar aos amigos que pensamos neles durante a quadra festiva, neste mundo em que reina a frieza e o distanciamento, em que todos se cruzam na rua com olhares agressivos, quando um simples sorriso bastaria para mudar tanta coisa. Talvez não tenha sido por acaso, que uma instituição cívica lançou durante o mês de Dezembro uma acção denominada "abraço para todos", na qual voluntários se disponibilizaram a abraçar gratuitamente as pessoas que passeavam nas ruas de Lisboa.
Dito isto, este ano fiquei estupefacto com duas ou três respostas que recebi, não por se tratarem de respostas inconvenientes, mas sim pelo conteúdo das mesmas. Imaginem o que é receber um sms, um e-mail, ou até mesmo uma chamada, naqual nos retribuem os votos mas... nos criticam por termos enviado os mesmos por escrito, em vez de aderir "como toda a gente" ao postal virtual, ou ao sms. Não me parece que enviar um cartão de boas festas pelo correio seja algo fora do tempo. Parece-me sim tratar-se de um gesto amável, sinal de que nos lembrámos de determinada pessoa nesta altura do ano. Horribilis é receber sms ou e-mails "chapa 5", enviados simultaneamente para dezenas de pessoas, sem qualquer personalização. Mensagens que tanto se destinam a mim, como poderiam destinar-se à minha vizinha do lado. Votos sem originalidade, que entopem o meu telemóvel, a minha caixa de mails, e a minha paciência...
Felizmente ainda há quem opte por escrever uma palavra simpática (e personalizada), ou se lembre pura e simplesmente de telefonar. É sinal de que ainda há quem pense em nós como indivíduos, e não como um nome numa interminável lista de contactos. Dizia-me uma amiga que apreciou o meu estilo old fashion. Fiquei feliz com as suas palavras. E verdade seja dita: prefiro mil vezes ser old fashion parecendo que vivo no passado, do que ser fashion e igual a tantos outros. Pensando bem, nunca é tarde para lembrar estas palavras de John Mason: "You were born an original. Don't die a copy".

8.12.06

AS LÁGRIMAS DO TEU ROSTO

Caem lágrimas dos teus olhos querida amiga. Tens o rosto manchado pela dor do teu coração ferido, enquanto choras o mais amargo desgosto sobre o meu ombro amigo. Nada sei sobre o Amor, dizes tu:
"Queres ter uma ideia do Amor? Observa os pardais do teu jardim, olha para os pombos. Contempla o orgulhoso cavalo que dois criados teus conduzem até à égua que por ele aguarda em sua serena paz, desviando a cauda para o receber. Vê como os seus olhos cintilam, ouve os seus relinchos, admira os seus saltos, cambalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsões, narinas que se inflam, sopro inflamado, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para a amada que Deus lhe destinou. E sobretudo não tenhas inveja.
Pensa nas vantagens da espécie humana. Elas compensam com o Amor todas as benesses que a natureza preferiu conceder aos animais: força, beleza, ligeireza e rapidez. Existem mesmo espécies que nem sabem o que é o prazer. Os peixes escamados por exemplo, pobres criaturas privadas dessa doçura. A fêmea lança no lodo milhões de ovos e o macho que os encontra nunca saberá a quem pertencem.
Quase direi que a grande maioria dos animais desconhece o prazer, quanto mais o Amor. Assim que o seu apetite é satisfeito, tudo se extingue como se nada tivesse existido. Nenhum animal, com excepção de ti, conhece os entrelaçamentos. Todo o teu corpo é sensível, os teus lábios sobretudo, gozam de uma volúpia que nada cansa, e esse prazer apenas pertence à tua espécie. Enfim, tu podes a qualquer momento entregar-te ao Amor, mas poderão os animais dizer o mesmo?
Em tudo isto estás acima deles. Mas se por um lado gozas de inúmeros prazeres que eles ignoram, em compensação, quantas tristezas os animais desconhecem..." (Voltaire)
É tudo quanto posso dizer para te consolar, minha amiga.

1.12.06

TINTIN NA TURQUIA

Ratzinger visitou ontem a famosa Mesquita Azul de Istambul, naquela que é por muitos considerada uma visita de alto risco ao país muçulmano mais próximo da Europa. E não falo só de proximidade geográfica. Falo também de proximidade cultural.
Fronteira entre a Europa e o Médio Oriente, a Turquia procurou adoptar um modo de vida ocidental desde 1923, data em que Mustafa Kemal Atatürk subiu ao poder impulsionando a modernização da sociedade turca. As suas reformas secularizadoras e ocidentalizadoras mostraram-se duráveis e deram à Turquia a paz interna e uma relativa prosperidade económica. Mas o Kemalismo deixou também a Turquia com uma identidade dividida: europeizada mas não totalmente Europeia, alienada do mundo islâmico mas permanecendo um país muçulmano. Seja como for, a Turquia é hoje um país em que o Estado é laico, em que o regime é democrático e o modo de vida ocidentalizado. Com todas as limitações que conhecemos...
Não é pois por acaso que se tem debatido profundamente a adesão da Turquia à União Europeia, com sucessivos avanços e recuos, discursos inflamados dos dois lados, mas uma sempre boa vontade demonstrada pelo governo de Ankara. Também não é por acaso que Bento XVI escolheu este destino quando decidiu deslocar-se a um país muçulmano. Ponte entre duas culturas, dois continentes e duas religiões, a Turquia é sem dúvida o país mais indicado, para o Papa tentar apaziguar, a ira que as suas palavras provocaram nos meios islâmicos mais radicais. Quem não se recorda de um certo discurso, em que o sumo pontífice pareceu indicar ver o Islão como uma religião violenta e irracional ?
Muito infelizmente, esta visita, mais do que uma sincera tentativa de aproximação entre duas religiões que se toleram em público e se odeiam em privado, mais parece uma visita de bombeiro. Afinal de contas, sejamos honestos, a principal tarefa de Ratzinger é apagar o fogo provocado pelas palavras que proferiu. Assim sendo, o Papa mais parece um Tintin do que um Pacificador: a sua missão resume-se em salvar o ocidente (católico e apostólico) de um inimigo implacável, em vez de estabelecer um diálogo sincero e duradouro entre duas religiões tão crispadas.
E é pena. É pena porque a violência continua, velada ou sangrenta, nas ruas de Ankara, Teerão, Baghdad ou Cabul. É pena porque o Papa perdeu uma boa oportunidade para lançar as bases de um verdadeiro diálogo e de um entendimento mútuo entre as duas religiões. E é também pena, porque embora esteja a tentar resolver um problema grave, o sumo pontífice mais uma vez demonstrou estar a pôr de parte outros problemas igualmente graves sobre os quais a Igreja deveria rever a sua posição: o casamento dos padres, o uso do preservativo, a liberdade sexual, a eutanásia e tantos outros temas importantes. Será um sinal de que o Vaticano vive mais uma vez fora do seu tempo ?

30.11.06

IMOBILIZAR O EFÉMERO

Escreveu Roger-Pol Droit este pequeno texto cujas ideias não são novas, mas cujo tema apela à reflexão:
"Outrora, os pormenores fugidios perdiam-se para sempre. Um gesto com a mão, um olhar de soslaio, o esboçar de um sorriso, uma inflexão de voz, uma determinada luz, tudo se afundava, a par de mil ouras realidades ínfimas a cada segundo, no oceano apagado de que não existe qualquer rasto seja para quem for. Com o tempo inventámos as máquinas de pormenores. Elas capturam os instantes. Fixam o mínimo grão. Conservam os sons e os perfis. Não foi há muito tempo que apareceram. Mas habituámo-nos a elas tão depressa que não damos hoje em dia nem pela sua presença, nem pelo seu poder. Ou quase.
Uma tecla aflorada por Scott Joplin em 1902, um pestanejar de Louise Brooks em 1934, o som de uma bota nos Campos Elísios em 1940, a chegada confusa de um comboio a Calcutá ainda ontem... Não nos esqueçamos pois que enquanto gravamos uma parcela de vida, estamos a tirar do tempo um minúsculo estilhaço de existência. Pensemos nessa ampulheta paradoxal que deixa fugir para uma espécie de eternidade a poeira das horas. De instante a instante, o que teria podido desaparecer para sempre fica disponível para ser reproduzido até ao infinito. O fugidio e o efémero são um escoamento permanente para o eterno.
E como irá tudo acabar ? A resposta não interessa..."

25.11.06

IS "BASTA" ENOUGH ?

Enquanto "chove a potes" por todo o país e Cavaco Silva fala em "Coesão Social" por terras transmontanas, enquanto o mundo discute a misteriosa morte do espião Litvinenko ou o massacre de mais 143 iraquianos inocentes, gostaria de vos lembrar que hoje, tal como há exactamente um ano atrás, é o "Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres". E tal como também escrevi há um ano atrás, é bom que seja !
Receio que muitos vejam este tema como "uma causa perdida", ou apenas "mais um problema com que a humanidade terá de viver". Mas acima de tudo temo, não por mim mas por elas, que enquanto os violentadores continuarão a violentar, os restantes homens ignorem este dia por acharem que não lhes diz respeito. Ora é precisamente essa evidência que nos leva a esquecer, muitas vezes a ignorar, aquilo que acontece diáriamente por todo o lado e quem sabe, na porta ao lado. A mulher é maltratada ? É um facto. Mas até que ponto sabemo-lo verdadeiramente ?
Não sendo especialista no assunto deixarei aqui um artigo que retirei do Público, no intuito de informar e sobretudo chocar. Porque é impossível não ficar chocado com os números...
"Em média, uma mulher em cada três sofre de violência na sua vida, desde espancamentos a relações sexuais impostas ou outras formas de maus-tratos, segundo um relatório do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, divulgado em Outubro. Em Portugal, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) assinala o dia com a divulgação de um estudo encarado como uma forma de "denunciar e alertar as autoridades e a sociedade para uma situação preocupante em Portugal", nas palavras de Elisabete Rodriques. Entre Novembro de 2005 e o mesmo mês deste ano morreram em Portugal 37 mulheres vítimas de violência doméstica, revela o estudo apresentado sexta-feira pela UMAR. (...) O Dia Internacional para a eliminação da violência doméstica é uma iniciativa da ONU e do Conselho da Europa e serve para debater e da visibilidade às vítimas da violência, quer através de espancamento, violência conjugal, crimes de honra ou casamentos forçados. Na Austrália, no Canadá, em Israel, na África do Sul e nos Estados Unidos, entre 40 a 70 por cento das mulheres assassinadas são-no pelo seu marido ou companheiro. Em França, cada três dias, uma mulher é morta pelo seu companheiro, segundo o governo francês. No Brasil, uma mulher é espancada em cada 15 segundos, ou seja, 2,1 milhões por ano, segundo a organização não governamental Agenda. Em África, a violência contra as mulheres passa pelas mutilações genitais, sofridas por 130 milhões de raparigas no mundo, segundo a ONU, mas também por um número recorde de mulheres infectadas pelo vírus da sida por não utilização do preservativo. Na Guiné-Bissau, a violência doméstica, sobretudo contra mulheres e crianças, tem sofrido nos últimos anos um "aumento alarmante". Francisca Pereira, presidente da Rede Nacional contra a Violência do Género e da Criança, indicou que, em 2005, as autoridades competentes do país registaram "pelo menos 427 casos". No Sudeste Asiático, crimes de honra e discriminações são o dia a dia de muitas mulheres. No Afeganistão, os suicídios por imolação de jovens adolescentes obrigadas a casamentos forçados estão a aumentar, estima a ONG alemã Medica Mondiale. Os casamentos forçados representam, naquele país, entre 60 a 80 por cento das uniões, segundo a comissão independente de defesa dos direitos humanos afegã. Neste contexto, a ONU congratulou-se quarta-feira de ver que 60 Estados em todo o mundo tinham adoptado leis contra a violência conjugal e familiar. A UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres, com sede em Nova Iorque, deverá gastar este ano 3,5 milhões de dólares, mais do dobro do ano passado, para lutar contra a violência contra mulheres. Estes fundos serão distribuídos nomeadamente a advogados nos Camarões que elaboram um código de família, a mulheres na Bulgária que trabalham numa lei contra a violência doméstica, a uma associação na Costa do Marfim que insiste na relação entre a violência contra as mulheres e a sida e quer facilitar o acesso à ajuda jurídica e médica. Na Europa, a luta assume formas diversas. A Espanha distingue-se por ter reagido ao problema com uma legislação "global", que traz respostas em termos de repressão, prevenção, acompanhamento das vítimas e dos autores da violência. Este país, juntamente com a Suécia, converteu o carácter repetido da violência conjugal em "infracção penal", que leva à aplicação de uma pena suplementar. Em França, o código penal pune "as violências habituais" mas unicamente para os menores de 15 anos ou as pessoas particularmente vulneráveis."
Há um ano transcrevi para aqui quatro artigos que retirei de quatro jornais internacionais. Regressava eu de uma viagem de trabalho a Nova Iorque. Como que por coincidência, acrescenta hoje o Público que "foi criado em Nova Iorque um tribunal especial para julgar casos de violência entre namorados adolescentes. Nos Estados Unidos uma em cada cinco raparigas do liceu já foi agredida pelo parceiro."
Is "basta" enough ?

22.11.06

A SECA DOS SECADORES

Não me considero uma pessoa maldizente mas existe alguém neste mundo contra quem rogo pragas várias vezes por mês, para não dizer diariamente. Esse grande senhor, esse "genial" inventor, de seu nome Robin Phillips, nasceu no dia 04 de Abril de 1933 em terras de Sua Majestade. Para além de ser mais um milionário, é a ele que devemos essa fantástica, maravilhosa, fabulosa, incomparável e revolucionária invenção que todos conhecemos tão bem: o hand-dryer vulgo "secador de mãos".
Qual de vós ainda não secou as suas preciosas mãos ao vento de uma qualquer máquina deste Robin da treta ? Dispensarei pois uma apresentação do engenho do Sr. Phillips. Vejam a fotografia supra exposta se tiverem dúvidas... ou se estiverem incrédulos com o tema que escolhi para este post.
Ao que parece, esta pequena máquina é uma verdadeira fonte de virtudes. No site de um dos principais fabricantes desta pérola do génio humano (World Dryer), são-nos dados dez bons motivos para instalarmos esta oitava maravilha da natureza numa qualquer casa de banho. Dez argumentos, dez mandamentos. A saber:
1. redução de 90% nos custos da "secagem" de mãos (o que é feito do conforto do utilizador?);
2. mais higiene para as casas de banho (vá-se lá saber...);
3. redução do trabalho de manutenção e limpeza das casas de banho (este argumento é fantástico, felizmente ninguém descobriu que o mais económico seria pura e simplesmente não secarmos as mãos!);
4. redução dos actos vandalismo (esperem até ao dia em que eu perder a paciência...);
5. funciona 24 horas por dia (até faz algum sentido, especialmente em espaços que não estão abertos todo o dia);
6. mais higiénico para o utilizador (vá lá, lembraram-se de nós, embora sinta aqui alguma condescendência não?);
7. redução dos riscos de incêndio (o quê? estamos a secar mãos ou a queimá-las?);
8. existe a possibilidade de ser cobrada uma moeda pela "secagem" de mãos, mediante instalação de um dispositivo especial (garanto-vos que se algum dia tiver de pagar para secar as minhas mãos numa destas máquinas, esvazio o stock de papel higiénico da casa de banho e cometo um acto de vandalismo, que deitará a baixo qualquer estatística prévia);
9. protecção do ambiente (ambiente de cinismo, isso sim...);
10. acto inteligente na gestão do negócio (já agora digam que o comprador da máquina é um pequeno génio e o melhor gestor do mundo!).
Mas a história não se fica por aqui. Foi inventado recentemente um novo secador ainda mais sofisticado, baseado na tecnologia dos jactos de avião. Devemos a outro "génio" essa descoberta, um tal de James Dyson. Ou será que não? A Mitsubishi veio reclamar os direitos sobre este "novo" produto, afirmando que lançou há 13 anos no mercado japonês uma máquina similar. A guerra promete ser feia e já está a dar muito que falar no "meio" da seca dos secadores, ou dos secadores de seca.
E enquanto estes senhores potentes discutem sobre patentes, lá vou eu premindo desenfreadamente o botão de ignição desta invenção que teima em dizer-me que não. Outras vezes aguardo desesperadamente que o sensor da máquina detecte as minhas mãos, a minha mão, o meu dedo... "É muito simples Sr. Dr.", diz-me a Sra. da limpeza. "Basta colocar as mãos aqui... Ora tente lá. E não se esqueça de esfregar bem as mãos para que as gotas de água caiam. Só assim o Dr. ficará com as mãos bem secas”. Que sapiência. É necessária toda uma técnica, talvez mesmo um manual de instruções, quem sabe um dia um curso de formação. E eu bem que tento. Tento secar, tento encontrar, tento esfregar e voltar a esfregar. Tento perceber como funciona esta maldita invenção que em vez de secar nada faz. Talvez despeje algum ar admito, por vezes quente mas quase sempre frio. Maldita máquina, penso para mim. Maldito Robin Philips. Maldita casa de banho.
Tomara todos os meus problemas e todos os males do mundo resumirem-se a este. Há quem caminhe diariamente 50 kms por um pouco de água. E até há quem já nem caminhe... Como que corpos moribundos e decrépitos morrem eles aos milhares por não terem esse escasso bem a que alguém chamou de água. E sabes que mais leitor ? Afinal até gosto quando não consigo secar as minhas mãos. É que pensando bem, poderia nem sequer ter água para lavá-las...

15.11.06

DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Considerando o disposto no Artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem ("todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado por causa das suas opiniões e o de procurar, receber ou difundir, sem consideração de fronteiras, informações ou ideias por qualquer meio de expressão") qualquer que seja o verdadeiro valor desta Declaração (não reconhecida por muitos), considerando o disposto no Artigo 37.º da Constituição da República ("todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações") e depois de alguma reflexão pessoal, decidi fazer algo que até hoje sempre tinha recusado fazer neste meu pequeno blog sem importância: autorizar "comments" aos meus "posts". Esta possibilidade extende-se a todos os posts, passados e vindouros. Venha daí o debate, venham daí as críticas construtivas... e destrutivas.

9.11.06

WHO FRAMED WHO ?

É incrível como a História é perita nessa figura de estilo a que chamamos ironia. No passado dia 05, Saddam foi condenado a "cair pelo pescoço" por vontade de um Tribunal iraquiano. Ontem, foi a vez de Rumsfeld ser condenado a "cair pelas urnas" por vontade do eleitorado americano. E tão amigos que eles foram...
Longe vai o ano em que as armas de Rumsfeld serviram a Saddam para aniquilar os opositores do regime. Armas essas que condenaram Saddam à morte, depois de uma guerra que levou Rumsfeld à demissão.
A história não é irónica. É muito mais do que isso. É um círculo vicioso, um cinismo subtil.

3.11.06

DEIXEM-NOS AMAR A VIDA !

"Queres amar a vida e não te deixam. Tens de respirar o ódio, o insulto, o bafo azedo do vexame e isso faz-te mal. Emanações de um pântano de febres, de esgotos a céu aberto com o seu fedor de vómito. Um dos tormentos do inferno medievo era esse, o fedor - a essência da podridão. E o que te fazem respirar de uma flor, do aroma de existires? Porque é que o ódio é assim fundamental para os teus parceiros em humanidade existirem? Têm uma estrutura diferente de serem, Deus fabricou-os num momento de mau génio. Vale a pena irritares-te contra a existência da víbora ou do touro?"
Vergílio Ferreira

31.10.06

A LEI DE TODOS OS HORRORES

É fantástica a Lei de todos os horrores. Sublime. Maravilhosa, incomparável, de uma beleza angélica. Se não fosse humana quase diria que é divina, provavelmente a oitava maravilha do mundo.
Para quem não sabe, refiro-me claro à Lei que o Presidente dos Estados Unidos da América assinou no passado dia 17.10.2006. Uma lei que autoriza "o recurso a métodos agressivos" nos "interrogatórios a suspeitos de terrorismo" e que permite "o seu julgamento por tribunais militares". Durante a cerimónia de assinatura da nova legislação, na Casa Branca, Bush afastou a ideia de que esta nova Lei vá permitir a tortura de suspeitos de actos de terrorismo, mas vários analistas acreditam que esse tipo de tratamento vai passar a fazer parte dos métodos de interrogatório da CIA. Como se não bastasse, a nova Lei concede ao Presidente o "poder de interpretação das regras internacionais sobre o tratamento de prisioneiros", autoriza o "julgamento de suspeitos de terrorismo em tribunais militares" e não exige que qualquer deles seja defendido por um advogado. "Com esta nova lei, os homens que os nossos agentes dos serviços secretos acreditam terem orquestrado a morte de três mil inocentes serão levados à justiça", disse Bush, referindo-se aos atentados do 11 de Setembro de 2001.
Que o exército americano e a CIA utilizavam a tortura nos seus interrogatórios, não é novidade para ninguém. E não estou só a pensar nas imagens que todos vimos na televisão, relativas ao tratamento desumano a que foram sujeitos tantos prisioneiros iraquianos. Penso também nesse fabuloso centro de detenção e tortura, de seu nome Guantanamo, que "está ali aos olhos do mundo para bom inglês ver" (como gosto das ironias da nossa língua)! Ou naquele gigantesco laboratório de tortura que foi – e ainda é – a América Latina. Para não falar nos manuais de formação dos recrutas da CIA de há 35 anos atrás, em que as técnicas de tortura eram detalhadamente analisadas...
Confrontado com a exacções do seu exército, o governo americano encontrou-se perante um problema para o qual apenas existiam duas soluções: 1. admitir e corrigir o erro (ou seja, de certa forma humilhar as suas próprias forças militares); 2. negar as ditas acusações (algo difícil, considerando as imagens que circularam por todo o mundo). Bush claro, optou pela terceira solução: legalizar a tortura, até porque esta já existia. Um pouco como aquela anedota do polícia que mata primeiro o ladrão e atira depois a avisar.
Resta-me perguntar: o que é feito da América da Democracia, da Liberdade e dos Direitos do Homem? O que resta do tão nobre "Bill of Rights" (*) da Constituição americana? O que resta do espírito da "Declaration of Independence" (**)? O que é feito do respeito pela dignidade do ser humano? O que é feito dos Direitos da defesa e outros Direitos tão penosamente conquistados com o tempo?
É inacreditável a Lei de todos os horrores. Assustadora. Monstruosa, inaceitável, de uma essência maquiavélica. Se não fosse humana quase diria que é obra do Diabo, mas provavelmente apenas é mais um dos horrores deste mundo...

(*) No sistema jurídico americano, o "Bill of Rights" (ver http://usinfo.state.gov/usa/info-usa/facts/funddocs/billeng.htm) é constituído pelos dez primeiros "Amendments" da Constituição, e garante alguns dos principais Direitos e Liberdades fundamentais dos cidadãos americanos, tais como: Liberdade Religiosa, Liberdade de Expressão, Liberdade de Imprensa, Direito a um julgamento justo e imparcial, entre outros. Curiosamente também é o garante do Direito de porte de arma, o que faz com que estas sejam livremente comercializadas nos Estados Unidos. Embora o "Bill of Rights" apenas seja aplicável a cidadãos americanos (excluíndo pois os "terroristas" de Bush), o texto tem muita força no sistema jurídico americano, embora a sua mensagem pareça ter sido esquecida na Lei de todos os horrores.
(**) A "Declaration of Independence" de 1776 (ver http://www.archives.gov/national-archives-experience/charters/declaration_transcript.html), cujo principal redactor foi Thomas Jefferson, declara a independência dos Estados Unidos da América perante a Coroa inglesa. É interessante reparar nas acusações que são feitas ao Rei de Inglaterra, muitas das quais referem-se à falta de Direitos e Liberdades concedidos aos colonos da América.

23.10.06

PORTUGAL, ESPANHA OU IBÉRIA ?

De acordo com um artigo publicado no Diário Digital no seguimento de uma sondagem efectuada pelo Instituto Ipsos, "quase metade dos espanhóis, 45,7%, quer a união entre Portugal e Espanha, com a maioria a defender que o novo país deve chamar-se Espanha, ter Madrid como capital e manter o regime monárquico, de acordo com uma sondagem. A sondagem, realizada pela Ipsos para a revista Tiempo refere que o apoio à união dos dois países é particularmente elevada entre os mais jovens, dos 18 aos 24 anos, com mais de metade (50,8%) a favorecerem essa opção. Entre os que favorecem a fusão, 43,4% dizem que o novo Estado deve chamar-se Espanha, contra 39,4% que favorecem a opção de «Ibéria», e apenas 3,3% favorece ver Lisboa como a capital do novo Estado, contra 80% que querem Madrid. Cerca de metade dos eleitores defende que o novo estado deve manter-se com o regime monárquico, que vigora em Espanha, contra 30,2% que defendem que o «novo país» seja uma República. A sondagem surge semanas depois de o semanário português Sol ter revelado uma sondagem que indicava que 28% dos portugueses favorecem a união com Espanha."
Mas afinal tanto barulho para quê? Nós ainda não somos espanhóis? Confesso estar baralhado... Senão vejamos: entro num qualquer supermercado e tenho de escolher entre a Panrico e a Cuétara. Quero abrir uma conta num banco e não sei se deva escolher o BBVA ou o Santander. Abro o Diário Económico e leio que as movimentações estratégicas da Portugal Telecom na América Latina estão dependentes de acordos com a Telefónica espanhola.Viro a página e constato que a Iberdrola já controla 9,5% da EDP. Ligo a televisão na SIC Notícias e constato que diversas instituições espanholas controlam (directa ou indirectamente) um total de 7% do capital social do BCP. Ouço o Presidente da República a falar e ele recorda-me que Espanha é o nosso principal parceiro comercial, e que não foi por acaso que a sua primeira visita oficial foi a esse país. Quero comprar um blazer e não sei se é melhor ir à Zara, ao Corte Inglês, à Massimo Dutti ou à Pull and Bear. A minha vizinha sente-se gorda e diz-me que vai amanhã ao "Talon". Em 1998 entro numa loja em Paris, tenho escudos no porta-moedas e dizem-me julgando estar a ser simpáticos: "Oh! Esteve em Espanha este verão? Eu também". Vou passear por Lisboa num qualquer fim de semana de Verão e não sei se estou em Madrid ou Portugal, tal é o número de espanhóis que cruzo na rua. Pego no carro, entro numa autoestrada da BRISA (a propósito, também ela controlada a 10% pelas Autopistas Espanholas) e é um desfilar de matrículas "hermanas". Vou a um Museu estrangeiro e um Dali, um Picasso ou um Tàpies abafam a "minha" Vieira da Silva.
O que me resta afinal? Ah sim. A língua e o Camões. Acabo de realizar que ainda vos estou a escrever em português, e que no bolso do meu fato Jesús del Pozo tenho um BI da República Portuguesa...

n.b: o presente post, inicialmente um comment deixado por mim em "A Pipoca Mais Doce" foi, depois de uma ou outra correcção, transposto para aqui.

16.10.06

A SEMANA DOS SONHOS

"Les Rêveurs" by Henri Martin (1860-1943)

Existem semanas em que todos parecem sonhar. São as semanas dos sonhos, como gosto de as apelidar. Sonham uns em festas de Fellini e Almodovar. Sonham outros com a santíssima virgem e os três pastorinhos. Sonham as "Tias" com os vestidos da ModaLisboa. Por fim sonhas tu, pobre ser humano, com um sorriso, com um pedaço de pão, ou simplesmente por um Mundo melhor.
Afinal não são as semanas dos sonhos. São as semanas de todos os sonhos...

9.10.06

O CAMPO DA MORAL

Que as políticas seguidas pelos actuais governos de esquerda e de direita são iguais, não é novidade para ninguém. Distantes estão os anos do neoliberalismo da Sra. Thatcher, do socialismo de Mitterand, ou da social-democracia de Brandt. Ainda mais distantes os anos em que existia um verdadeiro debate ideológico entre os dois lados do hemiciclo, marcados por discursos que ficaram na história por ter inflamado Parlamentos outrora dignos desse nome. E não julguem que apenas estou a pensar na dicotomia que marcou a primeira metade do século XX (fonte de regimes totalitários que tristemente recordamos). Estou a pensar também no longínquo século XIX e nos ferozes combates por ideais de outros tempos. Verdade seja dita: o “antigamente” já era, e nos tempos que correm, são poucas as diferenças na forma de governar qualquer que seja o partido mais votado. Aqui governa Bruxelas, ali governam os Poderosos, e por todo o lado governa o Capital. Não é por acaso que um amigo meu recém chegado da China afirma ter visitado o país mais capitalista do mundo...
Também não é por acaso que escolhi tão criteriosamente a minhas palavras. Muitos de vós que me estão a ler já terão Marx em mente, quiçá estarão convencidos de que ao invocar a “dominação do Capital” isso faz de mim uma pessoa com ideais de esquerda. Se por um lado é verdade que tanto a esquerda como a direita se esvaziaram (na maioria dos casos) da sua ideologia, por outro seria um erro esquecer que certos e determinados valores permanecem associados a cada um dos lados. Dito isto, sou infelizmente muitas vezes levado a crer que, houvesse um bem e um mal supremos, o bem residiria nas mãos da esquerda e o mal nas mãos da direita. Passo a explicar: fui recentemente abordado por duas pessoas que conheço mas que pouco ou nada sabem sobre mim, as quais julgaram depois de terem lido aqui e ali artigos ou devaneios meus, eu ser um homem de esquerda. E porquê? A explicação é simples. Por ser crítico relativamente à política externa dos Estados-Unidos, e por ter tomado partido pelo Líbano face às agressões de Israel. Por defender o “sim” em temas como o aborto, a eutanásia ou o casamento homossexual. Por ser um fervente defensor da redução do Poder das Igrejas na sociedade. Ou pura e simplesmente por achar que não se deve olhar para os “Estados Párias” (Líbia, Irão, Venezuela, etc.) de forma tão radical. Sou pois – dizem-me – supostamente um "anti-americano", um “laico”, talvez mesmo um “anti-religioso”. Para mais, tenho também uma “mente aberta” no que toca à defesa de vários direitos e liberdades das pessoas, não esquecendo claro, as minhas preocupações sociais e a minha acção filantrópica. Assim sendo, apenas posso ser de esquerda ou muito provavelmente sê-lo-ei. Vox populi dixit.
Não irei de todo entrar aqui numa análise do historial, dos valores e da evolução dos conceitos da esquerda e da direita, mas gostaria de referir que, tal como existem muitas esquerdas, existem também muitas direitas. Parece-me também que a tradição associou certos valores à direita e outros à esquerda, ou se quisermos ser mais precisos, cada um dos lados lado apropriou-se de determinados valores, e a explicação para a repartição desses valores reside na história da política, no nascimento dos partidos e na construção pelo homem das ideologias. Heranças do passado digamos.
Digam o que disserem uma coisa é certa. Posso não concordar com as políticas de Israel sem por isso ser de esquerda: isso faz de mim um opositor à violência e à guerra. Posso não concordar com a política externa dos Estado Unidos sem por isso ser "anti-americano" ou de esquerda: isso faz de mim um defensor dos mais fracos perante a arrogância dos poderosos. Posso ser um fervente defensor do capitalismo acreditando na “mão invisível” de Smith e ter ao mesmo tempo preocupações pelo bem estar social sem trair os ideais de direita: isso faz de mim alguém que se preocupa com o bem estar dos outros. Posso apoiar o direito ao aborto, à eutanásia, ao casamento homossexual, posso combater o racismo e a intolerância, sem por isso ser de esquerda: isso faz de mim um homem tolerante. Vou mais longe. Posso apoiar Clinton e não Bush sem deixar de ser “pró-americano” mas tornando-me certamente “anti-republicano”: isso faz de mim um Democrata. Posso, por fim, combater a intolerância de certas Administrações norte-americanas sem por isso defender o fanático radicalismo islâmico. Isso faz também de mim aquilo que tento em vão ser: um defensor da justiça e das causas perdidas na política multilateral internacional...
É a meu ver um grande erro – e sobretudo muito perigoso – querer politizar certos valores associando-os inevitavelmente a um dos campos políticos. Porquê? Por tratarem-se de valores morais mais do que valores políticos. Por vezes tenho a impressão (sobretudo quando ouço as jovens “mentes abertas” que acreditam poder mudar o mundo) que tudo o que é “mau” é de direita e tudo o que é “bom” de esquerda. Existem conservadores e radicais em ambos os lados, tal como existem liberais dos dois lados! Seria insensato afirmar que um dos lados não procura atingir o "bem" da sociedade que pretende governar (vamos pôr de lado os interesses pragmáticos e obscuros da política, e cingir-nos apenas ao velho debate dos ideais partidários que buscam a melhor forma de governação possível).
O problema, ou se preferirem o calcanhar de Aquiles da minha reflexão reside na dificuldade em definir o "bem" e o "mal" ou, por outras palavras, aquilo que é “bom” daquilo que é “mau”. Ao querermos estabelecer tal distinção estamos a entrar no campo da moral e a deixar o terreno dos partidos políticos. Simplesmente nem sempre estamos de acordo sobre a definição destes conceitos, e é por isso que existem os partidos bem como outras instituições na sociedade: para participar no debate propondo ideias e soluções. Uns de forma mais convincente, outros de forma mais sugestiva. Uns de forma mais prosélita, outros de forma mais tolerante.
No entanto parece-me que querer o "bem" da humanidade através da filantropia, da reflexão, da introspecção e do combate à violência ou à intolerância, é muito mais do que simples política de esquerda ou de direita. É o dever de cada ser humano. É a moral de cada um de nós na sua essência... ou não fosse a moral o conjunto das regras que cada indivíduo impõe a si mesmo, não para aumentar o seu bem-estar (isso seria puro egoísmo), mas para defender os interesses e os direitos de todos os outros. Não para ser "mau" mas para manter-me fiel a um certo ideal de humanidade e de mim. Criticar os crimes dos americanos, dos israelitas ou dos Mullahs, ser a favor do aborto e da eutanásia (...), não faz de mim um homem de esquerda ou de direita, mas sim alguém que tenta agir de acordo com regras morais que julga serem as mais correctas. Antes de ser político o debate é pois acima de tudo moral.
"Faz aos outros aquilo que queres que eles te façam”, disse Rousseau. “Devo agir de acordo com a máxima que faz com que eu queira que ela se torne ao mesmo tempo numa lei universal”, acrescentou Kant. E lá por buscar o caminho da moral (e não do moralismo), não deixo de ser menos de direita do que aquilo que sempre fui até hoje...

2.10.06

A COR DA ESCURIDÃO

Quando penso que dias há em que uma bomba mata cem pessoas, um tremor de terra colhe outras mil, a fome ceifa duas mil e a doença leva mais vinte mil, sou levado a crer que dias há que não deveriam existir. Apenas acontecem para estar antes ou depois, nada mais. É tempo pois de fazermos da escuridão uma cor de luz !

28.9.06

MÚSICAS DO MUNDO

Por ocasião do IXº Festival Internacional de Órgão de Lisboa, este ano dedicado a Mozart e ao qual desde já vos convido a assistir (as entradas são livres em todos os concertos), surgiu entre mim e o meu amigo senegalês G. um debate interessante que aqui gostaria de comentar, até porque estou em total desacordo com a opinião dele. Perante a minha afirmação de que “Mozart é sem dúvida um dos maiores génios da música” e que a história da música “tem uma grande dívida para com este e outros compositores ocidentais”, foi-me respondido que “Mozart viveu há 250 anos, enquanto que a música em África existe há mais de três mil anos”. G. acrescentou mesmo que “ainda nós europeus não passávamos de tribos bárbaras combatendo por territórios e descuidando as artes, já em África se produzia música e compunham cantos tradicionais. Como podes falar sobre Mozart sem conhecer a arte dos meus antepassados? Como podes afirmar que a humanidade muito deve a Mozart ignorando aquilo que se produziu no meu continente?
Fui para casa a pensar no assunto. Consultei alguns manuais, histórias e enciclopédias sobre música. Os livros da especialidade têm a meu ver razão, ao ensinar que o desenvolvimento da polifonia na Europa durante dez séculos foi um dos grandes feitos da humanidade e uma das maiores aventuras da história da arte. Parece-me incrível imaginar que esta teoria deva desaparecer, apenas porque foram descobertos embriões de acordos musicais em África, bem como no seio dos índios selvagens da Amazónia. Não tenho dúvidas que os pigmeus cantam há mais de mil anos. Mas ainda menos dúvidas tenho de que enquanto os pigmeus sempre cantaram de modo mais ou menos igual durante esses mil anos, a polifonia ocidental passou do simples bordão à Missa em Si Menor, à Sagração da Primavera ou aos Gruppen de Stockhausen. Confundir estas duas evoluções de uma mesma arte é querer pôr no mesmo patamar os cantos dos pigmeus e a música de Bach, a cabana do índio amazona e a Scala de Milão. Que os pigmeus - que são muito superiores a nós na caça e em muitas outras áreas que desconheço - vejam nascer no próximo milénio o seu Bach ou o seu Mozart, é uma hipótese magnífica, até porque a espécie humana conheceu com certeza mutações tão ou ainda mais surpreendentes. Mas que a sua música seja superior à nossa pelo simples facto de existir há muito mais tempo, ou até mesmo por ser uma arte que não conseguimos compreender, é uma ideia com a qual não posso concordar.
A arte é algo que está em constante evolução e mutação. Em mil anos o ocidente deu um passo de gigante na arte da música e o mesmo não se poderá dizer dos pigmeus ou dos índios amazonas. Afirmar isto não é desprezar nem tão pouco desvalorizar a música destes povos. Mas afirmar o contrário é fechar os olhos a um dos mais espectaculares fenómenos da arte musical: a história da música ocidental. Viva Mozart, Viva Bach, Viva Beethoven, Viva Cage!

21.9.06

ODE AO OUTONO

"Foi sempre meu desejo
ser aprendiz de Outono,
ser pequeno irmão
do laborioso
mecânico dos cumes,
galopar pela terra
repartindo
ouro,
o inútil ouro.

Mas, amanhã,
Outono,
ajudar-te-ei,
farei com que os pobres
dos caminhos
recebam em folhas de ouro.

Outono, boa montada,
galopemos,
antes que o negro Inverno
nos impeça.
É duro
o nosso trabalho.
Vamos amanhar a terra
e ensiná-la a ser mãe,
a guardar as sementes
que no seu ventre
vão dormir cuidadas
por dois ginetes vermelhos
que correm pelo mundo:
o aprendiz do Outono
e o Outono.

Assim das raízes
escuras e ocultas
poderão sair bailando
a fragrância
e o manto verde da Primavera.
"

Pablo Neruda, in "Odes Elementares"

17.9.06

O DESERTO DOS APÁTRIDAS

"Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo" escreveu em tempos Sócrates. E que mundo... Impotente, assisto com os meus olhos ao desfile de milhares de homens, mulheres e crianças caminhando sem destino, vítimas de uma guerra sem tréguas. Mais uma vez, abateu-se sobre a Terra um furacão que arrancou à árvore milenar as suas folhas verdes, em tempos cor da esperança, hoje cor dos exércitos que semeiam a destruição e a morte. Mais uma vez, seguindo os passos dos seus antepassados como um turbilhão numa estrada de pó, milhares de seres humanos abandonaram os seus lares em busca de uma nova pátria. É difícil para um refugiado enfrentar o desconhecido, mas ao escrever estas palavras estou convicto de que em nenhuma outra época foi tarefa tão árdua como nos tempos que correm. Parece-me que os países se isolaram uns dos outros com hostilidade e inveja. Por todo o lado reina a desconfiança entre os homens, e aquele que hoje é apátrida é o como nunca ninguém foi !
Olha pois bem para eles, os apátridas, tu que tens a sorte de saber onde estão a tua casa e o teu país, tu que a cada regresso de viagem encontras o teu lar e a tua cama, tu que tens à tua volta os livros que amas e os amigos para te consolarem. Olha bem para eles, pobres desenraizados, tu que tens a sorte de saber do que vives e para quem vives, e tenta perceber com humildade como o destino te favoreceu em relação a tantos outros. Olha bem para eles, pobres seres humanos amontoados neste monstruoso campo de refugiados pois o teu gesto, ir ter com eles, é por si só uma gigantesca consolação para quem tudo perdeu. E quando lhes dirigires a palavra na sua língua mãe, irão aspirar inconscientemente uma lufada de ar vinda do seu país natal e verás os seus olhos iluminarem-se como a luz do Sol que paira sobre este deserto sem fim. Mas nunca lhes perguntes para onde se dirigem, a não ser que queiras quebrar-lhes a esperança. Porque aí, antes mesmo de teres visto os seus rostos assombrarem-se e as suas crianças morrerem à fome, terás vertido as lágrimas de quem nada pode fazer...

n.b: nas 4 horas que antecederam o cessar-fogo decretado a 14 de Agosto (ou seja após ter sido decidido o final das hostilidades), Israël utilizou bombas de fragmentação (armamento de tipo convencional destinado a destruir, matar e sobretudo ferir), no intuíto de causar mortes "acidentais" após o final das hostilidades. Durante todo o conflito (12.07 a 14.08), Israël não tinha utilizado este tipo de bombas. A operação "Chuva de Verão" causou mais de mil vítimas civis, um terço das quais são crianças. Existem provas de que foram deliberadamente bombardeados alvos civis tais como colunas de refugiados, bairros residenciais etc. Israël defende-se destas acusações com o argumento de que o "Hezbollah" usou civis como "escudos humanos". No entanto, diversas entidades presentes no terreno (jornalistas, agentes operacionais de serviços de espionagem estrangeiros, "capacetes azuis" da ONU e até mesmo diplomatas) contestam os argumentos apresentados por Israël, e detêm provas concretas de que este País está a mentir.

11.9.06

THE MANHATTAN PROJECT

É irónico pensar no que foi o "Manhattan Project" (*), quando por todo o mundo se presta homenagem ás vítimas do 11 de Setembro. Hoje, passados cinco anos, apenas me apetece dizer uma coisa sobre tudo o que aconteceu: quem nada sabe tem de acreditar em tudo, quem tudo sabe prefere não ter de acreditar em nada...

(*)  sobre o "Manhattan Project" consultar:  www.en.wikipedia.org/wiki/Manhattan_Project

3.9.06

A GRATIDÃO DOS INGRATOS

"O ponto mais alto da moral consiste na gratidão. E esta verdade proclamá-la-ão todas as cidades, todos os povos, mesmo os oriundos das regiões bárbaras. Neste ponto estão de acordo os bons e os maus. Haverá quem aprecie sobre­tudo o prazer, outros haverá que julguem preferível o esforço activo. Uns consideram a dor como o sumo mal, para outros a dor não será sequer um mal. Alguns inclui­rão a riqueza no sumo bem, outros dirão que a riqueza foi inventada para o mal da humanidade e que o homem mais rico é aquele a quem a fortuna nada encontra para dar. No meio desta diversidade de posições uma coisa há que todos afirmarão, como soe dizer-se, a uma só voz: que devemos gratidão àqueles que nos favorecem. Neste ponto toda esta multidão de opiniões se mostra de acordo, mesmo quando por vezes pagamos favores com injúrias, e a pri­meira causa de ingratidão é não podermos ser suficiente­mente gratos. A insensatez chegou ao ponto de se tornar perigosíssimo fazer um grande benefício a alguém! Como se considera uma vergonha não pagar o benefício, julga-se preferível não existir ninguém que no-lo faça. Goza em paz o que de mim recebeste pois não to reclamo, nem to exijo. Basta-me saber que te fui útil. Não há ódio mais violento do que o proveniente de um benefício não honrado..."
Séneca, in "Cartas a Lucílio"

31.8.06

TRUST NO ONE, DOUBT EVERYTHING ?

Há dias olhei para o mar e questionei-me: devo desconfiar dos meus inimigos pois não me querem bem; devo desconfiar daqueles que não me conhecem pois não sei quais as suas intenções; devo desconfiar dos amigos pois podem-me trair como ninguém; devo desconfiar dos meus intímos pois ao quererem para mim todo o bem, acabam por atrair sobre mim todo o mal.
Então levantei a cabeça ao céu e concluí sem hesitar: prefiro mil vezes correr o risco de ser traído, a ter de desconfiar para sempre de todos...

31.7.06

O DESESPERO DA VELHA

Perguntaram-me um dia se eu me considerava um homem intolerante. Terrível pergunta esta, pronunciada pelos doces lábios de uma venenosa serpente, e dirigida a um eu a quem pouco mais restou fazer senão comer a maçã que em tempos foi de Adão. O nosso Mundo tornou-se - se é que alguma vez deixou de o ser - tão intolerante, que o valor da tolerância mais parece aquele irresistível fruto proibido dos textos bíblicos, origem dos males de toda a humanidade. Desculpem-me aqueles que me conhecem tamanha religiosidade, mas não será esta uma terrível verdade ? Qual de nós resiste ao doce sabor da intolerância, fonte dos mais amargos comportamentos ?
Já aqui falei inúmeras vezes sobre a tolerância. Defendi ser esta a mais nobre das virtudes e aquela que mais respeito. Foi-me no entanto impossível mentir àquela cobra que aguardava expectante a minha resposta, com um sorriso de vitória nos lábios e um olhar cínico nos seus olhos de luz. Sim ! Sou por vezes intolerante e irei dar-te alguns exemplos da minha intolerância, respondi-lhe. Observa o meu dia a dia e diz-me: quantas e quantas vezes tenho sido intolerante para com os mais velhos ? Torno-me impaciente com aquele velho que caminha em passo lento e atrasa o meu percurso pedonal. Irrito-me com aquela outra velha na fila de espera do supermercado, pois procura durante horas a sua moeda centimal, roubando-me um tempo que julgo demasiado precioso. Desespero com um qualquer "contemporâneo do D. Afonso Henriques" que conduz suavemente a 50 km/h, impedindo-me de voar com o meu carro a 200, quem sabe em direcção à morte...
Dizia Simone de Beauvoir que "a morte de um idoso é como uma biblioteca que arde". Quanta sabedoria escondida por detrás destas palavras ! É tempo pois de abrir os olhos sobre esta ocasional (e muitas vezes inconsciente) falta de paciência para com os idosos. Falo por mim leitor. Mas será que falarei por ti também ? Em vésperas de Agosto, mês onde costumo interromper a publicação de posts, gostaria de vos deixar aqui um pequeno texto de Baudelaire sobre a velhice, convidando-vos a meditar sobre o tema, enquanto desfrutarem o intenso calor do Verão:
"A velha, pequenina e encarquilhada, ficou toda contente ao ver a linda criança a quem todos faziam festas, a quem toda a gente queria agradar: aquele serzinho, tão frágil como ela, a pequenina velha, e, também como ela, sem dentes e sem cabelo. E ela então aproximou-se, procurando desfazer-se em risadinhas e trejeitos agradáveis.
Mas a criança, cheia de susto, estrebuchava sob as carícias da boa senhora decrépita, e enchia a casa toda com os seus guinchos. Então a boa velhinha retraiu-se para a sua eterna solidão, e ficou a chorar num canto, dizendo consigo: «Ah! Para nós desgraçadas fêmeas idosas, já passou o tempo de agradar, mesmo aos inocentes. Metemos medo aos próprios pequeninos a quem temos desejo de amar..."
Bom descanso a todo(a)s. E para quem ainda não o teve fica aqui uma palavra encorajadora: todo(a)s lá chegarão. Refiro-me à velhice claro.

25.7.06

DEFENDA-SE QUEM PUDER...

Um dos principais argumentos utilizados pelos defensores dos ataques de Israel contra o Líbano, afirma o direito de defesa do país contra as agressões praticadas por grupos terroristas. Aqueles que sustentam tal argumento, parecem menosprezar, em maior ou menor grau, o cada vez mais elevado número de vítimas civis, incluindo muitas crianças, dizendo que elas são utilizadas como “escudos humanos” pelo Hezbollah. Este argumento tem a meu ver uma tripla fragilidade: empírica, moral e política.
Em primeiro lugar, a fragilidade empírica. Segundo o relato de funcionários da ONU e de vários jornalistas que acompanham o conflito in loco, os bombardeamentos do exército israelita atingem alvos civis que nada têm a ver com o Hezbollah.
Em segundo lugar, a fragilidade moral. Se estes ataques contra alvos civis forem de facto deliberados, interessa então colocar uma questão: será este um custo aceitável para assegurar o direito de defesa ? Por outras palavras, será a morte de civis um preço a pagar inevitavelmente ? Assim sendo, digam-me qual a diferença entre os dois lados, expliquem-me quem é o mais terrorista dos terroristas, se o Hezbollah, se Israel.
Por fim, a fragilidade política. Israel, com os seus ataques, está a fazer crescer contra si o – já antigo – ódio do mundo árabe e muçulmano. E se esse ódio vitaminado se traduzir em novos ataques contra Israel ? Deverá então Israel exercer o seu direito de defesa de um modo ainda mais forte ? E até onde ? Até eliminar fisicamente todos os seus adversários, sejam eles milhares ou milhões ? Gostaria de saber como encaram os governantes de Israel os limites deste conceito de direito de defesa. Ou será que esse direito, como muitos outros, já se tornou num direito sem limites ? Talvez o governo de Israel devesse meditar sobre esta pequena frase de Gandhi: "Olho por olho e o mundo ficará cego"...

18.7.06

DIÁLOGO DE UMA TARDE DE VERÃO

- Quem és tu que hoje se vai mascarar de Vénus, recitar poesia ao improviso e pousar para mim ?
- Sou aquela das histórias de amor que acabam em saladas agridoce, como é o caso do teu nome. Imagino-te a falar francês, que doçura, prometes que me ensinas a fazer vibrar a língua por entre os dentes e o palato enquanto marco um Thierry de sotaque perfeito ?

11.7.06

A GLÓRIA DOS ORGULHOSOS

Envolvi-me há dias, com um grupo de amigos estrangeiros, num daqueles intermináveis debates que rapidamente se transformam em acesa discussão, e que no fim mais se parecem com o triste teatro dos nossos políticos, do que com um debate propriamente dito. O tema da nossa conversa nada tinha de extraordinário, embora verdade seja dita, tem feito correr muita tinta de há vários anos para cá : qual deve ser a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas e será que o modelo actual deve ser revisto? Não irei aqui deixar-vos a minha opinião sobre esta questão, pois não é minha intenção desenvolver este assunto hoje. Talvez num próximo post, quem sabe...
É no entanto interessante, agora que já se passaram uns dias, deitar um olhar neutro sobre uma conversa que se prolongou durante horas, e observar a forma como todos nos comportámos. Parece-me também útil tirar as devidas ilações sobre a mente humana e as nossas atitudes em geral. Salientarei antes de prosseguir a minha pequena reflexão, que existem várias opiniões possíveis sobre o assunto por nós debatido, embora não sob a forma de um leque interminável de soluções.
O tema é político na sua essência, mas demonstrou ser profundamente geopolítico na forma como foi discutido. A nacionalidade de cada um de nós influenciou as nossas respectivas formas de pensar, facto que me parece normal. Cada país tem os seus medos, os seus receios, as suas arrogâncias e complexos de superioridade, a sua cultura, o seu modo de pensar e sobretudo, uma forma de se posicionar no mundo que opta por desprezar alguns, enquanto procura valorizar outros. Existem assim divisões de todo o tipo : religiosas, políticas, culturais, geoestratégicas e militares (entre outras), divisões essas que se reflectem nas mentes de quem pensa. Na maioria dos casos, acabamos todos por pensar de acordo com os interesses das nossas "bem amadas" pátrias, em vez de pensarmos no interesse do mundo em que vivemos, o que por si só, é bastante perverso. Mas existe algo mais perverso ainda. A arrogância intelectual que se esconde em todos e cada um de nós - muitas vezes de forma perfeitamente inconsciente -, aquele desejo de vencer fruto do orgulho dos homens, bem como a imperiosa necessidade de sairmos sempre por cima, fazendo valer a nossa opinião sobre a opinião dos outros.
Quando damos por nós, discursamos sem ouvir o discurso dos outros, argumentamos sem respeitar o argumento dos outros, deixamos a demagogia sobrepor-se à razão, cingimo-nos à nossa mente esquecendo a mente dos outros, e mais triste ainda, cremos que a verdade reside em nós quando na realidade a incerteza reside em todos. Em assuntos de opinião onde reina a subjectividade e não uma verdade científica, a vontade de vencer não tem limites.
Revelamos pois, por melhores que sejam as nossas intenções, por mais educados que sejamos uns para com os outros, um orgulho próprio a cada um de nós. Demonstramos uma fome de glória, fama e vitória que muitos dirão ser própria da "condição humana" (afinal de contas quem gosta de perder ou ver a sua opinião vencida?), mas há também quem pense de forma bastante mais virtuosa, ou não terá Montaigne escrito em tempos que "de todas as tolices do mundo, a mais aceite e mais universal é a preocupação com a reputação e a glória, que desposamos a ponto de deixar de lado as riquezas, o descanso, a vida e a saúde, que são bens reais e substanciais, para seguirmos essa vã imagem e essa simples palavra que não tem corpo nem pregnância: a fama. Perigosa palavra esta que encanta com a sua doce voz os mortais soberbos e que parece tão bela, mas que não passa de um eco, um sonho, ou antes a sombra de um sonho, e que ao menor sopro se dissipa e desvanece. Das veleidades desarrazoadas dos homens, parece que mesmo os filósofos se desfazem desta mais tarde e mais a contragosto que de qualquer outra. É a mais pertinente e pertinaz. Não cessa de tentar até mesmo aqueles que progrediram no caminho da virtude. Quase não há outra cuja vacuidade a razão aponte tão claramente, mas ela tem dentro de nós raízes tão vivas que não sei se alguém jamais conseguiu libertar-se totalmente. Depois que tudo dissestes e em tudo acreditastes para renegá-la, ela produz contra o vosso raciocínio uma inclinação tão intestina que mal tendes com que lhe resistir. Pois, como diz Cícero, mesmo aqueles que a combatem querem no entanto que os livros que escrevem sobre ela tragam na capa os seus nomes, e querem tornar-se gloriosos por terem menosprezado a glória."
Belo e profundo texto este, sobre o qual todos nós deveríamos meditar...

5.7.06

EU ACREDITEI...

...e ainda acredito. Somos uma selecção com G de Grande !

30.6.06

O DISCURSO DE NERUDA

Reli há dias o discurso que Pablo Neruda proferiu em 1971 aquando da entrega do Prémio Nobel. É-me impossível não partilhar convosco este pequeno excerto:
"Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.
E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.
De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum..."
Pablo Neruda (Estocolmo - 1971)

21.6.06

SUMMER TIME !

Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o seu maior afastamento, em latitude, do equador. Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: em 21 ou 22 de Dezembro e em 21 ou 22 de Junho. A data varia devido aos anos bissextos, que deslocam o calendário das estações em um dia.
No hemisfério Sul, o de Dezembro é o solstício de Verão e o de Junho é o solstício de Inverno. O oposto acontece no hemisfério Norte.

20.6.06

OS PARABÉNS DA BICA !

Jantar e festa com os requintes a que o grupo Lux - Bica do Sapato já nos habituou : décor de sonho, entradas variadas, buffet de sushi até dizer basta, açorda de gambas à Pap'Açorda, rizzotto à Bica do Sapato, sobremesas de outro mundo e bar aberto, o que é óptimo para quem como eu apenas bebe água. Ganhei a noite pois pude ENFIM conhecer a Clara Ferreira Alves, depois de tantas festas em que a cruzei sem nunca lhe ter dito o quanto admiro o seu trabalho e sentido crítico. As caras do costume não faltaram claro, de José de Guimarães a Luis Serpa, passando pelo José Gomes Ferreira, Prado Coelho, Ana Salazar, inúmeras modelos deslumbrantes e pelos cabelos cinzentos do Santana que curiosamente, tanto contrastam com o ar saudável de um Portas a quem o poder não parece ter feito muito mal... Comprem qualquer revista côr de rosa para mais informações, ou leiam o próximo romance da Rebelo Pinto que por lá passeava em companhia sempre muito juvenil, tal como o tio Herman, a Lili ou a Bety e o seu Castelo Branco encantado. E mais não conto. Parabéns Fernando Fernandes, José Miranda e Manuel Reis. Parabéns e obrigado !

10.6.06

PORQUÊ ?

No Médio Oriente a violência voltou a subir de tom. Em resposta a umas granadas lançadas contra a faixa de Gaza, um barco de guerra israelita bombardeou uma praia da Palestina, matando uma família que ali descansava e três crianças que nada pediam a não ser viver. Já não interessa saber quem começou esta guerra, não interessa perder mais horas a debater com os analistas quem está na origem deste terror: se o Estado, se aqueles que resistem. Importa sim pôr um termo a esta interminavel violência, e Israel sabe melhor do que ninguém que também os seus filhos foram em tempos vítimas de outros horrores. Deixo aqui um pequeno e lindo texto, que há 60 anos tanto deu que falar (Jorge Amado, in "Folha da Manhã"):
"As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazis? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades ?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas eles e os seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza quotidiana do homem, o fascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas nazis, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como uma nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras de carícia, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É possível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espectáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o fascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases de carícia. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade !"

27.5.06

O CAMPO DOS PEQUENOS

Reabriu o campo dos pequenos. O campo dos homens com mentes pequenas, que matam animais cujas defesas são ainda mais pequenas, numa arena também ela pequena, repleta de um público sem pena. Um campo de cinemas, lojas e restaurantes pequenos, numa cidade pequena de um país pequeno, onde a crise essa, é tudo menos pequena.

Verdade seja dita que a reabertura da Praça de Touros veio trazer alguma animação à cidade. Um espaço multi-usos no coração das "avenidas novas", com sala de concertos e espectáculos, cinemas e demais cultura de entertainment. Mas aquilo que me assusta, mais do que arena dos pobres animais que ali vão sofrer, é de pensar que ainda há tempos abriu um Casino (cujo bar curiosamente também se chama Arena), é de saber que por todo o lado proliferam centros comerciais que são os maiores do mundo, e é de constatar que o bolso do portugueses está cada vez mais pequeno.

O campo dos pequenos mostra bem aquilo que somos: um pequeno país de pequenos, que querem brincar aos grandes, sem nunca deixar de ser pequenos...

18.5.06

OS PROTOCOLOS DA IGREJA

O Partido Socialista apresentou no Parlamento uma proposta que "retira as autoridades da Igreja Católica do protocolo", embora no texto seja esclarecido que "os representantes religiosos possam estar presentes em cerimónias sempre que o Estado decida convidá-los". Para meu grande espanto a Igreja reagiu com um fairplay exemplar, evitando assim uma desnecessária troca de declarações entre o poder político e as autoridades religiosas. Algumas vozes porém preferiram manifestar-se com toda a veemência de um conservadorismo fora do nosso tempo, mas mais grave ainda, com o fanatismo de uma religião prosélita e cujo passado está repleto de violência, por mais portadora de uma mensagem de paz e amor que possa ser.
Li por aí que a "Igreja faz parte da nossa história", que "somos um país católico", que uma "grande maioria da nossa população se vê representada na fé cristã", que "Portugal nasceu de uma bula papal", que "não devemos descurar e apagar o passado na nossa nação", que "somos o berço do Santuário de Fátima", que "somos um dos mais antigos países católicos do mundo", que "novamente a Maçonaria deu um golpe nas instuituições do Estado", etc.
Parto pois do princípio que estes senhores se baseiam na tradição religiosa (e cristã) do nosso país para atribuir poderes especiais à Igreja. Por falar em tradição sugiro então a quem tanto discorda desta medida que apele à "tradicção" e "ressuscite" do passado tantas e tantas ideias brilhantes da Igreja Católica, que tanto fez pelo nosso país e pela nossa civilização:
- ressussitemos a Inquisição e os seus milhares de mortos,
- ressuscitemos a Inquisição e os seus fabulosos autos da fé,
- ressuscitemos a Inquisição e a sua intolerância contra as ideias que incomodam (nomeadamente para quem já se esqueceu ou não se quer lembrar, a igualdade entre raças, a crença noutros deuses, as teorias da física e da ciência),
- ressuscitemos a Igreja que apoia Estados autoritários e com eles compactua para manter as pessoas distraídas daquilo que importa,
- ressuscitemos a prosélita Igreja que impões ideias e crenças sem deixar o espírito humano reflectir.
Já agora, e porque todos somos iguais, "ressuscitemos" também para o Protocolo de Estado a representação das crenças judaícas, muçulmanas, buddhistas, protestantes, as seitas que por aí proliferam, os movimentos neo-fascistas, o movimento gay, as associações desportivas, os bebedores de cerveja e vinho (também fazem parte da nossa tradição) para não mencionar mais. Imagine-se a vinda de um Chefe de Estado estrangeiro a Portugal e a sua recepção por um "protocolo" tão variado.
A lista poderia prolongar-se páginas e páginas a fio, mas não é aqui minha intenção ferir as crenças de quem não pensa como eu. Além disso a Igreja também fez muitas coisas positivas e seria injusto passar ao lado delas. Simplesmente meus Senhores, convém aqui explicar uma coisa: ao dizer que o nosso Estado é laïco a Constituição da Républica não diz que ele é Ateu, nem tão pouco prentede que se deve acabar com as crenças e as autoridades religiosas. Um Estado laïco é um Estado neutro, que tolera todas as crenças, sem tomar partido e/ou dar os privilégios do passado a nenhuma delas. Um Estado laico é um Estado respeitador da opinião de todos e de cada um, mas que não é representado pelas autoridades religiosas nos seus actos oficiais. Afinal de contas, quando votamos num partido, qualquer que este seja, para governar o Estado, não votamos na Igreja e em Deus para nos representar. A não ser que a Igreja seja um partido político, com um poder que já teve em tempos... Mas e se Deus não existir ? Amen.

11.5.06

F DE FILMES E FRANÇA...

A França não é só o Festival de Cannes que se avizinha (este ano presidido pela primeira vez por um cineasta chinês - WONG Kar-Wai), é também um verdadeiro thriller político, muito parecido com tantos filmes a que Hollywood nos habituou...
Trata-se da história de um espião, a quem o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros (e actual Primeiro Ministro) solicitou que investigasse as contas do seu principal rival político, no intuito de demonstrar que circulavam grandes quantias de dinheiro "sujo" em bancos estrangeiros. O espião não conseguiu guardar segredo, e "desabafou" com o seu primo direito, que é nem mais nem menos do que um eminente jornalista num dos maiores diários do país. O rival político sentiu-se ameaçado e pediu à Justiça que averiguasse. Entra então em cena um juiz decidido a repor a verdade, no meio de um jogo complexo de manipulação e intriga. É apreendida uma prova de peso: a agenda do espião, naqual estavam inscritos apontamentos tirados durante a reunião que teve com o seu ordenante. Para complicar ainda mais as coisas, suspeita-se que o próprio Presidente está por detrás desta enorme manigância. Resta aguardar pelos próximos episódios.
A França está a atravessar uma grave crise de sociedade. Há poucas semanas estava o país na rua contra as reformas do Governo. No início do ano estavam os "excluídos" na rua a incendiar carros, naquilo que pareceu ser uma verdadeira guerrilha urbana. Hoje estão os políticos aos tiros e a classe mais uma vez manchada por um escândalo digno de um verdadeiro filme.
E agora pergunto: quando a economia, os jovens, os excluídos e os políticos estão em crise, para onde caminha um país ?

3.5.06

O MASSACRE DOS INOCENTES

"Le Massacre des Innocents" by Paul Rubens (1577-1640)

Li há tempos no Público que entre 19 e 21 de Abril de 1506, fez agora 500 anos, uma multidão movida pelo fanatismo religioso perseguiu, violou, torturou e matou entre 2.000 e 4.000 pessoas, acusadas de serem judias. O episódio terá sido motivado por um alegado milagre que alguém terá posto em causa, e instigado depois por alguns frades dominicanos. Era domingo de Pascoelha, o domingo a seguir ao da Páscoa. Ao que parece, o próprio Rei teve dificuldades em conseguir restabelecer a ordem na cidade, tendo sido necessário o recurso à força das armas.
Pessoalmente desconhecia este triste episódio da história do meu país. Não que desconheca a história do meu país nem tão pouco a questão das perseguições aos judeus, mas tão somente porque não me parece que seja um episódio que a história tenha querido lembrar. Existem escritos e testemunhos da época sobre o sucedido, mas os livros de história parecem descurar esta mancha negra nas suas brancas folhas de papel. Foi preciso esperar 500 anos para que dois investigadores editem um livro sobre este assunto que a memória colectiva preferiu esquecer.
Abomino toda e qualquer forma de intolerância da mente. O fanatismo religioso ainda tão presente nos nossos dias, sempre com os mesmos actores, é um fanatismo que em nada ajuda a humanidade na sua progressão. Não pretendo aqui atacar ou defender nenhuma religião em particular : católicos, judeus, muçulmanos, brâmanes e tantos outros são a meu ver todos culpados dos mesmos crimes e vítimas das mesmas perseguições. Tudo em nome de um Deus que embora seja o mesmo, apenas parece querer a felicidade de alguns...
E por falar e Tolerância, nunca é demais relembrar um sábio texto que Voltaire deixou para a história : "O que é a Tolerância ? É o apanágio da humanidade. Somos todos uma fonte de erros e defeitos; perdoemo-nos então reciprocamente as nossas imperfeições, é a primeira lei da natureza. Os guebros, os banianos, os judeus, os mafomistas, os deícolas chins, os brâmanes, os cristãos gregos, os cristãos romanos, os cristãos protestantes e os cristãos quakers dirigem todos pacificamente os seus negócios nas bolsas de Amsterdão, de Londres, de Surata ou de Bassorá : nenhum deles discute de punhal na mão tentando converter aqueles que pensam de forma diferente. Porque motivo pois, esganamo-nos sem interrupção desde o primeiro concílio de Niceia ? (...) Os romanos permitiam todos os cultos, até o dos judeus, até o dos egípcios, pelos quais tinham tanto desprezo. Porque tolerava Roma esses cultos ? Porque nem os egípcios nem mesmo os judeus procuravam exterminar a antiga religião do império, não perdendo tempo em revolver terras e mares para angariar prosélitos : o que queriam era ganhar dinheiro. É porém incontestável que os cristãos desejavam que a sua religião fosse a religião dominante. Os judeus não queriam que a estátua de Júpiter estivesse em Jerusalém mas toleravam-na; os cristãos não admitiam que estivesse no Capitólio sequer. São Tomás de Aquíno tem a boa fé de convir em que, se os cristãos não destronavam os imperadores, é porque não podiam faze-lo. Mas para eles, cristãos, toda a terra devia ser cristã. Eram portanto inimigos de toda a terra, até que esta se convertesse. (...) O povo judeu era, reconheço, um povo bastante bárbaro. Degolavam sem piedade todos os habitantes de um desgraçado e pequeno país sobre o qual não tinham mais direito do que sobre Paris e Londres. (...) Os judeus adoravam o seu Deus; mas nunca se admiraram ao ver que cada povo tinha o seu. Achavam muito natural que Chamos concedesse um território aos moabitas, desde que o Deus destes também lhes concedesse um. Jacó não hesitou em casar com as filhas de um profano. Labão tinha o seu Deus assim como Jacó tinha o seu. Eis belos exemplos de tolerância entre o povo mais intolerante e cruel de toda a antiguidade : nós tentamos imitá-los nas suas guerras sangrentas, mas esquecemo-nos de os imitar na sua indulgência. É claro que todo indivíduo que persegue um homem, seu irmão, porque não é da sua mesma opinião, é um monstro. Isto está fora de dúvidas. Mas o governo, mas os magistrados, mas os príncipes, como deverão eles proceder para com indivíduos que têm um culto diferente do seu ? (...) Insensatos Vós, que jamais soubestes render um culto puro ao Deus que vos criou ! Desgraçados aqueles a quem o exemplo dos noaquidas, dos letrados chineses, dos parsis e de todos os sábios jamais pode beneficiar ! Monstros aqueles que necessitam de superstições ! Já vos foi dito, e não temos feito outra coisa senão dizer-vos : se tiverdes duas religiões elas se trucidarão. Se tiverdes trinta viverão em paz. Olhem para o Grão Turco : governa guebros, banianos, cristãos gregos, nestorianos e romanos. O primeiro que experimentar provocar um tumulto é castigado mas todos convivem numa santíssima paz."

26.4.06

CRAVO CRAVADO !

Gostei de ver ontem o Presidente da República a discursar no Parlamento sem o tradicional cravo. Penso que deve ter sido a primeira vez que tal sucede desde o 25 de Abril. Lá por isso o discurso não deixou de ter uma forte componente social, ou pelo menos uma clara preocupação pelos problemas sociais do país.
Os tempos mudam. Ó se mudam ! E Cavaco veio ontem mostrar a todos que não são cravos que trazem ideias, talvez mesmo sejam as ideias que trazem cravos...

18.4.06

DA CRUELDADE HUMANA

"A crueldade entre homens, indivíduos, sexos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. Torturam-se homens, torturam-se mentes. Até mesmo no subsolo das sociedades civilizadas se torturam animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença."
Edgar Morin, in "Os Meus Demónios"

11.4.06

OVOS DO ANTIGAMENTE

Os ovos de Páscoa encomendados pelo Czar a Fabergé (a mais importante empresa joalheira da Rússia) em finais do século XIX - início do século XX, ficaram famosos no mundo inteiro.
Alexandre III iniciou a tradição em 1885. Cada ano encomendava um ovo ao joalheiro da corte, Peter Carl Fabergé, como presente para a sua esposa, a Imperatriz Marie Feodorovna. Após a morte de Alexandre, o seu filho Nicolau II (último Czar da Rússia) continuou a tradição, encomendando dois ovos à empresa. Na Páscoa, o próprio Fabergé entregava um ovo à Imperatriz-mãe Marie Feodorovna, enquanto um assistente entregava o segundo a Alexandra Feodorovna, esposa de Nicolau II.
Ao todo, 56 obras primas foram produzidas entre 1885 e 1917, embora somente 10 delas tenham permanecido na Rússia. Cada ovo de Páscoa era trabalhado pelos mestres da empresa de Fabergé ao longo de quase um ano. Desenhistas, ourives e especialistas em prata, joalheiros, cortadores de pedras, esmaltadores e escultores tomavam parte na sua preparação, desde os croquis iniciais até os retoques finais. A última palavra, contudo, era sempre de Fabergé, "um grande génio cuja arte é incomparável" segundo a própria Marie Feodorovna. O tema e a forma de cada ovo de Páscoa imperial eram únicos. Alguns celebravam assuntos da família, outros honravam eventos notáveis na vida do Estado Russo e da família imperial.
Assim viviam os Reis de outros tempos...

3.4.06

DO TEMPO QUE PASSA...


"A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado, é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê ? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar ; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade ; todo ele se precipita no mesmo abismo. De resto, não é possível delimitar grandes intervalos nesta nossa vida tão breve. A existência humana é um ponto, é menos que um ponto. Só por troça é que a natureza deu a tão diminuta existência a aparência de uma grande duração, dividindo-a em infância, em adolescência, em juventude, em período de transição da juventude à velhice, finalmente em velhice. Tantos períodos num tão exíguo espaço de tempo !
Habitualmente não me parecia tão veloz a passagem do tempo; agora, porém, parece-me incrivelmente rápida, talvez porque sinto aproximar-se o fim, talvez porque passei a dar-lhe atenção e a avaliar o desgaste que em mim provoca. Por isso mesmo fico indignado ao ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo despendida com a maior parcimónia, não seria bastante para as coisas essenciais...
Séneca, in “Cartas a Lucílio

29.3.06

AS IRONIAS DA LIBERDADE

Li há dias um artigo deveras interessante que evocava a estranha relação entre os Estados Unidos e os Direitos do Homem. Numa altura em que recaem sobre este país graves acusações relativas ás inúmeras violações perpetradas contra a liberdade de todos e de cada um - Guantanamo, Afeganistão, Iraque, raptos na Europa, deportação de prisioneiros em voos clandestinos para serem torturados em países terceiros (...) - é importante esclarecermos para que não restem dúvidas, que os Estados Unidos são o país da Liberdade, dos Direitos do Homem, e da Democracia. Quem afirmar o contrário apenas pode estar enganado ou mal informado.
Senão vejamos. No seio da ONU, os EUA rejeitaram e continuam a rejeitar o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais; dois Protocolos do Pacto sobre os Direitos Civis e Políticos; a Convenção contra o Apartheid; a Convenção Contra a Não Prescrição dos Crimes de Guerra e Contra a Humanidade; a Convenção Relativa à Eliminação de todas as formas de Discriminação Contra as Mulheres; a Convenção relativa à Supressão do Tráfego de Pessoas e Exploração da Prostituição; a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados; a Convenção sobre os Direitos dos Trabalhadores Emigrados e suas Famílias; a Convenção de Ottawa de 1997 sobre as Minas Anti-pessoais; a Convenção sobre Os Direitos da Criança; o Tribunal Penal Internacional, entre outros exemplos de franca promoção dos Direitos do Homem.
E ainda há quem diga mal dos Estados Unidos... Querem melhor exemplo ?

21.3.06

A PRIMAVERA DOS MENTIROSOS

Gosto da Primavera florida e do canto dos pássaros que voam sob o céu azul. Gosto da luminosa Primavera dos primeiros raios de Sol, da verde cor dos jardins da minha cidade com os seus namorados apaixonados, perdidos num Amor que em breve será Verão. Gosto da Primavera da Árvore, da Poesia e do Combate à Discriminação Racial.
Gosto da Primavera que tu leitor acaricias com o teu olhar, e estou certo de que ambos repugnamos aquela outra cinzenta Primavera, mórbida como o mais feroz dos Invernos. Aquela fria Primavera das paixões glaciares que dominam o coração de alguns homens sem virtude.
Existe infelizmente por aí outra Primavera para além da perfumada Primavera dos jardins em flor. Uma Primavera de mentirosos. Uma Primavera de hipócritas. Uma Primavera de governantes, que nos enchem com falsas esperanças enquanto preenchem o vazio dos seus egos com um orgulho que um dia os destronará. Em tempos foi Primavera em Praga, hoje é a Primavera de Durão.
Numa entrevista a vários órgãos de comunicação social franceses, a propósito dos três anos da intervenção militar, Durão Barroso disse que, quando tomou a decisão, em 2003, se baseou em documentos que "atestavam a presença de armas de destruição em massa no Iraque mas que essas informações não foram devidamente confirmadas". Durão Barroso disse também que acolheu a Cimeira das Lajes, nos Açores, quatro dias antes da intervenção, com o objectivo de "unir a Europa sobre o assunto". Na reunião na base militar dos Açores, a 16 de Março de 2003, estiveram o Presidente dos Estados Unidos e os primeiros-ministros do Reino Unido e da Espanha. Durão Barroso lembrou ainda que o assunto era muito difícil, "a Europa estava dividida e eu prefiro dizer que, agora, estamos unidos, tentando fazer o nosso melhor para estabilizar tanto quanto possível o Iraque e a região". O antigo primeiro-ministro acrescentou que "a História fará o balanço da decisão".
Façamos pois o balanço. As contas são fáceis de fazer. Decisão rima com Durão, que rima com Comissão, que por sua vez rima com ambição, que rima com perdão, que não rima com Cherne. Dificilmente estou a ver a história perdoar um homem que mentiu conscientemente a todo um país para justificar uma guerra, fugiu deliberadamente desse mesmo país para entrar numa Comissão, e optou por outro país para "reconhecer" em público que se enganou. Ora enganar, embora não rime com mentir, rima com aldrabar. E agora digam-me : Durão foi aldrabado ou aldrabou-nos a todos muito bem ?

19.3.06

PATER DIES

"...os pais de família, esses grandes aventureiros do mundo moderno." (Charles Péguy)

16.3.06

O ENDURECER DA BONDADE

Porque nos custa tanto sermos bons sendo a bondade um gesto gratuito ? Porque nos custa tanto sermos bons quando à nossa volta tantos sofrem, vítimas de um derradeiro e cruel destino no qual podemos por vezes interferir ? Tudo tem um preço é verdade. Mas expliquem-me qual o preço de um sorriso destinado a quem nada pede, a não ser um segundo de atenção... É tempo pois de endurecermos "a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos : também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra." (Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer")
É que pequenos gestos não fazem só de nós grandes homens. Fazem também de nós homens bons.

9.3.06

O DIA DO JURAMENTO

"Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa". (Art.º 127 al.3 da Constituição da República)
Boa sorte Sr. Presidente !

8.3.06

O DIA DA MULHER

Pediu-me uma amiga que publicasse aqui este post sobre "o dia da mulher que larga o discurso de vítima e se compromete com a missão de gerar mudança no mundo". Por Sofia Passos de Carvalho :
Hoje é o dia internacional da mulher, e lá vamos ouvir relembrar de toda a violência, toda a diferença, toda a injustiça que o mundo ainda tem para tantas mulheres à volta do mundo. Essa consciência é muito necessária. Temos de nos escandalizar com o inaceitável. Temos de bater na nossa vista com a imagem do inaceitável para percebermos o que é exigível.
Porém, nestes dias, existe uma componente de complacência que precisamos de diagnosticar também. As lentes do mundo estão muito ajustadas à visão da desgraça e pouco à visão de respostas e soluções. Hoje, posso como mulher ficar empática com tantas mulheres que sofrem de exasperos inimagináveis para mim, posso reafirmar a minha solidariedade mas posso muito mais do que isso. Um dia especial que nos concentra num aspecto da nossa vida, deve também servir para nos aliciar à noção de tudo o que podemos fazer por nós e pelo mundo em que vivemos. Se as mulheres sentem que o poder está na mão dos homens, pois que ao menos façam uso do poder que têm para fazerem a diferença.
Se todas as mulheres que podem apadrinhassem hoje uma criança carenciada no mundo (para que possa ter medicamentos, alimentação e educação), era um número esmagador de crianças que iam ter finalmente a sua estrela acesa. Se todas as mulheres fossem hoje fazer um exame à mama, eram muitos milhares de mortes por cancro da mama que se poupavam. Se todas as mulheres saudáveis dessem hoje sangue, fizessem um curso de socorrismo gratuito na cruz vermelha. Se hoje existissem mais 10% de mulheres inscritas em movimentos activistas coerentes e responsáveis nas cidades de todo o mundo... Se todas as mulheres se comprometessem hoje com a missão de criar mudança no mundo em vez de se sentirem humilhadas por ele, iniciávamos finalmente um ciclo de dignidade, respeito e justiça sem precedentes, porque ao menos as mulheres começavam a fazer justiça a elas próprias.
Penso que grande parte da diferença entre homens e mulheres hoje vem do facto de queremos ser iguais, subir pelas mesmas formas, aceitar os mesmos preços pelas mesmas escolhas para ter o mesmo poder. No dia da mulher, gostava de sentir uma consciência colectiva de que isso nunca vai funcionar porque somos diferentes, temos poderes diferentes, prioridades diferentes e métodos diferentes de fazer tudo. Estamos a ignorar metade das nossas melhores coisas a troco de uma competição que em última análise nos torna em urbes de andróginos lutadores.
Uma mulher tem um sentido muito apurado de paz, de cuidado, de atenção, de missão, de sacrifício pelo outro, de afecto. As famílias vão sendo cada vez mais pequenas porque, como mulheres precisávamos de abraçar a humanidade como a nossa grande família, onde as crianças precisam de apoio, onde os soldados do mundo são filhos de boas mães, onde a guerra é fruto da estupidez imparável da máquina, porque a máquina trabalha caótica com 50% do potencial humano activo – o masculino. Há fome e excesso de comida, há violência à frente dos nossos olhos para podermos ver.
O poder masculino está sozinho, falta o poder feminino e não culpemos sempre os homens porque nós abdicámos do nosso verdadeiro poder: o da fraternidade, o da massa feminina cuidadosa, voluntariosa, generosa, altruísta, atenta a um mundo de gente carente por quem podíamos fazer tanto hoje, já hoje. Do Natal e dos dias importantes do ano, dizemos que deviam ser todos os dias. Quero dizer isso do dia mundial da mulher, hoje.
Só para começar… Com dignidade para todos.

1.3.06

O AMOR SEGUNDO VERGÍLIO F.

Vergílio Ferreira morreu a 1 de Março de 1996. Deixou obras como a "Aparição", "Manhã Submersa", "Em Nome da Terra" e um prémio literário destinado desde há nove anos a galardoar as áreas do ensaio e da ficção.

"Vou-te amar intensamente como nunca. Amei-te com avidez precipitação impreparação juvenil. Havia uma distância enorme de permeio e eu tinha de a preencher. Amei-te depois com luxúria como se diz no catecismo. E amei-te como cumprimento de um horário semanal. Com raiva humilhação quando andaste, eu nem sei se andaste lá com o teu colega patarata. E porque é que não sei ? Minha querida. Tinhas um grande orgulho ou vaidade no teu corpo, e desde a história do Bem sei lá o que tu querias. Seduzir, dares aos outros a possibilidade de partilharem do maravilhoso de ti e acirrares-me domesticares-me obrigares-me a ajoelhar. Silêncio - e já falei tanto. Vou pôr na rua da lembrança tudo o que não for a tua nudez, a amargura vexame sofrimento. Mesmo as alegrias que não são para aqui. Mesmo os filhos que também não - a vida inteira passou. Preciso tanto de te amar - e como te vou amar ? Não sei. Vou-te amar no infinito da tua perfeição. Eu te baptizo em nome da Terra da tua beleza no instante em que Deus a imaginou."

Vergílio Ferreira in "Em Nome da Terra"

27.2.06

ETERNA GRATIDÃO

"O fim da guerra é a paz ou a vitória, mas é impossível sabermos o que poderá ser o fim da paz. A paz é um absoluto, não obstante o facto de que os períodos de guerra, durante a história, tenham sido sempre mais duradouros do que os períodos de paz" (Hannah Arendt in "Crisis of the Republic"). Pequeno excerto de um livro que reli há dias.
É terrivelmente assustador pensar nisto. Demasiadamente perturbador. E por mais violento que se encontre o nosso planeta, quando todos os dias leio as notícias sobre este mundo em que vivo, agradeço não sei bem a quem ter nascido em terras de paz, terras de boa gente.
É que eu poderia ter nascido noutras paragens : no Sudão, na Somália, na Bósnia, no Afeganistão ou até mesmo no Iraque onde qualquer dia, em vez de contarmos quantos morreram, talvez seja melhor contarmos quantos restam...

22.2.06

O GRANDE JOGO

Somos gente aos milhares, de países inteiros, e cá andamos nas nossas vidinhas cheias das nossas pequenas grandes coisas às quais nos vamos rendendo sem nunca nos rendermos verdadeiramente, porque o tempo passa e nós cá vamos, multidões de tarefas, caminhos, responsabilidades, distracções, amores e desamores, fora as dores de costas e os suplementos alimentares…
Olhamos pela janela a qualquer hora da noite e do dia e lá andam todos, nos carros, nos passeios, nas suas casas, luzes nas janelinhas, quadradinhos em vários tons do amarelo ao branco fora as que têm as luzes por momentos apagadas. Aos milhares num bulício surdo, em diálogos internos que quase ouvimos, desassossegados por serem tantos.
Então lá chegam os santos dias, os dias em que somos todos um, os dias de jogo.
E dizem na televisão disto e daquilo, temos medo de morrer, temos medo de viver, violências de toda a ordem, de toda a sorte de escândalo como a nossa boca sussurrando no mundo inteiro que temos medo do colapso e que se multiplicam de forma exponencial as nossas formas de medo, a cada nova possibilidade de catástrofe… felizmente amanhã não chove e agora as notícias do desporto !
Da nossa matriz faz parte essa informação, somos um colectivo, coeso, temos força, temos peso como tal. Vibramos de uma qualquer vibração de poder de grupo. A humanidade avança e existe um uníssono que pressentimos sem conceptualizar.
Por isso nesses abençoados momentos, lá nos juntamos muitos milhares, no estádio, em frente à televisão, como antes de orelha no rádio. Vibramos, “somos fortes porque somos um”, como diziam os outros.
Faz parte de uma dessas nossas dimensões de vida, a noção de comunidade, de que somos um organismo de gente. Precisamos dessa emoção porque ela nos constitui e só a vivemos assim, em grupos de muitos vibrando por uma causa maior, uma causa que ultrapassa a escala de Um, a escala da força de um grito comum de muitos milhares; nada no mundo nos devolve uma emoção poderosa como essa porque aquele é um grito poderoso que nos sai de dentro e é ainda assim o de milhares de pessoas, como nós, ali, à nossa vista, emocionando-se também.
Claro que isto não pode ser o princípio e o fim da história da emoção colectiva. Claro que temos de encontrar emoções colectivas mais fundamentadas na verdadeira grandeza de uma humanidade bastante mais nobre e rica de informação do que um esférico entre pés e pernas possantes de jovens milionários correndo, nos quais depositamos todo o nosso potencial de sonho e magnificência…
Um dia vamos ser mais do que isto, vamos sentir a mesma vibração poderosa de muitos milhares vibrando até à loucura por um sonho comum, mas o sonho talvez tome outras formas mais abrangentes, fraternais e humanas do que um, permitam-me o simplismo talvez redutor, do que um simples jogo de bola.
Já temos o dispositivo, já temos a percepção dessa necessidade de vida em colectividade, numa comunidade que saiba que juntos somos poderosos.
Talvez possamos em futuros, próximos como espero, olhar com olhos de ver em volta e decidir porque próximo jogo de vida estamos dispostos a enlouquecer, como numa guerra pacífica de multidões numa emoção em uníssono. Qual vai ser a próxima aposta? A próxima vitória porque estamos dispostos a gritar, a fazer a onda, a pintar as caras como tribos de gente que felizmente ainda não perdeu a força de uma vitalidade ancestral. Porque próxima esfera estaremos dispostos a ser esses que torcem rindo e chorando ao mesmo tempo ?
Eu sei de uma esfera que espera.
Posso dar uma dica : também tem duas cores mas é verde e azul. Dizem que é linda girando.
Chamem-me quando for esse jogo.

17.2.06

A FACE OCULTA DA VINGANÇA

Como foi que disse Oscar Wilde ? "Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silencio neste mundo."
Mas os nossos gestos não carecem de qualquer explicação pois estão à vista de todos. E é precisamente em pequeníssimos gestos que tão frequentemente revelamos o verdadeiro "eu" e desvendamos a essência mesmo da nossa inconfundível personalidade.
Consta das calendas que temos todos dentro de nós um gigante adormecido que aguarda pacientemente, dia após dia, a primeira oportunidade para acordar. Tudo quanto fazemos, tudo quanto acontece à nossa volta é motivo para o despertar de um predador que vigia atentamente a sua presa. Mas o nosso monstro esse, denunciando por vezes a real dimensão do nosso incomensurável ego, prefere sempre colher dois espólios em vez de um. Quando ataca, apanha ele quem queremos atingir, mas apanha-nos ele a nós também ao desvendar a todos a nossa face oculta.
Disto resulta que o caminho que separa o virtuoso do comum dos mortais pouco mais é senão a sua capacidade em manter a fera indolente. Felizmente (ou não) somos todos meros e falíveis comuns mortais, ou mortais com pouco em comum.
Pensem pois nisto : alguns, quando optam por exercer a vingança, libertar uma raiva ou descarregar uma fúria, desejam que a pessoa saiba de onde partiu o golpe. Isso é mais generoso concedo-vos, porque o prazer parece estar não tanto em arremessar o golpe, como em obrigar quem queremos ferir a arrepender-se. Existem no entanto outros cuja seta voa na escuridão. Nunca os queiram cruzar na vida, é tudo quanto vos desejo.
E assim corre o mundo. "À bon entendeur salut", diria a Marquesa de Sévigné...

9.2.06

DIÁLOGO DE SURDOS

- Esta onda de violência em torno das caricaturas de Maomé é monstruosa, dizes-me tu. Pois é. Tal como "é um monstro todo indivíduo que persegue um homem, seu irmão, porque não é da sua mesma opinião."
- Então e a liberdade de expressão ? O que é feito deste meu direito, tão dificilmente conquistado, de exprimir as minhas opiniões ? Por que mares navega aquela minha liberdade de expor o que penso, o que sinto, a forma como vejo os outros e o mundo que me rodeia ?
- Ouve-me amigo, já to foi dito muitas vezes com certeza : a tua liberdade, qualquer que seja, finda onde começa a liberdade dos outros. És livre de pensar aquilo que bem entenderes, mas isso não justifica a ofensa, muito menos a sátira ás crenças de outros. É que liberdade, presupõe responsabilidade...
- As crenças de outros ? Mas que "outros" são estes que agridem os meus congéneres, só porque um de nós, no pleno exercício da sua liberdade de opinião, optou por exprimir a forma como vê a religião "deles" ?
- E que "outros" sois vós, que quisestes proibir um livro que a tantos agradou, só porque pôs em causa o vosso Cristo ? Que "outros" sois vós, que impedistes dez anos atrás, a publicação do póster de um filme sobre Larry Flynt ?
- Não queiras comparar os nossos ataques aos ataques deles amigo ! Enquanto nós, pacificamente, limitamos a nossa contestação a acções de não violência e aos tribunais, os "outros", levados pela fúria, destroem, violentam e matam se assim julgarem necessário.
- Violência física e verbal são duas faces de uma violência que não deixa de o ser, amigo. E por vezes pergunto-me qual a pior das duas. Se a violência "deles", simples instinto humano de defesa e cólera, ou se a "vossa", hipócrita, cínica e velada.
- A religião "deles" é diferente de todas as outras. São pessoas violentas e intolerantes, a quem não se pode dizer nada.
- Tal como a "vossa" é diferente das restantes. E tenho a certeza de que se a Inquisição ainda existisse, "voçês" seriam tão ou mais intolerantes do que eles.
- Mas a Inquisição já não existe. E não queiras comparar uma coisa à outra. Estás a ser demagógico.
- Pois não, não existe. No entanto olha à tua volta. Não vês que a tua religião impõe a quem nela crê e não crê uma moral por vezes injusta, para não dizer descabida ? Tantos são os países onde aborto e eutanásia são práticas proibidas e punidas. Quantas são as sociedades onde a vida sexual deixou de ser vivência de cada um, para passar a ser interesse de todos !
Pondera sobre isto que te vou dizer amigo. Não digo que "eles" estejam certos e "voçês" errados, muito menos que "voçês" estão certos e "eles" errados. A virtude está no meio. Temos de aprender a conviver com as nossas diferenças ou nunca seremos. Recorda agora aquilo que outros há muito pensaram por ti : "somos todos uma fonte de erros e defeitos ; perdoemo-nos então reciprocamente as nossas imperfeições, é a primeira lei da natureza". Valem estas palavras para os "teus" como para os "outros". Respeita as suas crenças, não os ofendas, não lhes dês motivos para serem violentos, mesmo que para isso tenhas de prescindir de uma infíma parte da tua liberdade. Tem em mente que esses "outros" não pensam como tu. Talvez as tuas caricaturas sejam para "eles" tão violentas como são para ti violentas as agressões "deles". Não lhes dês motivos para te detestarem pois "eles", se os deixares em paz, talvez te deixem em paz também...
Tolerem-se !

1.2.06

AMIZADES ETERNAS

"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieta por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam : aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Não te enganes pois sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos."
Marguerite Yourcenar in "Sistina"

26.1.06

MANIPULAÇÃO ?

Falava eu no meu último post (em véspera de eleições) na "manipulação" e nos "mesquinhos e elaborados jogos partidários". É pois interessante ler este artigo publicado hoje no Expresso Online, até porque vai dar que falar :
"Fax circula na net e a sua origem está a ser investigada. Sócrates pode ter pedido manipulação de votos : José Sócrates poderá ter manipulado o voto de apoiantes de Soares para não haver uma segunda volta nas eleições presidenciais. A informação, retirada de um fax com o símbolo da Presidência do Conselho de Ministros, está a circular na Internet e já está a ser investigada pela Procuradoria-Geral da República. De acordo com o conteúdo do fax, o primeiro-ministro sabia previamente, através de uma sondagem, que Mário Soares ficaria atrás de Alegre nos resultados das presidenciais. Para não ter de apoiar o poeta numa segunda volta, o que «seria um cenário desastroso para o governo», Sócrates pediu «ao núcleo de apoiantes de Soares» que tentassem «influenciar as pessoas mais próximas» para que votassem «em branco ou mesmo no Cavaco». Só assim seria assegurado que não haveria «uma segunda volta» e que o governo não sairia «fragilizado desta eleição». O Governo já solicitou à Procuradoria-Geral da República que analise o conteúdo e a proveniência do fax."
Só falta acusarem-me de estar eu na origem do fax...

21.1.06

O VOTO CONDICIONADO

Amanhã votamos. E nem vale a pena escrever este post amanhã porque já sabemos de antemão quem irá ganhar, e mesmo que não soubéssemos, tudo está feito para que amanhã o venhamos a saber.

Pessoalmente o resultado das eleições de amanhã não me desagrada. Sou “cavaquista” ferrenho desde os tempos da minha adolescência, militante do Partido Social Democrata desde os 16 anos, e com todos os seus defeitos – porque nada nem ninguém é perfeito – o PSD é o partido com o qual mais me identifico no triste panorama político nacional. Votarei Cavaco amanhã não só por ser o candidato do meu partido, mas sobretudo por pensar que ele é a pessoa que melhor poderá ajudar o governo a resolver os complexos problemas do nosso país.

Passo pois à questão que aqui gostaria de levantar, a meio caminho entre o campo da ciência política e da sociologia política, e sobre a qual tenho vindo a reflectir durante de há uns tempos para cá: o condicionamento do voto no sistema democrático. Não tenhamos dúvidas que esse condicionamento é real, que não só é real como também é legal, mas que é sobretudo bastante perverso...

Real porque existe. É um facto que não podemos negar e faz parte da essência mesmo do “jogo democrático”. Os candidatos e os partidos/forças que os apoiam, tentam condicionar (influenciar) a decisão final dos eleitores, tentando atrair o maior número possível de votos de modo a obter uma vitória eleitoral, ou até mesmo política (perder nem sempre é uma derrota e penso seriamente que Manuel Alegre terá muito que festejar amanhã). Servem para isso as campanhas eleitorais e todo o “combate político” que lhes é inerente : debate de ideias, propaganda e marketing políticos, entrevistas, comícios, mobilização dos militantes etc...

Legal pois trata-se de um condicionamento regulamentado pela Lei. Existe uma legislação que organiza o acto eleitoral e toda a campanha que se lhe antecede. Prazos, duração da campanha, formas de publicitação, financiamentos e tudo quanto está ligado ao processo eleitoral. Afinal de contas vivemos numa democracia onde temos o direito de votar e é normal que exista uma legislação que defina o funcionamento das eleições.

Perverso porque pese embora o facto de todo o processo estar regulamentado, existem diferentes graus de manipulação do eleitorado – volto a frisar legais – mas nem todos com o mesmo grau de evidência. Senão vejamos :
- a propaganda política directa (acções de rua, outdoors, mailings) constitui o nível mais básico de manipulação das nossas mentes, ou não seriamos nós diariamente confrontados com as fotografias dos candidatos, as cores e os logotipos dos partidos. É portanto uma manipulação real, legal e pouco perversa (embora não deixe de o ser porque toda e qualquer forma de publicidade é perversa quanto aos fins pois tenta condicionar-nos). Mas tratando-se do “jogo democrático” é uma perversidade tolerada e comummente aceite, pois todos temos o direito de exprimir as nossas ideias e tentar conquistar o voto do eleitorado;
- o debate e o confronto de ideias é um caso mais subtil. Os candidatos não só expõem as suas ideias mas como ao faze-lo, têm um discurso claramente manipulador. Tentam controlar o eleitorado com as suas palavras, lançam falsas informações, criam novos medos, apresentam soluções que vão ao encontro daquilo que os eleitores querem ouvir. E como queremos ouvir cada vez mais coisas, talvez seja por isso mesmo que os candidatos falam cada vez menos, para irem ao encontro do maior número de pessoas decepcionando o menor número delas. Trata-se aqui de uma manipulação que é mais uma vez real, legal e perversa pois condiciona-nos de forma indirecta, ora nem todos se apercebem da verdadeira dimensão das palavras proferidas pelos nossos políticos;
- as estratégias políticas, são quanto a elas uma forma de manipulação bastante mais complexa pois são desconhecidas do público em geral, o que as torna um elemento mais perverso do que os anteriores. Os mesquinhos e elaborados “jogos partidários”, as estratégias de aliança e conquista do poder põem os eleitores perante factos pré-consumados, sem que eles disso se apercebam, levando-os por vezes a votar em determinado candidato ou cor política. Passo a explicar : suponhamos um determinado panorama político em que um partido A domine as intenções de voto. O partido B, seu principal opositor, decide então apresentar vários candidatos. Criam-se falsas divisões, pede-se a uns que digam as verdades cruas e duras, a outros que apareçam como candidatos alternativos, e aos restantes que se identifiquem com certas causas. O partido A poderá ficar feliz ao ver o seu principal adversário dividido, até porque nada há como dividir para reinar. Mas sucede que nos tempos que correm existe um fortíssimo desgaste da classe política. Sucede também que as pessoas perderam a confiança naqueles que os governam e que toda e qualquer renovação é bem-vinda. Ao aparecer desunido mas com candidatos alternativos, o partido B poderá conseguir retirar votos ao partido A até porque os candidatos ditos alternativos, embora da cor de B, apresentar-se-ão como suprapartidários, eventualmente independentes. As chances de A obter uma maioria são automaticamente reduzidas e B poderá ver um dos seus candidatos passar a uma segunda volta... Tratam-se de estratégias elaboradas e perversas, mas na política tudo vale e é inútil dar aqui nomes pois já se percebeu onde quero chegar. Penso que amanhã Manuel Alegre irá ser uma surpresa muito grande, penso também que irá contradizer as sondagens, mas continuo confiante na vitória de Cavaco Silva;
- o jogo das sondagens é quanto a mim a forma de manipulação mais subtil e perversa de todas. As sondagens estão regulamentadas por Lei e são uma “ciência” bastante séria que tem demonstrado alguma fiabilidade, contrariamente ao que muitos políticos nos fazem crer. Considero haver aqui uma manipulação a que chamarei de “involuntária” e “subconsciente” na medida em que não é uma arma de guerra dos partidos, mesmo se eles se servem delas. Porquê então involuntária ? As sondagens existem. E ao existir põem-nos perante dados concretos que supostamente reflectem a vontade dos eleitores. No entanto imaginemos que não existissem. Imaginemos que andássemos todos “ás escuras” desde o verão passado, que Cavaco Silva não tivesse sido apresentado pelas sondagens como o “vencedor à primeira volta” antes mesmo de se ter candidatado. Imaginemos que as campanhas fossem feitas sem que os candidatos mas sobretudo os cidadãos conhecessem o feedback das acções em curso. Será que isso de certa forma poderia alterar os resultados ? Muito sinceramente penso que sim. O ser humano é na maioria dos casos fraco de espírito, não gosta de perder, é indeciso e facilmente influenciável. Desde que não o assustem com uma possível vitória de algum candidato extremista que lhe fosse retirar as suas liberdades dificilmente conquistadas, ele facilmente seguirá e aceitará como “facto-quase-consumado” a vitória do candidato ditado pelas sondagens. Ora tudo isto, mesmo que os números não sejam falsificados, mesmo que não se trate de uma estratégia ilegal de conquista do poder, é muito perverso mesmo pois atinge os nossos subconscientes, o que inconscientemente afecta as nossas consciências logo a nossa escolha final nas urnas. Iremos nós então pré-condicionados colocar a cruz no boletim de voto ? É o velho debate da liberdade, não a liberdade política, mas sim o da "liberdade de consciência" ou "livre arbítrio". Deixemos esse debate para os filósofos.

Desde já ficam aqui os meus parabéns ao Pfr. Cavaco Silva pela vitória que irá alcançar amanhã. Será o meu Presidente da República, nele irei votar e tenho toda a confiança de que ele irá dar o seu melhor durante os próximos cinco anos. Mas que fomos todos um pouco manipulados, nem que seja de forma involuntária devido aos defeitos intrínsecos do próprio sistema democrático, lá isso fomos...

14.1.06

A QUIMERA DA FELICIDADE

"Do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espectáculo, acerbo e curioso espectáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim - flagelos e delícias - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, húmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura - nada menos que a quimera da felicidade - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão..."
Machado de Assis in "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

8.1.06

AS DUAS FACES DA BELEZA

A quem de direito. Porque o belo não é só aquilo que se vê, é também tudo aquilo não se vê...
(1) Julgar pelas aparências :
"A beleza é uma forma de génio, diria mesmo que é mais sublime do que o génio por não precisar de qualquer explicação. É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol ou a Primavera, ou o reflexo nas águas escuras dessa concha de prata a que chamamos lua. É inquestionável. Tem um direito de soberania divino. Eleva os seus possuidores à categoria de príncipes. Estás a sorrir ? Ah, quando a tiveres perdido com certeza que não hás de sorrir... Por vezes as pessoas dizem que a beleza é apenas superficial, e pode bem ser. Mas pelo menos não é tão superficial como o pensamento. Para mim, a beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas frívolas é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível..." (Oscar Wilde in "O retrato de Dorian Gray")
(2) A maior beleza é a que não se vê :
"- Hoje, durante o meu passeio matinal, vi uma linda mulher... Meu Deus, que linda que ela era !
- A sério, Sr. Spinell ? Descreva-ma então.
- Não... Não posso ! Dar-lhe-ia uma imagem imperfeita dela. Ao passar, mal a vi. Na verdade, nem sequer a vi. Apercebi-me, porém, da sua sombra esfumada, e isso bastou para me excitar a imaginação e guardar dela uma imagem de beleza. Meu Deus, que linda imagem !
A mulher do sr. Klöterjahn sorriu.
- É essa a sua maneira de olhar para as mulheres bonitas, Sr. Spinell ?
- Nem sequer reparei se era bonita Sra. Klöterjahn, mas reparei que era bela. Falo claro, de outra beleza. Aquela que é invisível para os olhos. E isso é muito melhor do que olhá-las fixamente na cara, com uma grosseira avidez da realidade, para no fim ficarmos com uma impressão falsa..." (Thomas Mann in "Tristão")

2.1.06

2006 !

E agora ?
Sobre o que aí vem pouco ou nada podemos dizer. Mas podemos reflectir sobre estas sábias palavras de Gandhi : "o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente".
A todos um bom 2006.

29.12.05

365 DIAS DE UMA HISTÓRIA DA HISTÓRIA

Invariavelmente e não menos tradicionalmente, durante a última quinzena de Dezembro, a comunicação social relembra a todos aqueles que esqueceram, não se querem lembrar ou pura e simplesmente ignoram, a lista dos principais acontecimentos e nomes do ano. Apresentação compacta como que um parto, redigida sob o desígnio de “suplementos especiais” que de especial apenas têm o nome e pouco mais, tal como o champanhe e as suas malditas passas aliás.
Assim se escreve a história e assim a história se escreve, até porque se não fosse escrita esta seria senão pré-história, e por mais pré-históricas e violentas que se encontrem as mentes que nos governam, todas estas Histórias, a história não deixam de ser.
Como se escreve a história, quem escreve a história e qual história ? É que por detrás da história escondem-se muitas e muitas Histórias e como diz a história, histórias muitas há. A gloriosa História dos vencedores, a esquecida História dos vencidos, a vencida História dos esquecidos, a maravilhosa História do Amor, a derradeira História do Homem, a constrangedora História da fome, a História de cada um e a história de todos nós. A história da História, a História das histórias, as histórias da História e claro, aquela que me parece ser a mais importante de todas, a história dos homens, não qualquer uma mas a sua verdadeira e não mentirosa história. Aquela que nunca conheceremos porque não podemos, mas também porque não queremos, ou pelo menos dizem-nos noutra História que não devemos e nunca mas nunca deveremos.
Passam as horas. Correm os meses. Esgotam-se os dias. Paro no tempo. Olho em redor da história e para as Histórias em meu redor. Recordo o passado dos eventos e os eventos passados. A minha História não é a mesma do que a tua, nem a tua a mesma do que a dela. Mas a nossa história essa é a mesma. Não a minha, não a tua, não a dela nem sequer a nossa, mas sim a história de todos nós.
Quem quer que escreva a história e seja lá como for que o “quem quer” a escreva, divirto-me a ler, aqui e ali, acolá e sempre para lá, nos meus devaneios perdidos do final de Ano, o conjunto destas “edições especiais”, compactas, em lata mas “sem lata”, eventos como que sardinhas alinhados, Histórias que juntas farão a história, sim a história, não qualquer História, não a tua, não a minha, mas a nossa e já percebeste que a nossa não é nossa mas sim de todos nós, ou não seria ela a história.
Tal uma folha castanha de outono no seu cinzento ramo da história, diz-me a minha História que da verdadeira história pouco restará. Tremo ao ler aquilo que os meus distintos contemporâneos inscreveram nas linhas curvas da história. Abre-se-me a boca e dos meus olhos caem lágrimas que fazem parte de outra História, mas que da história nunca farão parte. Porque na história lágrimas rimam com suor e sangue, com quintas e com cidades, ou não seria a história um compêndio de “sangue, de suor e de lágrimas”, uma eterna e constante “Quinta das Lágrimas” onde reina a Paixão de Pedro por Inês, o Amor de Inês por Pedro, aquela Coisa que existiu entre os dois e que existe em todos nós mas não entre ti e mim, porque essa Coisa, coisa nenhuma seria, muito menos Amor sequer Paixão. E a Paixão não faz a história mesmo se uns ficaram na história por causa de alguma perigosa Paixão.
Quem diz história diz nós e não apenas alguns, quem diz história diz grandes homens e homens grandes, duas espécies entre as quais muitas diferenças há : apenas alguns ficarão na história mas todos ficaram nesta História, todos têm as suas Histórias mesmo se em conjunto fazem parte da história, uns são grandes e outros grandes são. A história não são só pequenos e grandes homens mas sim todos nós, especialmente esses “Zé Ninguém” cuja História nunca ficará inscrita na história, ou não seria a história uma História que como todas as Histórias é escrita pelo punho do mais falível e parcial personagem que me foi dado a conhecer até hoje : o homem. Talvez seja por isso que a história é História e qualquer dia passará à história.
A todos um bom 2006. E por falar em homens grandes e grandes homens, recorro mais uma vez a alguém que sem o querer ter sido é, que o foi e sempre será, até que um qualquer alguém da história queira que o deixe de ser. Falo de Voltaire claro. Pequena meditação, intensa respiração sem tensão mas com intenção e muitos votos de um bom "réveillon".
Daqueles que comandaram batalhões e esquadrões só resta o nome. O género humano nada tem para mostrar duma centena de batalhas travadas. Mas os grandes homens de que vos falo prepararam puros e perenes prazeres para os homens que ainda hão de nascer. Uma eclusa a ligar dois mares, um quadro de Poussin, uma bela tragédia, uma nova verdade - são coisas mil vezes mais preciosas do que todos os anais da corte ou todos os relatos de campanhas militares. Sabeis que, comigo, os grandes homens são os primeiros e os heróis os últimos. Chamo «grandes homens» a todos aqueles que se distinguiram na criação daquilo que é útil ou agradável. Os saqueadores de províncias esses, são meros heróis.” (Voltaire, in “A Era de Luís XIV”)
Talvez seja bom pensar em tudo isto antes de ler algum especial suplemento ou suplemento sem nada de especial, mas que ficará para história sob o nome de "suplemento especial" não sendo mais do que uma História da história. Fim da História.

24.12.05

O NATAL SEGUNDO JESUS CRISTO

Claro é que, se um Senhor de seu nome Jesus Cristo não tivesse existido há dois mil e cinco anos atrás, toda esta treta do Natal não teria razão de ser. Natal famílias tão falsamente unidas mas tão sorridentemente hipócritas, Natal consumidor e devorador, Natal publicidade, Natal setecentos cartões de boas festas, Natal outros setecentos cartões em Euros ou Euros em cartões, Natal compras sem fim, Natal filas de espera, Natal Bacalhau Perú Foie-Gras, Natal empurrem-se lá todos para eu passar à frente e pagar, Natal presentes inúteis e caros, Natal Missa do Galo que já morreu com a gripe das aves, Natal escandaloso numa ainda mais escandalosa moradia de Cascais onde correm ouro, dinheiro, pratas, Kandinskys e demais Picassos até mesmo na roupa de quem se veste para lá ir, Natal beijinhos, Natal risinhos, Natal boatozinhos, Natal das criancinhas a chorar, Natal das Tias e dos Tios, Natal sem dormir mas cheio de sono, Natal dos países cristãos mas de mais nenhuns, nowhere else, nobody else, Natal da Merda mas é.
Se o Natal não existisse pois também não existiriam todas estas metafísicas discussões. O culpado de tudo isto é Cristo, essa Criança que nasceu a 25 de Dezembro mas cujos anos só começam a contar a 1 de Janeiro, esse Senhor que é fruto não de uma boa noite de sexo e amor mas de uma mulher que acordou grávida por um milagre milagrosamente malogrado, esse Mistério que ressuscitou ao terceiro dia mas não ao segundo, nem ao primeiro, nem tão pouco ao quarto !
E o Natal das 500 crianças que morrem a cada hora em África, vítimas da doença, da pobreza e da guerra ?

15.12.05

3, 2, 11, 0. BOUM !

Eu sei que é segredo e que não se pode contar. Eu sei que nos tomam a todos por parvos e esforçam-se para que o sejamos. Eu sei que adoram manipular a opinião pública e instalar um manto de silêncio sobre tudo o que dói. Bombardeiam "por engano" uma aldeia no Iraque ? Silêncio. A Al Qaeda faz rebentar "por engano" um depósito de gasolina perto de Londres ? Silêncio.
Dia 11 ? Coincidência. Já estou a imaginar o discurso dos assessores do Sr. Blair. "Don't worry Prime Minister. In a few days no one will remember this." Falamos daqui a uns "few days". Podem crer que tudo terá sumido das nossas preocupações. Até porque vem aí o Natal, o Réveillon, o Lisboa-Dakar e muito mais.
Mas uma coisa é certa. Os céus esses, continuam bem negros. Até porque como é bem sabido quem brinca com o fogo queima-se !

7.12.05

CONDY OH CONDY !

Condoleeza Rice, mais conhecida por "Condy" entre os amigos e por "Secretária de Estado dos EUA" nos meios políticos internacionais, está de passagem pela Europa numa vã e ambígua ofensiva diplomática, cujo objectivo é acalmar os ânimos após a descoberta do caso “dos aviões da CIA” e das “prisões secretas” americanas. Por outras palavras, veio à luz uma notícia extremamente perturbadora para a opinião pública e para os dirigentes europeus : o “velho continente” terá ignorado (ou será que fechou os olhos ?) a passagem de aviões da CIA repletos de prisioneiros da “guerra contra o terrorismo” no seu espaço aéreo e aeroportos. Mais grave ainda, existirão supostas “prisões secretas” em território europeu, mais precisamente na Roménia, prisões cujas condições de detenção muito deixam a desejar e onde será cometida a tortura.

A descoberta de tais acontecimentos originou os mais veementes protestos da União Europeia, tanto ao nível da própria instituição como ao nível de muitos dos países que a compõem. Numerosos dirigentes e políticos oriundos dos mais diversos países exigiram explicações ao governo americano e, em certos casos, foram abertos inquéritos para averiguar qual a “transparência” com que foi efectuado o transporte dos ditos “passageiros especiais”. De Durão Barroso em Bruxelas a Diogo Freitas do Amaral em Lisboa, passando por Paris, Londres e Berlim, todos parecem estar estupefactos e indignados, todos exigem em alta voz explicações ao “amigo americano”. Como pôde a CIA utilizar aeroportos europeus para pousar os seus aviões secretos ? Quem deveria ter sido informado e não foi ? Quem pactuou ? Quem foi iludido ? Tantas perguntas mas sobretudo – e mais uma vez – tantas respostas por dar.

Perante tais suspeitas Condoleeza Rice fez questão de salientar em Berlim, junto da recentemente eleita Chanceler Merkel, que “os serviços secretos são a chave absoluta do sucesso na guerra contra o terrorismo”, que “os Estados Unidos não admitem a tortura, prática contrária à lei americana e ás obrigações internacionais dos Estados Unidos” e que os EUA são “um país que respeita a lei”. Nada melhor do que a prática para vermos o quão importantes estes conceitos são para os americanos. Senão vejamos :
- a eficiência dos serviços ditos secretos tem sido absolutamente fenomenal, uma verdadeira chave do sucesso que já permitiu a captura de Bin Laden, evitar a realização de um sinistro plano de atentados que esteve previsto contra a Torres Gémeas de Nova Iorque no dia 11 de Setembro de 2001, para não falar em inúmeros atentados aos quais a Europa milagrosamente escapou, de Londres a Madrid. Grandes serviços secretos !
- relativamente à questão da tortura, por mais irónico e cínico que me apeteça aqui ser, gostaria de perguntar directamente à Sra. Rice o que tem ela para dizer sobre os acontecimentos das prisões no Iraque, bem como sobre tudo quanto aconteceu perante os olhos do Mundo em Guantanamo ?

Não tenho dúvidas de que os EUA são um país que “respeita a lei”. Tanto a lei do Direito Internacional que unilateralizaram de forma radical após o 11 de Setembro (veja-se os acontecimentos no Afeganistão e Iraque), como a lei dos Direitos do Homem que por eles tem sido escrupulosamente respeitada (veja-se o exímio tratamento do prisioneiros de guerra iraquianos). Mais do que um exemplo de “respeito da lei” a América é um modelo de “lei suprema” : a lei do faroeste !

Interessante também é observarmos a “surpresa” e “revolta” dos nossos dirigentes europeus. A esses senhores que nos governam, a esses senhores que, confortavelmente instalados em seus tronos decidem dos nossos destinos, gostaria de lhes perguntar :
- como foi possível para mim (jurista de Direito Internacional), bem como para tantas outras pessoas (entre as quais atentos leitores de uma comunicação social dita “alternativa”), termos conhecimento há mais de um ano das práticas agora “descobertas”, enquanto que V. Ex.as parecem ter acordado para uma realidade absolutamente insuspeita ? Será que V. Ex.as nos governam com os olhos fechados e vendados, cegos a todo e qualquer relatório dos assessores de comunicação e dos serviços de informação ?
- o que respondem V. Ex.as à questão que agora levanto : as “prisões secretas” são ou não são tema de controvérsia desde a Administração Reagan ? Prefiro não pensar nas respostas. E presumo que V. Ex.as também não.

Os dirigentes europeus não me parecem ser pessoas livres e detentoras de uma vasta liberdade de acção. E por falar em liberdade, dedico-lhes este pequeno mas tão instrutivo texto de Jean-Jacques Rousseau. Para que meditem sobre estes infelizes acontecimentos, bem como sobre a liberdade que julgo terem perdido : “nunca acreditei que a liberdade do homem consiste em fazer o que quer, mas sim em nunca fazer o que não quer, e foi essa liberdade que sempre reclamei, que muitas vezes conservei, e me tornou mais escandaloso aos olhos dos meus contemporâneos. Porque eles, activos, inquietos, ambiciosos, detestando a liberdade nos outros e não a querendo para si próprios, desde que por vezes façam a sua vontade, ou melhor, desde que dominem a de outrem, obrigam-se durante toda a sua vida a fazer o que lhes repugna, e não descuram todo e qualquer servilismo que lhes permita dominar.”

2.12.05

O SÁBIO CAMINHO DA VIDA

Porque te escondes amigo ? O que receias ? Porque calculas com tanta mínucia cada um dos teus passos ? Porque frequentas sempre os mesmos locais ? Porque andas tu sempre sob tão discreta protecção ? Porque és ao mesmo tempo um poço de mistérios e aquele sobre quem tudo julgamos saber ? Porque não aceitas o ombro de quem te aceita como és ? Porque não partilhas com quem está disposto a partilhar contigo ? Porque mudaste tanto ? Porque não te reconhecemos ? Porque desapareceste assim de um dia para o outro ?

Mas afinal quem és tu amigo ? Quem se esconde por detrás desse teu sorriso ? Qual o motivo dessa tua obsessão doentia pela discrição ? Nada sabemos sobre ti, mas contigo convivemos diáriamente. Porque não abres a nós - teus amigo(a)s - a porta da tua vida privada ? Qual a razão que te leva a ti, árduo defensor da tolerância, a perseguir implacávelmente aqueles que procuram saber por outros meios quem és ? Porquê, porquê, porquê ? Talvez porque com a sua imensa sabedoria, Séneca escreveu um dia :

"Incita esse teu amigo a animosamente não ligar importância a quem o censura por se acolher à obscuridade da vida privada, por desistir das suas grandezas, por ter preferido a tranquilidade a tudo o mais, apesar de poder ainda avançar na sua carreira. Mostra a essa gente que ele trata diariamente dos próprios interesses da forma mais útil. Aqueles que pela sua posição elevada suscitam a inveja geral nunca vivem em terreno firme : uns são derrubados, outros caem por si. Esse tipo de felicidade nunca conhece a calma, antes se excita sempre a si mesma. Desperta em cada um ideias de vários tipos, move os homens cada qual em sua direcção, lança uns numa vida de excessos, outros numa vida de luxúria, a uns enche-os de orgulho, a outros de moleza, mas a todos igualmente destrói.
Dirás tu : há, todavia, quem aguente bem uma liberdade desse género. Pois há, assim como há quem aguente bem o vinho. Por isso não existe o mínimo fundamento para te deixares persuadir que alguém é feliz pelo facto de viver rodeado de clientes ; os clientes não buscam nele senão o mesmo que buscam num lago : beber até fartar e deixar a água suja ! O vulgo julgá-lo-á um homem sem valor, sem actividade ! Bem, mas tu sabes como há pessoas que usam incorrectamente a linguagem e dizem tudo ao contrário. Anteriormente diziam-no um homem feliz. Pois bem, será que ele era mesmo feliz ? Pode haver quem o julgue um homem de carácter demasiado duro e sombrio, isso não me preocupa minimamente. Diria A. que preferia um jovem taciturno aos jovens risonhos e bem acolhidos na sociedade. Também um vinho que a princípio parece espesso e áspero acaba por tornar-se excelente, enquanto aquele que na pipa nos parece agradável não suporta o envelhecimento."
Se já tudo - ou quase - temos, porquê persistirmos em querermos ter mais ? É que quem nunca caiu, não tem bem a noção do esforço que é preciso para se manter de pé...

30.11.05

O(S) PRÍNCIPE(S) DA RAZÃO

Adoro, idolatro, quase ousaria dizer que amo Voltaire. Como não gostar aliás deste tão nobre e distinto pensador ? Príncipe do espírito e das ideias filosóficas, incansável defensor da Tolerância e do respeito pelos outros, voz da sabedoria e da razão. Poucos escritores, poucos poetas, poucos compositores provocam em mim aquilo a que um dia Émile Zola chamou tão comodamente de "orgasmo intelectual". Ler Voltaire é entrar noutra dimensão, é sentir-se bem consigo próprio e com os outros, mas é também e acima de tudo, abrirmos os olhos e pensarmos que quase três séculos após a sua morte, o seu pensamento continua a ser de uma assustadora actualidade.
Por falar em Voltaire, acabo de ler o segundo livro de José Braga Gonçalves, o "Príncipe Rosa Cruz". Um romance interessante que nos fala da reconstrução de Lisboa pelo Marquês de Pombal, e demais ilustres personagens que marcaram a nossa história : D. José, Eugénio dos Santos, Carlos Mardel, entre outros. Um romance onde, curiosamente - ou não - também se fala de François Marie Arouet, mais conhecido por todos nós pelo nome de Voltaire... Transcrevo para aqui um breve excerto do livro (pp. 227-228) :
"Como a história é cíclica e sempre se repete, Oskar lembrou-se de uma carta do ilustre e tardio maçon, Voltaire, que tanto se inspirara no terramoto de Lisboa para escrever o seu Candide e que, a propósito daquele, falara de fogos e fogueiras e da sua ateadora, a Inquisição.
O seu atormentado raciocínio levava-o a comparar os três cataclismos: Inquisição, terramoto e nazismo. Remexendo o recôndito das estantes, não tardou a encontrar a carta. Assinada por François Marie Arouet, verdadeiro nome de Voltaire, fora escrita logo em 24 de Novembro de 1755 ao Senhor Tronchin, em Lyon, testemunhando com mestria o sentimento europeu face ao recente terramoto e à Inquisição portuguesa, sempre objecto das angústias do Iluminismo. Como se a tivesse lido ontem e o hoje distasse trinta anos, Oskar releu o que lhe importava : «É difícil entender como as leis do movimento operam em tais desastres naquele que é o melhor possível dos mundos onde cem mil dos nossos vizinhos são esmagados num segundo... Regozijo-me que os reverendos padres da Inquisição tenham sido esmagados pelo terramoto, tal como as outras pessoas. Isso devia ensinar os homens a não perseguir outros homens pois, enquanto alguns queimam uns poucos, a Terra abre-se e engole-os todos por igual». Como lhe parecia, a actualidade daquela carta era avassaladora."
Actuais também são as palavras de Braga Gonçalves. Ainda há poucos dias o país "festejou" os 350 anos do terramoto de Lisboa. Hoje o Vaticano publicou um polémico documento condenando a homossexualidade (uma nova forma de Inquisição, versão século XXI). Amanhã, num qualquer lugar do planeta, homens continuarão a perseguir outros homens. E a Tolerância no meio de tudo isto ? Bem, a Tolerância essa esteve, está e estará sempre em Voltaire...

25.11.05

ARTIGO 152º

“1. Quem, tendo ao seu cuidado, à sua guarda, sob a responsabilidade da sua direcção ou educação, ou a trabalhar ao seu serviço, pessoa menor ou particularmente indefesa, em razão de idade, deficiência, doença ou gravidez, e:
a) Lhe infligir maus tratos físicos ou psíquicos ou a tratar cruelmente;
b) A empregar em actividades perigosas, desumanas ou proibidas; ou
c) A sobrecarregar com trabalhos excessivos;
é punido com pena de prisão de 1 a 5 anos, se o facto não for punível pelo artigo 144º.
2. A mesma pena é aplicável a quem infligir ao cônjuge, ou a quem com ele conviver em condições análogas ás dos cônjuges, maus tratos físicos ou psíquicos.
(...)
5. Se dos factos previstos nos números anteriores resultar:
a) Ofensa à integridade física grave, o agente é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos;
b) A morte, o agente é punido com pena de prisão de 3 a 10 anos.
6. Nos casos de maus tratos previstos nos n.ºs 2 e 3 do presente artigo, ao arguido pode ser aplicada a pena acessória de proibição de contacto com a vítima, incluindo a de afastamento da residência desta, pelo período máximo de dois anos.” (Artigo 152º do Código Penal, redacção da Lei n.º 7/2000 de 27/5).

Hoje é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. E é bom que seja. O fenómeno em si é verdadeiramente desolador. Tanto na sua essência (é inútil debatermos aqui - ou onde quer que seja - sobre a moralidade de algo que é imoral), como na sua triste existência... Acabo de chegar de outros mares, e nada melhor do que viajar de avião para ler a comunicação social de outros países:

“Foram alvejadas a pistola ou caçadeira, golpeadas com faca ou machado, mortas à vassourada, à paulada, ao murro ou pontapé. Desde o início do ano, 29 mulheres foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-companheiros, mais quatro por familiares.” (in "Público", 25-11-2005)

“L'Organisation mondiale de la santé (OMS) demande dans un rapport publié jeudi, une action d'urgence, pour prévenir la violence domestique envers les femmes, qui est "très répandue, profondément enracinée" et souvent occultée. L'Organisation mondiale de la santé (OMS) estime urgent d'agir pour prévenir la violence domestique envers les femmes, qui est "très répandue, profondément enracinée" et souvent occultée, dans un rapport publié jeudi, à la veille de la Journée mondiale contre les violences faites aux femmes.” (in "Le Monde", 25-11-2005)

“As queixas de violência doméstica aumentaram 6% este ano, segundo dados da GNR, PSP e Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Registaram-se 16 602 denúncias até 30 de Setembro, o que corresponde a uma média de 1902 por mês, mais 102 do que em 2004. Estudos realizados em Portugal indicam que uma em três mulheres sofre agressões. Mas a maioria das vítimas tem vergonha e medo de revelar os maus tratos.... Mais de 80% das vítimas são mulheres, o que faz com que a campanha portuguesa de sensibilização lançada esta semana se dirija ao sexo feminino. É esta, também, a razão pela qual hoje se comemora o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. As cônjuges ou companheiras são os principais alvos das agressões. Os menores, idosos e os deficientes são as outras vítimas.” (in "Diário de Notícias", 25-11-2005)

A tragédia continua...

“In recent years, the world has been shocked by the Taliban's ruthless suppression of women in Afghanistan, the practice of female genital mutilation in parts of Africa and the abuse of female domestic labor in places like Saudi Arabia. Yet it is the world's largest democracy that is the undeclared winner in the contest of violence against women. In India, female foeticide - the sex-selective abortion of girls - has led to an alarming "gender gap" in the country's population. In 1990, when the census showed that there were 25 million more males than females in India, the government reacted by introducing a law making it illegal to detect the sex of a foetus through ultrasound examination. Yet by 2001, the gender gap had risen to 35 million, and now experts estimate it as high as 50 million. The practice of female infanticide has a long history in India: Because of the widespread cultural preference for sons, many baby girls used to be killed after birth. But modern technology, particularly the ultrasound machine, has made it easier for parents, and highly profitable for doctors, to practice female foeticide without great risk of detection and punitive legal action. Assumed to be prevalent among Hindus, because of their custom requiring male progeny to perform cremation rites, female foeticide is in fact found today to be equally rampant among Sikhs, Muslims and Christians. Likewise, the practice has usually been presumed to be most prevalent among the poor and illiterate, because of spiraling dowry demands made on brides by the groom's family, as well as other traditional prejudices. However, recent UN and Indian studies reveal that female foeticide is today most frequent among the rich and highly educated. One study maps the increased frequency of female foeticide with rising levels of education - lowest among women with a fifth-grade education and highest among women with university degrees. The consequences of female foeticide and the resulting gender gap are already unfolding: Girls are being trafficked from impoverished neighboring countries like Bangladesh and Nepal or from disadvantaged or tribal areas in India and sold into marriage for the equivalent of about $200 (in Haryana State, a bull costs $1,000). With 50 million girls already missing today, the result of this dangerous practice is ineluctable: A society without women, even if today it is the world's second-most populous, is doomed to eventual extinction. Early this year, after Health Minister Anbumani Ramadoss expressed despair at the government's inability to re- verse this calamitous situation despite legislation and other policies, religious leaders of all faiths convened an "Interfaith People's Yatra (or Journey) of Compassion," a kind of traveling protest march, on female foeticide. It was organized by the Arya Samaj, a reformist social-religious movement founded in 1875, with the support of the central and state governments, Unicef and Unifem. (...) The treatment of women as second-class citizens is deeply embedded in the Indian mindset, whether Hindu, Muslim, Sikh, Christian, Jain or Parsee. Despite legislation making dowry illegal, dowry demands are exorbitant and still result in an estimated 25,000 dowry deaths a year, at the hands of avaricious grooms and in-laws. Child widows are meted execrable treatment and are denied the right of remarriage. Even when daughters are allowed to go to school, they are burdened with household chores, leading to high drop-out rates. Across all the religions, the birth of a son is celebrated while the birth of a daughter is mourned. Until sons and daughters are treated equally, until life is made safe for the Indian woman, the country remains morally under siege. Our march demands not only an end to female foeticide, but to all forms of violence against women. It demands respect for women's rights and dignity from birth to death.” (in "International Herald Tribune", 25-11-2005).

E nós aqui sentados...

20.11.05

DOUCE FRANCE...

O tempo encarregar-se há de escrever a história, tal como os sociólogos se encarregam há quinze anos de prever tudo isto e muito pior.
A França, o país da Tolerância, caíu de alto. Quanto ao Sr. Sarkozy, que tinha demonstrado em 1995 o quão baixo se podia ser, demonstrou muito mais agora. E ainda sonha em ser Presidente...

16.11.05

QUANDO A MORTE MORREU

"Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer, Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro, Creio que não me respondeu, eminência, Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide que o venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o princípio que nós não temos feito outra coisa senão contradizer a realidade, e aqui estamos, Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiantada, Sem mais explicações, À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso..."
José Saramago, in "As intermitências da Morte"

7.11.05

BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS

Os primeiros sintomas apareceram sem que déssemos conta deles. Juizes perdidos numa Sicília esquecida, fizeram tremer o Estado italiano até ás mais altas instâncias. Os seus inquéritos revelaram a fraqueza institucional do poder político e a estranha relação entre dirigentes políticos e a Máfia. Os magistrados correram risco de vida. Alguns deles perderam-na. A sua morte ocupou um canto de página nos principais jornais europeus se tanto, e a página foi virada em quase todos os diários italianos. Mas o início do fim estava próximo.
A reviravolta judicial que partiu de Palerma sob o impulso do Juiz Falcone foi seguida, dez anos mais tarde e sem ligação aparente, pela operação mani pulite (mãos limpas), conduzida por um punhado de juizes milaneses contra a corrupção dos meios políticos. Nascida em Itália, a febre propagou-se pela Europa e pelo mundo, de forma desigual é verdade, mas com força suficiente para que possamos falar de uma “epidemia”.
A febre judicial não é pois, senão o sintoma de uma mudança. Em vinte anos passámos do folclore do Padrinho de Coppola à ordem do dia das principais cimeiras internacionais. Os Chefes de Estado e de Governo pronunciam a cada reunião do G8 discursos assustadores sobre os perigos que pairam sobre as democracias ocidentais por causa das máfias, da corrupção, da droga e outros sistemas criminosos. Sem esquecer o dinheiro sujo e o branqueamento que serve para reciclá-lo. Durante os trinta anos ditos “gloriosos” do pós guerra, tais assuntos teriam sido relegados com alguma repugnância para os Ministros da Administração Interna.
Nos tempos que correm o Presidente Putin refere-se ao país que governa, como uma “grande potência mafiosa”. O Presidente Chirac desloca-se pessoalmente à Córsega depois da morte de um alto representante do Estado e o Fundo Monetário Internacional denuncia publicamente a corrupção do sistema financeiro asiático, de Tokyo a Seoul. O Presidente Clinton fez da luta contra o tráfego da cocaína um dos pilares da sua política externa. Já Bush pai tinha invadido o Panamá e mandado prender Noriega por tráfego de droga.
Como foi possível que dois mundos tão distintos se fundissem com tanta facilidade ? Como foi possível, para juizes oriundos de pequenas comarcas perdidas no meio do nada, desvendarem um fenómeno planetário ? As nossas sociedades estão tão doentes, dizem os mais pessimistas, que estão corroídas pela corrupção, ao ponto de serem ameaçadas nas suas fundações. Os mais optimistas dizem que as democracias pouco mais fizeram do que sobreviver e progredir graças a todos estes “casos mediaticos”.
Contudo, ambos estão errados. Os pessimistas porque julgam que a “Grande Corrupção” é um mal do qual nunca nos levantaremos. Os optimistas porque julgam que já encontrámos um remédio para este mal. Os dois diagnósticos pecam por falta de visão. A “Grande Corrupção” não é nem uma doença terminal, nem tão pouco um mal estar temporário, simplesmente porque não é uma doença mas um estado. É tempo de pararmos de ver o crime como um vírus que ataca um corpo são. O crime não passa do “lado negro” de cada sociedade, e vai evoluindo com ela.
O problema hoje, reside no facto de ser totalmente impossível distinguir a legalidade da ilegalidade, neste universo sine lege que é o planeta financeiro. A “Grande Corrupção” é sinal de uma mutação significativa das nossas sociedades. A economia criminosa não se tornou por mero acaso do destino um sector em plena expansão. A sua historia é indissociável da história da globalização das economias. Quem quiser perceber a importância da questão do crime nos tempos que correm, deverá primeiro analisar quais as mutações da economia e da finança mundiais nos últimos cinquenta anos. Nos mercados financeiros de hoje, tudo é permitido porque nada pode ser proibido.
A formidável ruptura que o mundo está a viver, é ao mesmo tempo o epílogo de um conto iniciado em 1945 com a vitória dos aliados sobre o eixo, e o prólogo dos acontecimentos dos anos 70. Os juizes foram testemunhas de uma assustadora evolução e praticamente os únicos a quererem lidar com ela. Os magistrados encontram-se hoje na primeira linha do combate à corrupção e à criminalidade económica e financeira. Mas pouco mais podem fazer do que assistir a tudo isto impotentes e muitas vezes desarmados, por falta de legislação aplicável.
A finança especulativa, em vinte anos, impôs a sua lógica a todas as outras considerações políticas, económicas e sociais. Necessita de cada vez mais capital e liberdade. As convenções multilaterais internacionais relativas ao comércio sem fronteiras sucedem-se. Cada ano novas barreiras são destruídas e o mercado torna-se cada vez mais global. A boa saúde financeira de um país ou de uma empresa, a reforma de um japonês ou de um americano, dependem hoje de milhões de decisões tomadas ao mesmo tempo em vários mercados financeiros internacionais. Os mercados alimentam-se de dinheiro: fundos de pensões, poupanças, empréstimos, obrigações e... evasão fiscal, corrupção, máfias, armas, droga entre tantos outros males. O dinheiro que circula pelo mundo fora não tem cor, não tem cheiro, se é que chega a ter dono. É fácil então perceber a dificuldade e a incapacidade de combater o chamado “dinheiro sujo”.

28.10.05

EVERYTHING BUT THIS !

"Não te lembras de ter encontrado na vida aquela que se considera um ídolo ? Que havia ela de receber do amor ? Tudo, até a tua alegria de a encontrares, se torna homenagem para ela. Mas, quanto mais a homenagem custa, mais vale: ela saborearia melhor o teu desespero. Ela devora sem se alimentar. Ela apodera-se de ti para te queimar à sua honra. Ela é semelhante a um forno crematório. Ela, na sua avareza, enriquece-se de várias capturas, julgando encontrar a alegria nessa acumulação. E não acumula mais do que cinzas. Porque o verdadeiro uso dos teus dons era caminho de um para o outro, e não captura.
Ela verá penhores nos teus dons e abster-se-á de tos conceder em paga. Na falta de arrebatamentos que te satisfariam, a falsa reserva dela far-te-á ver que a comunhão dispensa sinais. É marca da impotência para amar, não elevação do amor. Se o escultor despreza a argila, terá de modelar o vento. Se o teu amor despreza os sinais do amor a pretexto de atingir a essência, o teu amor não passa de um palavreado. Não descuides as felicitações, nem os presentes, nem os testemunhos. Serias capaz de amar a propriedade, se fosses excluindo dela, um por um, como supérfluos, porque particulares demais, o moinho, o rebanho, a casa ? Como construir o amor, que é rosto lido através da urdidura, se não há urdidura sobre a qual escrever ?
Sem cerimonial de pedras, não haveira catedral. Nem haverá amor sem cerimonial em vistas do amor. Eu só atinjo a essência da árvore se ela modelou lentamente a terra segundo o ceriomonial das raízes, do tronco e dos ramos. Nessa altura, ela é uma. Tal árvore e não uma outra. Mas aquela acolá desdenha as trocas, que a haviam de fazer nascer. Ela procura no amor um objecto capturável. E esse amor não tem significado algum. Ela julga que o amor é presente que ela pode fechar nela. Se tu a amas, é porque ela te conquistou. Ela fecha-te nela, convencida de enriquecer. Ora o amor não e tesouro a conquistar, mas obrigação de parte a parte, fruto de um cerimonial aceite, rosto dos caminhos da troca. Jamais essa mulher nascerá. Só de uma rede de laços se pode nascer. Ela continuará a ser semente abortada, poder por empregar, alma e coração secos. Ela há-de envelhecer funebremente, entregue à vaidade das suas capturas. Tu não podes atribuir nada a ti próprio. Não és cofre nenhum. És o nó da diversidade. O templo, também é sentido das pedras."
Antoine de Saint-Exupéry, in "A Cidadela"

16.10.05

O CRIME COMPENSA

À Fátima, ao Isaltino e ao Valentim, meus inseparáveis Companheiros de Jogo, Mestres e Distintos Professores, sem os quais nada disto virá a ser possível.
Em Portugal vale a pena ser autarca, de preferência autarca corrupto. E faço esta afirmação com a mais firme das convicções, sobretudo depois de ver os resultados das eleições de ontem.
Estou seriamente a pensar em candidatar-me daqui 4 anos à Presidência de uma qualquer Câmara Municipal, por mais desconhecido que possa ser. A chave da minha vitória ? Tornar-me-ei corrupto. Negociarei secretamente com os empreiteiros e empresários locais, clubes de futebol e claro, para além de oferecer um sem número de lugares aos meus “boys” em todas as empresas municipais, farei com que cada munícipe tenha um frigorífico novo oferecido pelas empresas que irão ganhar os concursos públicos que irei lançar uma vez eleito. Sem esquecer os verdes jardins que mandarei plantar, as enormes e bem alcatroadas rotundas que farei construir, e as centenas de bandas sonoras que mandarei colar nos pavimentos das ruas, depois de ter adquirido participações minoritárias em meia dúzia de oficinas locais.
Aos poucos, como uma aranha, irei tecendo a minha teia naquela que poderei então chamar de “minha cidade”. Deixarei de pagar contas nos luxuosos restaurantes locais onde serei visto diariamente em almoços com empreiteiros e empresários perfeitamente desinteressados na minha política. Meros almoços de convivência diremos. Os meus sobrinhos tornar-se-ão donos de muitos andares na “minha cidade”, e os meus primos os legítimos proprietários de terrenos camarários abandonados, que serão por eles revendidos a promotores imobiliários daqui a uns oito anos, quando o meu poder estiver bem implantado, e após a devida alteração do Plano Director Municipal.
É claro, todos estes negócios da minha família – e com os quais nada terei a ver – farão uma pequena doação ás minhas dispendiosas campanhas políticas, bem como ao partido que me apoiar durante todos os meus mandatos. E os digníssimos Senhores de Lisboa que tenham cuidado: não lhes passe pela cabeça expulsarem-me do partido, caso contrário passarei para o partido da oposição.
Penso com toda a honestidade que ao fim de dez anos, após a minha segunda reeleição, terei um quase total controlo da “minha cidade”. Da padeira ao Administrador da maior empresa local, passando pelo Gerente do maior banco e por todos os funcionários públicos. Não esqueçamos claro, a Polícia Municipal.
Rezam as escrituras que virá um dia um jovem Dr. Juiz de Lisboa, obcecado em fazer carreira na “minha cidade”. Pouco importa afinal. Com um pouco de sorte os meus amigos partidários estarão no Governo em parte graças aos fundos que lhes terei proporcionado. No pior dos casos, não terei outro remédio senão em ir passar umas merecidas férias até ao Brasil, para descansar de todo o trabalho que fiz pela “minha cidade”. Venham os mandatos de captura e as prisões preventivas. Venham os processos de corrupção activa ou passiva. Venha aquilo que quiserem. Aguardarei tranquilamente pelas próximas eleições e regressarei impunemente a Portugal, protegido pela imunidade de que gozam os candidatos. E (mais) uma vez reeleito, negociarei com o poder não revelar a gigantesca teia de corrupção que se instalou na “cidade do partido”, em troca de um justo arquivo do processo. Afinal de contas, sou ou não sou um Autarca honesto e empreendedor, que transformou a “nossa cidade” (minha e do Partido) num polo de referência europeu ?
Ser autarca e corrupto em Portugal é o que está a dar. Protegem-me os eleitores, protege-me o Partido, protegem-me os empresários. Quanto à Justiça, bem... o melhor que a Justiça tem para fazer é ir pregar para outra freguesia.

10.10.05

SONETO DA LUA

A quem de direito. Com muito carinho e paixão...
"Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas, e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros ?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros ?
Fugaz, com que direito tens-me pressa
A alma, que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética e indefesa
Ó minha branca e pequenina lua !
"
Vinícius de Moraes

5.10.05

REX ET RESPUBLICA

Costumo dizer que a defesa do sistema republicano é provavelmente a única causa pela qual estaria disposto a dar a minha vida. Pareço um jovem idealista do princípio do século a falar, agarrado a uma causa, tal como Harpagon ao seu dinheiro no "Avare" de Molière.
E afinal de contas, se olharmos para o Rei e a sua corte, poucas são as diferenças que encontraremos entre o Presidente e os seus cortesãos, ou se preferirmos, entre o "sistema" e os seus "boys".
Mas aquilo que me leva a defender a causa republicana é muito mais do que tudo isto. É a igualdade de chances - por mais condicionada que esta possa estar - entre os cidadãos. É a possibilidade, para muitos utópica, para qualquer um de nós em aceder ao topo. Porque um Rei que recebeu o poder de outro Rei por laços de sangue, um Rei que Reina por direito divino, um Rei que ninguém escolhe mas ao qual todos devem subserviência, tem aos meus olhos tanta legitimidade quanto um ditador que tomou o poder pela força.
E Espanha ? E a Suécia ? E a Holanda ? E a Bélgica ? Não tenho dúvidas que são sistemas políticos que funcionam na perfeição. Não é meu hábito intrometer-me em assuntos alheios, mas tenho a certeza que se fosse espanhol, sueco, holandês ou belga seria tão republicano como o republicano português que hoje sou.
Quanto ao Reino-Unido, limitar-me-ei a um pequeno toque de "humour" verdadeiramente britânico : "in England don't ask why, ask since when".
Poderia entrar aqui na mais profunda e convicta argumentação política e/ou de Direito Constitucional, mas afinal de contas, a República está solidamente implantada no nosso país e poucos teriam paciência para ler os meus argumentos que já são de outros tempos...
Viva a República !
n.b. : O Artigo 11.º da Constituição da República define como Símbolos nacionais: "(1.) A Bandeira Nacional, símbolo da soberania da República, da independência, unidade e integridade de Portugal, é a adoptada pela República instaurada pela Revolução de 5 de Outubro de 1910. (2.) O Hino Nacional é A Portuguesa."

4.10.05

PARABÉNS !

28.9.05

O PAVÃO DE LISBOA

Dificilmente consigo esquecer a expressão que o António Barreto utilizou um dia, referindo-se a Manuel Maria Carrilho : "o pavão".
Manuel Maria Carrilho é um personagem atípico e enigmático, cujo percurso político não consigo entender, a não ser que o veja sob o prisma "pavónico". Orgulhou-se de ter sido Ministro da Cultura, depois de um suposto desprezo atribuído por Cavaco a esta área durante dez anos, em que Portugal apenas teve direito a uma Secretaria de Estado. Gabou-se de ter feito muito pela Cultura, mas não deixou nenhum legado visível e digno de mérito. Esforçou-se por ter uma imagem mediática, mas nunca se percebeu se era ele ou o Ministro da Cultura que procurava a dita visibilidade. Traiu vergonhosamente António Guterres, e abandonou o Governo tecendo as piores criticas a um primeiro-ministro a quem tanto devia.
Manuel Maria Carrilho é um filósofo e um intelectual. É Professor de uma reputada Universidade e tem um currículo académico invejável. Quando visito o seu site pessoal (www.manuelmariacarrilho.com) fico com a sensação de que o "Manel intelectual" pouco tem a ver com o "Manel político". E no entanto... no entanto cada vez que o vejo na televisão, cada vez que medito sobre o seu percurso político, fico com a sensação de que é um verdadeiro "pavão" com penas. Um "pavão" de quem acabo por ter pena. Talvez o "Manel intelectual" precisasse sim, de consultar um qualquer "Manel político", perdão quero dizer um qualquer "manual político".
Só mesmo um "pavão" é que aceita de mão beijada o gigantesco presente envenenado que José Sócrates lhe deu em Lisboa (penso que é desta que o PS se vai livrar dele, no dia em que as urnas ditarem uma estrondosa derrota para este partido). Só mesmo um "pavão" é que faz uma campanha tão pedante e agressiva (vergonhosa intervenção contra o candidato Carmona Rodrigues na televisão!). Só mesmo um "pavão" é que se exibe como Carrilho tanto gosta de fazer, aqui e ali, acompanhado por uma mulher que tal como ele, pretende ser aquilo que não é.
Ó Professor Carrilho, faça um favor aos Lisboetas, ao PS e a todos nós : vá pavonear-se para outra cidade !

20.9.05

CABO DA BOA ESPERANÇA

Trinta anos... já lá vão trinta aninhos.
Neste dia supostamente tão "especial" para mim (não fosse ele apenas mais um dia da minha existência), deixo aqui dez ideias que atravessaram o meu espírito ao acordar:
- nunca fui tão feliz como agora;
- não há nada como aprendermos algo de novo todos os dias: cultura e conhecimento são fontes inigualáveis de felicidade;
- o maior Poder de todos é a informação, e não o dinheiro ou a política;
- a nossa verdadeira idade encontra-se nas nossas mentes e não nos nossos corpos;
- o ser humano nasce livre, mas por toda a parte vive acorrentado;
- o ser humano é um paradoxo sem igual: fonte das mais belas criações e mente das piores atrocidades;
- a religião é a droga mais perigosa e letal de todas;
- o Amor, tal como nos é vendido pela sociedade em que vivemos, não existe;
- de omnibus dubitandum;
- no dia da nossa morte não iremos recordar os anos da nossa vida, mas sim a vida que vivemos nesses anos...

12.9.05

MEIOS E FINS

Escreve Peter Singer, Catedrático em Oxford e Princeton, no seu livro “Ética Prática” :
Existem várias questões éticas. Muitas práticas aceites estão sujeitas a sérias objecções. Que devemos fazer a este respeito ? Também isto constitui uma questão ética. Eis alguns exemplos reais a considerar :
Oskar Schindler era um industrial alemão. Durante a guerra dirigiu uma fábrica nas proximidades de Cracóvia, na Polónia. Numa época em que os Judeus polacos eram enviados para campos de extermínio reuniu uma força de trabalho, consideravelmente maior do que a sua fábrica necessitava, constituída por judeus provenientes de campos de concentração e do gueto, e usou vários estratagemas ilegais, incluir subornar membros das SS e outros oficiais para proteger esses judeus. Gastou do seu próprio dinheiro para comprar alimentos no mercado negro para adicionar ás rações oficiais insuficientes que obtinha para os seus trabalhadores. Com estes métodos conseguiu salvar a vida a cerca de 1200 pessoas.
Em 1986, Joan Andrews entrou numa clínica qe realizava abortos, em Pensacola, na Florida, Estados Unidos, e danificou um aparelho destinado a efectuar abortos por sucção. Recusou-se a ser representada em tribunal, com base na ideia de que os verdadeiros réus, os bebés recém-nascidos, não tinham esse direito e eram mortos sem serem devidamente submetidos a julgamento. Andrews fazia parte da Operação Salvamento, uma organização americana que foi buscar o nome e a sua autoridade para agir a um preconceito bíblico para salvar os que são arrastados para a morte e deter os que vão praticar o assassínio. A operação salvamento recorre à desobediência civil para fechar clínicas onde se fazem abortos, conseguindo assim, na sua opinião, poupar a vida de bebés nascituros que os salvadores têm a obrigação moral de defender. Os activistas bloqueiam as portas da clínicas para impedir a entrada dos médicos e ás mulheres que querem abortar. Tentam dissuadir as mulheres grávidas de se aproximarem da clínica indo ter com elas e aconselhando-as sobre a natureza do aborto. Gary Leber, um dos responsáveis pela operação salvamento, disse que, só entre 1987 e 1989, em resultado directo dessas operações de salvamento, pelo menos 421 mulheres mudaram de ideias em relação a abortarem e os filhos dessas mulheres, que teriam sido mortos, estão hoje vivos.
Em 1976, Bob Brown, então um médico em início de carreira, descia num barco de borracha o Rio Franklin, no Sudoeste da Tasmânia. A beleza selvagem do rio e as florestas intactas à sua volta impressionaram-no profundamente. Foi então que, ao fazer uma curva no curso inferior do rio, se lhe depararam trabalhadores da Comissão Hidroeléctrica, que estudavam a possibilidade de construção de uma barragem no rio. Brown deixou a sua prática médica e fundou a Sociedade da Tasmânia Selvagem com o objectivo de proteger as restantes zonas naturais da ilha. Apesar de campanhas vigorosas em contrário, a Comissão Hidroeléctrica recomendou a construção da barragem e, após alguma vacilação, o governo estadual da Tasmânia, com o apoio tanto da comunidade industrial como dos sindicatos, decidiu avançar com o projecto. A Sociedade da Tasmânia Selvagem organizou um bloqueio não violento da estrada em construção que ia dar ao local da barragem. Em 1982 Brown e muitos outros foram detidos e presos durante quatro dias por invadirem propriedade privada pertencente à Comissão Hidroelectrica. Mas o bloqueio tornou-se um foco de atenção nacional e, embora o governo federal australiano não fosse directamente responsável pela barragem, esta transformou-se no tema quente das eleições federais então em curso. O Partido Trabalhista Australiano, então na oposição, prometeu explorar os meios constitucionais para impedir que o projecto da barragem fosse avante. As eleições deram vitória ao Partido Trabalhista, que preparou legislação para impedir a construção da barragem. Embora contestada pelo governo estadual da Tasmânia, a legislação passou por uma maioria escassa no Supremo Tribunal da Austrália com base no facto de o Sudoeste da Tasmânia ser uma zona de património mundial e o governo federal ter poderes constitucionais para ratificar o tratado internacional que criava a Comissão de Património Mundial. Hoje, o rio Franklin continua a correr livremente.
Teremos uma obrigação imperiosa de obedecer à Lei ? Oskar Schindler, Joan Andrews, da Operação Salvamento, e Bob Brown e os que se lhe juntaram à frente dos bulldozers, no sudoeste da Tasmânia, violaram a Lei. Estavam de facto a proceder mal ?
Não se pode lidar com esta questão invocando a fórmula simplista os fins nuca justificam os meios. Só quem adere da forma mais rígida a uma ética das regras não pensa que, por vezes, os fins justificam de facto os meios. A maioria das pessoas pensam que, se tudo o resto for igual, mentir é um mal; contudo, pensam que é correcto mentir para evitar causar ofensas ou embaraços desnecessários, como, por exemplo, quando um familiar, cheio de boas intenções, nos oferece uma jarra horrorosa no nosso aniversário e pergunta se gostamos dela. Se este fim relativamente trivial pode justificar uma mentira, é ainda mais óbvio que um fim importante – evitar um assassínio ou salvar animais de grande sofrimento – também pode. Assim, o princípio de que os fins não podem justificar os meios é facilmente violado. A questão difícil não é saber se os fins podem justificar sempre os meios, mas que meios se justificam em função de que fins.

5.9.05

IRONIAS E CONTRADIÇÕES

A destruição provocada pelo furacão Katrina é impressionante, constituindo muito provavelmente o maior flagelo que a natureza alguma vez infligiu à jovem nação americana.
É irónico constatarmos a este propósito um certo número de elementos, que a meu ver ilustram bem as contradições e incoerências que existem hoje na sociedade norte-americana:
1) os Estados-Unidos são reconhecidos como sendo a única "superpotência" mundial e no entanto, demonstraram uma total incapacidade em lidar com um problema que atingiu o território deles;
2) pela segunda vez num espaço de quatro anos são vítima de um incidente de grande dimensão e pela segunda vez, demonstraram uma total ineficiência na resposta imediata ao problema;
3) enquanto no país pobre que somos, os comandantes dos bombeiros se queixam da inexistência de aviões de combate aos incêndios, no país rico que os E.U.A são, os comandantes militares queixam-se da falta de helicópteros para auxiliar nas operações de resgate;
4) os Estados-Unidos são atingidos todos os anos por furacões e tufões cada vez mais violentos mas recusam-se a ratificar o Protocolo de Kyoto;
5) os E.U.A têm a maior e melhor força militar de sempre na história da humanidade. É irónico constatar que a sua intervenção no Iraque e os recursos que disponibilizaram para essa operação, limitaram a prontidão da resposta ao apelo de auxílio lançado após a passagem do furacão;
6) os E.U.A são o país mais rico do mundo, muito embora um país cheio de contrastes e pobreza extrema, como foi possível constatarmos após o cenário de destruição, pânico e miséria a que assistimos tranquilamente sentados em frente aos nossos televisores;
7) se não nos tivesse sido dito que se tratava dos Estados-Unidos, as imagens de destruição, pilhagem e violência a que assistimos levar-nos-iam a crer que se tratava de uma guerra civil num qualquer país africano, ou até mesmo no Haiti;
8) o País mais rico do mundo não teve outro remédio senão aceitar a ajuda oferecida por outras "superpotências" não dignas desse nome, tais como a União Europeia e Japão, entre outros;
9) o governo americano é muito poderoso e há quem diga que o Presidente norte-americano é o homem mais poderoso do planeta. Poderoso ou não, demorou 36h para se dirigir à nação num tom totalmente despreocupado, alguns dias para abandonar o seu rancho onde passava férias, e quase uma semana para se deslocar ao Estado da Louisiana. Mais grave ainda, esta Administração foi totalmente incapaz de lidar com um problema que não lhe parecia de início grave. As informações recebidas eram totalmente contraditórias, personalidades com enormes responsabilidades nem sequer tinham conhecimento da gravidade da situação quando confrontadas pelos jornalistas. Há governos que caíram por muito menos em sistemas políticos diferentes;
10) os Estados-Unidos, verdadeiros "Golias" do nosso planeta, demonstram todos os dias ter um cada vez maior número de "calcanhares de Aquiles". É bom que tenhamos consciência disso, tal como é de esperar que os seus inimigos não aproveitem para explorar essa(s) fraqueza(s).
Perante este cenário de horror, destruição e miséria, perante o terrível sofrimento de pessoas que tudo e todos perderam, perante as macabras descobertas que surgem após o baixar do nível das águas... nunca é tarde para relembrar este sábio comentário proferido em tempos por Albert Einstein : "Quando agredida, a natureza não se defende. Apenas se vinga."

31.8.05

AMBIÇÃO E PODER

Ao Dr. Mário Soares, a quem, verdade seja dita, entre tantos males devemos a felicidade e eterna gratidão de nos ter salvo do comunismo, dedicamos este pequeno texto de Emil Cioran (in "História e Utopia"). Porque aos 80 anos, com um ego faminto de já não se percebe bem o quê, voltou a candidatar-se à Presidência da Républica.
"Examinemo-nos no momento em que a ambição nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos «acessos». Verificaremos que estes são precedidos de sintomas cuirosos, de um calor especial, que não deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperança, sentimo-nos de súbito responsáveis pelo presente e pelo futuro, no núcleo da duração, carregada esta dos nossos frémitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso cérebro e às vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturbações, de transtornos ímpares, a loucura política, se afoga a inteligência, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-á e exaltar-nos-á; e o feito das nossas enfermidades, o seu prodígio, será tal que elas nos instituirão senhores de todos e de tudo.
À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz. A ambição é uma droga que faz um demente em potência daquele que se lhe entrega. Esses estigmas, esse ar de fera desvairada, essas linhas inquietas, e como que animadas por um êxtase sórdido, quem não os tiver observado nem em si próprio nem em outrem permanecerá estranho aos malefícios e aos benefícios do Poder, inferno tónico, síntese de veneno e de panaceia."
Todos temos o nosso tempo, Ex.mo Sr. Dr...

29.7.05

MEDITAÇÕES ESTIVAIS

O mês de Agosto está aí à porta e durante as próximas três semanas irei interromper a publicação de “posts” neste meu bloguezinho sem importância. Não gostaria de me ir embora sem antes desejar a todos uma boas férias, bem como convidar-vos a reflectir sobre alguns escritos que aqui irei deixar-vos. Não há nada como as férias para ler um bom livro ou meditar um pouco sobre o mundo que nos rodeia. Para tal, sugiro-vos que parem no tempo, olhem para tudo quanto está dentro e em torno de voçês, e tirem as conclusões que entenderem tirar.
Nas suas “Meditações Metafísicas” escrevia Descartes em 1641 : “Apercebi-me há já algum tempo que desde a minha mais terna idade, tinham-me sido transmitidas um sem número de ideias erróneas tidas como verdades absolutas. Tudo quanto fundei sobre esses princípios tão incertos apenas podia ser duvidoso pelo que, precisava pelo menos uma vez na vida, de me desfazer de todas as opiniões que tinha até então absorvido, a começar pelas fundações mesmo deste enorme edifício a que chamo conhecimento.
Em 1758, num pequeno e maravilhoso livro intitulado “Cartas Morais” ou “Cartas a Sofia”, Jean-Jacques Rousseau refere que : “O objectivo da vida humana é a felicidade do homem, ou seja a busca de um prazer que satisfaça simultaneamente o corpo e a mente. Sem princípios e sem objectivos erramos de desejo em desejo, e aqueles que conseguimos concretizar deixam-nos tão longe da felicidade como aqueles que tínhamos concretizado até então. (...) Olhai para este universo que vos rodeia querida amiga. Deitai os olhos sobre este teatro de desastres e misérias. Que esta contemplação vos leve a deplorar o triste destino do homem. Vivemos no clima e no século da filosofia e do racional. Os cientistas e pensadores reunem-se para esclarecer a nossa mente e guiar-nos neste labirinto obscuro que é a vida humana. Os mais belos génios de todos os tempos reúnem os seus conhecimentos para nos instruir, existem imensas bibliotecas abertas ao público, inúmeras escolas e universidades que nos transmitem desde a infância a experiência e meditação de quatro mil anos de História. Tudo nos leva a aperfeiçoarmos o nosso conhecimento e a prodigalizarmos em cada um de nós tudo aquilo que pode formar e cultivar a razão. Mas será que nos tornámos mais sábios ? Será que conhecemos melhor o nosso caminho e o termo da nossa curta carreira ? Será que estamos de acordo sobre os deveres e a moral da espécie humana ? O que adquirimos de todo este conhecimento senão querelas, ódios, incerteza e dúvidas ? (...) Nada sabemos minha cara Sofia, nada vemos ; somos um bando de cegos abandonados à aventura na imensidão do universo. (...) Deitai os olhos sobre todas as nações do mundo, percorrei todas as histórias ; no meio de tantos cultos desumanos e bizarros, por entre esta prodigiosa diversidade de costumes e ideais, encontrareis por todo o lado os mesmos princípios de moral, as mesmas noções do Bem e do Mal.”
Também Rousseau escrevia nas “Confissões” (1765-1770) que : “As recordações dos diferentes momentos da minha vida levaram-me a reflectir sobre o ponto a que tinha chegado. Deparei-me com o declínio da idade, vítima da doença, entrevendo o termo da minha carreira sem nunca ter provado com toda a plenitude os prazeres que o meu coração tanto desejava, sem ter sequer permitido que os sentimentos que nele se encontravam se tornassem realidade. Dizia para mim suspirando : o que fiz eu aqui em baixo ? Era feito para viver e estou prestes a morrer sem nunca ter vivido.
A influência de Séneca em Rousseau é evidente. Já nas suas “Cartas a Lucilius” o autor romano afirmava : “Deixa-te persuadir por esta verdade : existem horas que nos são roubadas pela força, outras pela surpresa ; existem horas que deixamos correr sem darmos por elas. No entanto, a maior vergonha de todas consiste nas horas perdidas por pura negligência : pensa bem e verás que a maior parte da tua existência consiste em agir erradamente, uma grande parte em nada fazer e a totalidade em fazer outras coisas que aquelas que deverias fazer.”
Por mais distantes no tempo que se encontrem estes escritos, por mais anacrónicos que nos pareçam estes textos, é incrível constatarmos a sua actualidade e doloroso pensarmos que ao fim de tantos e tantos anos, o homem parece ter evoluído muito pouco. Serei pessimista, serei realista ou será que a verdade, como sempre, encontra-se no meio ? Não sou Filósofo, mas convido-vos a meditarem comigo sobre tudo isto durante o vosso merecido descanso. Boas férias !

22.7.05